Vivo da realidade nauseabunda que me permitiram. Eu como carnes de minha própria chaga. A chaga da perna. A chaga do peito. A chaga do olho. Urino na perna para que o ácido sirva para romper o pus. Ainda não lambo o pus. Mas já me estapeio, com o vira-lata que me acompanha, por qualquer carniça que se possa chamar de comida. E visto trapos. Era de se imaginar.
Vivo da carne dos livros. Do cheiro de memória das bibliotecas. E do esquecimento dos fracos. Vivo da seiva dos poemas adubo de poemas e de mais poemas. De orquídeas por sobre outras árvores, vivendo em seu parasitismo vicioso. Orquídeas explodindo em cores violetas em tardes cinzas. E de todos os corvos que vêm à janela, à noite, nem sei para quê. Talvez leiam trechos quando o vento abre alguma página despreocupadamente de um livro qualquer deixado sobre a mesa.
Vivo de teu sorriso limpo. De teu gesto menino de tocar nos meus seios e avidamente sugá-los, como bebê. E vivo do que sugas. É meu prazer que sugas. E vivo dos teus olhos quando olho entre olhos e pernas, entre bocas. Vivo da tua mão espessa que tudo abarca, mas delicadamente separa cada fio de meus cabelos róseos e teces algo indecifrável, como tapeçaria já gasta. Vivo da tua morte anunciada, da partida cômica em uma noite chuvosa. Vivo das macas e dos holofotes.
Das palavras ocas que trocamos, vivo. Agora mais ainda: palavra calculada. Não mais olhas e esqueço. Vivo do pedacinho de espelho partido que restou embaixo da cômoda. Do mofo restante em prateleiras vazias. Vivo do silêncio de quem desaprendeu o toque das palavras. Eu apenas vivo das horas.