Da Falta de Sorte, ou quando se está tresloucada

Meu cabelo está servindo para arear panelas e perco um ônibus. Deixo outro passar, pois nesse eu precisaria descer na universidade e, sinceramente, não estou com saco algum de ver aquelas caras enjoadas, ou talvez a enjoada seja eu, mas no fim o que importa é que não quero ver ninguém conhecido, mesmo. Depois de vinte minutos, embarco finalmente e todo mundo do ônibus me cerca com os olhos, devem pensar que só mesmo uma louca para sair com o cabelo assim. E estão certos. A chuva que estava forte passa e me arrependo de ter trazido comigo a minha sombrinha, azul e excêntrica como eu, grande e pesada, mais cassetete que guarda-chuva. Mas como vou à Praça do Derby, pode ser útil. Sento-me ao lado de um senhor de bigode simpático e esqueço-me um pouco olhando pela janela. Crise de ausência. Normal. Crise esta interrompida quando o senhor vai embora e se senta em seu lugar uma mulher de perfume doce, fortemente doce, enjoado e, claro, barato, possivelmente comprado no Hiper. Nos entreolhamos sérias e me lembrei que meu cabelo não estava me dando moral necessária para reclamar do visual de ninguém. Minha rinite me lembrou que existia, mas como já estava perto de onde eu desceria resolvi não trocar de lugar.

Desço no Viaduto da Caxangá e espero mais uns dez minutos pelo outro ônibus. Como este vem da universidade, entro rezando para que não haja ninguém conhecido. Alívio. Há um lugar na sombra, mas ao lado está sentado um babaca que, não sei ao certo, ou está me paquerando ou se dizendo "nossa! Que cabelo horrível", hoje em dia ninguém sabe, né? Mas o fato é que decido sentar do outro lado, junto a um moço que tem uma cara séria de "minha namorada me mata se eu olhar do lado". Sento e, nas paradas seguintes, o ônibus não tarda a encher. Uma mulher gorda se coloca a meu lado, tapando qualquer possibilidade de ar, começo a suar horrores e são nessas horas que descobrimos que a propaganda do desodorante 24h era enganosa. O moço-de-namorada-ciumenta toma toda janela para si. Acho que vou morrer. Finalmente meu destino chega e desço uma parada antes do Hospital Português, vou à Rua Viscondessa do Livramento validar na sede do plano de saúde o exame que farei logo mais. Passo uns quinze minutos e acho que vou me atrasar para o exame. Saio, então, à toda velocidade, para o consultório. Corto caminho pelo pátio de um restaurante chique e, creio, o segurança fica me olhando, sério: com meu cabelo no estado em que está, realmente não é difícil me tomar por uma trombadinha. Chego à Praça do Derby e pergunto a um motorista de táxi onde fica o bar que me deram como referência para achar a clínica; ele responde, amigavelmente: ali, onde está aquela placa "Pitú". Ok. Mesmo que o signo Pitú não signifique nada para mim, era difícil não ver.

Chego ao local do exame e descubro que a hora marcada era conversa fiada! Nada de 3h05 como "meu horário". Era a partir das 3h05 para chegar, e já há um monte de pessoas-com-cabelo-de-arear-panelas na minha frente! Acho que vou matar a atendente. Mas prefiro ir ao Shopping Boa Vista, comer esfirra. Pego mais um ônibus e vou à Conde da Boa Vista, desço no Shopping e subo ao segundo andar, para o Banco do Brasil. As filas estão enormes e, quando estou quase chegando ao caixa, acabam-se as notas de R$10 e R$ 5! Puta que pariu. Vou para a outra fila, mais tempo em pé, mais cansaço, mais gente me olhando desconfiada, sem eu saber o porquê. Saio do banco e vou à praça de alimentação. Vou ao pastel. Peço de bacon com catupiry. Ao comer, percebo o quanto realmente estou louca: não gosto de catupiry nem de bacon. E eu fora ao shopping comer esfirra. E fui ao banco porque a lanchonete que vende esfirra não aceita débito automático. E lembro que as pessoas devem estar me olhando por conta do meu cabelo em pé, lógico. Estou com vontade de me internar. Desço as escadas rolantes que me dão um pouco de tontura e pego outro ônibus de volta ao consultório. Um cara esquisito fica me encarando e quando desço fica soltando gracinha (tive a "sorte" de o ônibus parar no engarrafamento, perto de faixa onde eu ia atravessar).

São quase 5h e agora o consultório está menos cheio e sei, pela atendente, que serei a próxima a entrar na sala da médica. Sento e uma menina começa a ler sobre Nietzsche a meu lado, quando nota que eu olhava a capa do livro, faz uma cara de intelectual e me olha com ar de superioridade. Ela deve ter 17 anos. Ela deveria ler Capricho. Mesmo. Sou chamada para o exame e a médica faz algumas perguntas. Menti em todas, não sei o porquê, mas menti, eu queria mesmo dizer a verdade, mas outras verdades saíam, e fiquei me perguntando o que era realidade naquilo tudo. Faço o exame e fico completamente tonta. O mundo gira e deixo de sentir minhas mãos e pés. A médica pede para eu sentar um pouco na maca, respirar fundo e, principalmente, para eu ter cuidado ao descer as escadas - escadas em caracol, diga-se de passagem.

Saio com o cabelo pior do que entrei: além de crespo, assanhado, grosso, sem cheirinho gostoso de creme de pentear, está com uma gosma branca, que endurece e fica caindo que nem caspa, está mais assanhado porque deitei na maca, está terrível, enfim. Vou embora, e decido pegar um ônibus apenas para casa: pode-se dizer que eu daria uma volta completa por toda zona sul do Recife. Outro ônibus lotado, de pessoas suadas, que se espremem, se apertam, se roçam. Boa Viagem que de boa não tem nada. O cara do amendoim, o cara da pipoca, o cara da pastilha, os muleques que entraram pela porta traseira para o desespero do motorista, as senhoras, os pais-de-família, os solteiros, as meninas do colégio estadual, as empregadas do shopping, todos, todos, todos, rindo do meu cabelo. E eu, nem aí.

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