Maturidade II

Era um pedido atrasado. Perdão. A menina de 17 anos morreu. Eu quis dizer isso, eufemicamente, tentei, mas o príncipe se jogava aos meus pés, surdo. Por um momento, só por um, tive pena e me odiei. Pena é um sentimento fraco e injusto. Impuro. No momento seguinte, quis levantar aquele corpo caído, beijá-lo, lavar seus pés, tratar suas feridas, entretanto seria irreal, apenas um fantasma. Ou uma marionete. E até quis ser um títere. Mas este é apenas um burguês que entra pela porta da cozinha, recitei pra mim mesma.

E o príncipe, agora curvado aos meus pés, não conseguia encarar meu rosto de tantas cicatrizes, meu cabelo crespo, minha pele suja de carvão, meus dedos calejados e unhas roídas. É, era eu. Outro eu, meio dissipado, vertiginoso. Ele não sabia da morte da menina, que pena. Teria chorado por todos esses anos? Quem sabe, nem ele.

O fato é que esse príncipe queria lhe pedir perdão, por não lhe ter feito princesa há oito anos. Que pena! Ela morrera dias depois, depois do natal, em prantos. Fazer o quê? Meninas morrem e não apenas velhas verruguentas como eu, meu bem. Quando não são maçãs envenenadas, quando não são vinhos alterados ou feitiço de madrinha mal amada, são a indiferença e a covardia do príncipe, que preferiu ficar em seu castelinho de cristal, casar-se com a filha de um rei distante a se aventurar contra um dragão para casar-se com a plebéia de pele alva como algodão.

.................................................

Tragicômico! Mais não poderia ser, meu amor. Daqui me vejo plenamente mulher, aos 25, e talvez aos 40, ao olhar para trás, eu pense: como eu era infantil! Aos 17, nos pensamos mulheres firmes da mesma forma. Até mais. Pensamos que nosso ventre há pouco iniciado nos caminhos do prazer sabe muito, mas eram apenas as primeiras trepadas e não entendíamos isso muito bem, não havia "caído a ficha", como dizem por aqui. Aos 17, o amor é tão frutífero: sonhamos, até nos vemos entrando de branco numa igreja se o cavalheiro assim desejar, porque é nessa época que pensamos que podemos e precisamos fazer o desejo do outro. Depois tudo se torna um "foda-se" de alta categoria. Entende? Nem queira. É mais bonito assim mesmo: um quadro, com uma jovem ao centro, segurando sua cestinha de flores celestes, numa manhã celeste e nada mais.

Aos 25, tudo, apesar de menos colorido, é mais palpável. Você pode até jogar seu marido fora, não vai sofrer, não mesmo. Mas você não joga. É incrível. E fica assim, com uma gastrite absurda e uma paixão que nem queima nem apaga, entretanto você tem certeza e gosta disso. Não há mais aquela coisa de "ó, meu menino", e você não olha com os olhinhos brilhando com lágrimas determinadas a transbordar porque seu menino preferiu outra. Não mais. Você e ele, na verdade, têm tantas contas em conjunto, tantos papéis, tantos cd´s e lençóis que parece que nenhuma matemática resolverá justamente a divisão de bens. E olha que você e ele nem compraram o apartamento ainda. É foda, ou não. Afinal, depois que se casa, ele sempre pensa que pode deixar para amanhã.

Só que aos 25 também você não tem mais vergonha de admitir que bateu uma siririca, hahahahaha, bate mesmo e até pensa no gostosão da novela que você acompanha pelos comerciais e pelos comentários de seus amigos. Porque sentar para assistir, nunca. Você tem coisa melhor para fazer, como falar mal do mundo todo com sua amiga. Não, não por telefone, isso já era. Agora, o negócio é MSN. Você tem até uma coleção de carinhas divertidas, para demonstrar todas suas emoções. São tantas, que, às vezes, você fica em dúvida que "beijo" mandar para se despedir.

.................................................

O príncipe se vai a cavalo. Fará o mesmo caminho que percorreu há 8 anos, dessa vez até mais tristemente sincero. Sua estória com a menina fora muito triste, e sempre a conto às jovens de agora. Precisamos aprender com os enganos alheios; ouvir para depois falar; ter nas mãos para depois sonhar com. Ela era apenas uma jovem que, como as jovens de hoje, preocupava-se em se perfumar à noite, e ficar à janela, à vista dos rapazes. E ele para ela sorriu. Para que, perguntou-se ela depois. Mas no exato do momento do sorriso, isso não importava. O que valia é o brilho que escorre da lua até os olhos dele, assim, resplandecentes.

.................................................

("Ontem à noite, eu conheci uma guria, já era tarde, era quase dia, era o princípio do precipício, era o meu corpo que caia. Ontem à noite, a noite estava fria, tudo queimava, nada aquecia, ela apareceu, parecia tão sozinha, e parecia ser tão minha aquela solidão.")

.................................................

E conversas se arrastaram por noites. Promessas ditas. Palavras de amor semeadas, sussurros de paixão eterna. A pobre cortesã sabia-lhe comprometido, contudo nada poderia ser maior que o compromisso que eles se juravam ali, nas mãos que se tocavam infantilmente quando outros não olhavam; nas frases de duplo sentido, que os outros não acompanhavam; em um único beijo, que lhe pareceu eterno, que, se estivesse viva, sentiria a doçura ainda.

O príncipe chegou a romper o compromisso com a princesa de terras distantes. O coração da nossa pequena plebéia acreditou em contos de fada. Pobre moça. Ele se arrependeria dessa decisão. Reatou os compromissos oficiais, afinal nobres se casam com nobres. E nossa menina chorou. Murchou. Palavra alguma a traria de volta. Assim, ela morreu.

.................................................

(Ele disse:

- Nossa música será: "És parte ainda do que me faz forte, pra ser sincero só um pouquinho infeliz."

No que ela respondeu:

- Não mesmo. Será: "Sei que ela terminou, o que eu não comecei!"

E o telefone:

- Tum, Tum, Tum...)

.................................................

Se você joga seu marido pela janela, terá uma lista enorme de otários, veados enrustidos e de amigas lésbicas para lhe fazer gozar. Mas você não quer, não mesmo. Você gosta quando ele finalmente chega, até fica com medo quando ele demora mais de dez minutos da hora de sempre. Começa pensando se ele não estará com outra (inclusive sempre cheira a camisa dele, para se certificar que não há outro perfume), em seguida pensa se ele não foi vítima de um assassinato cruel em plena avenida movimentada e os bandidos se jogaram no rio mais próximo, com os policiais atirando e ferindo outros cidadãos que iam passando. Você se assusta com sua imaginação e até chora desesperadamente quando essa espera passa dos vinte minutos e, coincidentemente, passa na TV, em primeira mão, uma notícia bombástica de um assassinato em uma avenida. Ainda não sabem o nome da vítima.

Seu marido finalmente chega e você pula em seu pescoço. Abraça-o. Sente que não há outro cheiro na camisa senão o dele. Percebe que ele está vivo, apenas cansado. Ele pergunta o porquê das lágrimas e você diz, sinceramente, que o ama. Desse ângulo, você percebe que não mudou muito desde os 17.

Comentários
Adicionar novo
Escrever um comentário
Nome:
E-mail:
 
Título:
UBBCode:
[b] [i] [u] [url] [quote] [code] [img] 
 

3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."

Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:17 )