Impressões
A noite está quente. Faz-me lembrar coisas. Uma desesperança cai, cerca-me. Recordo. Mão grossa, pêlos inúmeros, teu sexo a me pressentir a presença. Talvez, se pudesse escrever tudo, se palavras não fossem frágeis e obscuras, me sentiria mais leve ou menos tesa. Se não possuíssem outro lado, onde quem as lê pode rabiscar o contrário... Se pudesse escrever o que sinto sem entraves, ao menos me compreenderias. Se eu fosse escritora...
Mas não. Sou apenas um lápis e um papel vazio. Uma boca com gosto de ressaca. Talvez nem lembres, talvez puseste um quadro barato no local em que deixei pichada tua parede. Chegaste a notar? É, parece que em cada verbo de amor investido, escreveste no verso uma palavra de adeus. E olha que nem és escritor.
Apenas um papel vazio. Solto as folhas ao vento, queria pôr nelas toda ganância de meu ventre, todos os gemidos adormecidos à espera de ao menos um dedo teu deslizar sobre minha pele, sentindo pouco a pouco sua textura. Se pudesse garantir uma efêmera eternidade ao passado, em um caderno qualquer jogado em meu velho baú, poderia me sentir liberta, sem o peso do desejo, sem esse pecado latente impregnado em meus seios. Eles te chamam ainda. Gritam. Deixam um eco e, se atrevo a me entorpecer noutros vinhos, este vem mais sangüíneo, mais visceral. Como uma cimitarra, fere-me do coração à pele.
O papel branco contrasta com a noite. Recordo a música, as mãos; as luzes, os olhos. Teus lábios sedentos, quentes, eu desejando esfriá-los em minha saliva! O recinto cheirava a sexo, nossos corpos pediam, outros casais saíam - escandalosos ou em silêncio - para o sexo. A noite, o amor e o sexo. O amor meu. O que era teu? Talvez uma passagem, um desejo insano. Eu uma porta, pela qual entraste e saíste - entravas e saías, a música, o compasso. Teus olhos fechados, os meus abertos. Em que pensavas? O que sentias, além de minhas unhas encravadas em teu pescoço? Senti o tudo e o nada: tua carne trêmula, por dentro, por cima. Teu suor em excesso, meus cheiros em excesso. O gemido, uma lágrima. O compasso. O sexo. O que sentias, além de minhas formas dançando, embora teu corpo pesasse sobre mim? O compasso de meus quadris - tuas mãos enérgicas, sóbrias, reclamavam trono, minhas carnes.
Mais uma dose de uísque. Duplo, para sanar a ressaca. Acabou o gelo. Apago a luz para aliviar a tensão nos olhos, para me entregar sem receios à noite. Se tivesse o receio de entregar-me a ti, talvez a noite agora não fosse tão longínqua como uma decotada carrasca. Mas apenas talvez. Não saberia que o amor é palpável, tangível como minhas pernas que prendiam tua matéria à minha. Apenas outro talvez. Quero, agora, concentrar-me no ardor do uísque sem gelo, no entorpecer de cada músculo - sinto minhas pernas sucumbirem ao álcool, não conseguirei levantar deste chão, chegar à cama. Sinto minhas mãos dormentes, o tato inerte. Conseguirei extrair prazer de meu sexo numa forçada tentativa de sonhar que é tu que me tocas?
Alcanço a rede da varanda. Deito-me nua e a brisa marítima arrepia-me. De uma só vez, bebo o que resta no copo. Tento não pensar em nada, a brisa me abraça e por um momento sinto-me voar, dançar com ela... Pequenas nuvens agrupam-se, formando um corpo ao mesmo tempo etéreo e tangível, ele tem tua forma, tua cor morena. Sinto até teu perfume e posso ver no fundo de teus castanhos olhos, meu reflexo. Tu me tomas pela cintura, me pões nos braços e me trazes de volta à rede. Nela, começa tudo outra vez.
Desperto. Meus próprios dedos me penetram e consigo até sentir prazer. Mas o teu sexo não lateja quente, ainda vibrante, como quando deixaste em mim resíduos de tua vida. Não, nada recomeçou. Repudio os meus dedos que violentaram meu sonho. O meu sexo, arrependido, torna a secar, querendo fechar seus caminhos a qualquer possibilidade a ti estranha.
Numa tontura, vomito o uísque e a culpa. Tento não pensar em nada e sentir a brisa. No entanto, recordo a música que nos uniu nossos corpos; as tuas mãos que me apertavam contra teu corpo; as luzes frenéticas, oscilantes, a sensualidade de tocar sem ver. E teus olhos, dois pontos incandescentes, inebriantes. Volto a sentir teus lábios sedentos, próximos aos meus, maculando meu hálito. Não, não me beijaste. Me seduzias com teu hálito que acariciava minha boca; eu a entreabria, mordia-lhe em tentativas fracassadas de não ceder ao desejo. Fracasso. Entreguei meus lábios, devorei os teus. O recinto cheirava a sexo... O amor meu. O que era teu? Talvez um desejo, um divertimento. Eu uma, duas, três portas, e entravas e saías, e entravas, saías, o ritmo, o suor - a gota rolando de tua testa, caindo em meu colo, resfriando alguns poros de meus seios. Teus olhos abertos, os meus cerrados. Em que eu pensava? O que eu sentia, além do atrito de minhas unhas em tua carne, deixando um caminho avermelhado em teu pescoço? Senti o tudo e o nada: nossos tremores, por dentro, por baixo, por cima. Nossos suores, mais atritos, os cheiros, o excesso. Nossos gemidos, minhas lágrimas. O sexo. O espaço todo em minha mente; o universo naquela cama. O que senti, além de teu corpo mais se impor com o dançar de minhas ancas?
Senti o tudo e o nada. Equilíbrio.
Agora só a ressaca. Agora, o vômito. Agora, nada.
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Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:23 )



