Mãos d´Alma
a Kirlian Vellarins, a mão que protege
Ela, na rede.
Entrei tentando desviar o olhar enquanto vinham-me à boca apenas cantadas baratas, dessas de esquinas. Mas ela não era garota de esquinas: não me esperava com a face temerosa - seu acaso eu não viesse, ela continuaria calma, sabia de seu poder, de meu frenesi. A sala vazia pesava como seus olhos vazios pesaram, no dia em que nos conhecemos. Vazio: a fonte do mistério, como meu violão que, vazio, faz ecoar em mim o que sou, o que tenho - deveria cantar-lhe uma canção triste e bela, como seu sorriso. Ela não era de esquinas: curvas perfeitas moldavam a rede, seu peso deveria ser de plumas... ela, a pluma.
Conheci-a na noite. Pluma Negra de sangre vermelho, de vinho entornado na calçada, de pernas lisas e brancas à venda. Ela, o vento curvo, o tempo curvo fazendo-me curvar sobre minha carapaça. Eu, a mão noctâmbula, inerte, água de represa. Suas ancas bailavam, plumas hipnotizantes, o corte de seu vestido deixando ver suas formas suaves e tensas, tesas. Epifania. A reconheci de imediato: o amor nunca trafegado saltara a meus olhos; o destino nunca crido fizera ondulações, mostrara-se ali num canto de olho borrado... O suor, nossas maquilagens cederam, seus olhos negros, mais negros pelo lápis que os retocava, os excedia.
Um toque no ombro. Sua amiga acordara-me das lembranças do sábado anterior. Voltei à sala vazia, de onde até então apenas vislumbrava aquelas formas, pele proposta a ser mola da transcendência. Minhas mãos ao tocá-la, ao tecê-la, ao senti-la, tornaram-se almas fugidias, de cor sem reflexo, de textura sem peso. O afago guarda horizontes inapreensíveis aos que o vêem. Quem o sente, entretanto, desiste da morbidez sem nexo, sem tato. O véu do tédio cobria-nos, decerto, contudo nossas mãos minuciosas, precisas, mãos de anjos, descobriam nossos corpos à meia luz de um sábado. E olha que não era raro mãos cederem a nossas entregas sem jeito, sem grado, sem balança: por vezes o afago é gratuito, desatento, corpóreo num tom extremo, tão externo, sem gosto de algodão-doce que nossa alma tem. Isso! Era preciso ir a seu ouvido e dizer isso. Ela, na rede, dormia. A varanda, o vento intenso, a respiração compassada de um ser tão fragilmente revelado, entregue ao mundo. Eram minhas mãos necessárias à sua proteção, era preciso pô-la entre meus dedos, aconchegando suas formas exatas, aquecendo seu tecido vivo! Sim, ela nua entre minhas mãos.
Por enquanto era na rede, coberta, que velava. Aproximei-me e não pude conter minhas mãos que se embrearam entre seus cabelos de seda feitos, cada cacho sendo um complexo de raízes profundas numa nuca-mundo. Acordaram seus olhos, duas rosas castanhas despertas, nascendo para mim naquele sorriso incerto, imergindo em mim. É preciso mesmo protegê-la? Dela, nada me protege. Eu aberto, recebendo aquele olhar triste e belo, aquele sorriso triste e belo. O peso de sua vida acomodando-se em meu ombro, eu recebendo a pluma. Nossas mãos entrelaçaram-se, nossas bocas se acasalaram febrilmente. O sábado passado estava prolongado, predestinado a um eterno afago. Nós, não mais homem e mulher; nós, não mais nós como antes. Nós, o agora. Nós, o momento despido de sua efemeridade.
Ela, da rede, enquanto escrevo, me sorri tristemente.
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Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:23 )



