Retratos (Ele-gay?)
Lembra a brancura da garota do prédio vizinho, mas não é, aquela tinha sardas avermelhadas que me faziam parecer bailar entre estrelas flamejantes, rodopiando, rodopiando, caindo bêbadas no mar, eu caindo bêbado no. Essa, agora, apesar do cabelo ruivo, esquecera as sardas em algum lugar da barriga da mãe; as espinhas, entretanto, mostram que só agora a pouco saíra da adolescência; não reclamo porque ainda não me julgo ter saído. Sabe como é, não dá para viver dezoito anos recebendo gracejos que ainda se é criança e de um dia para o outro, especificamente 1º de abril, meu aniversário, acordar com cara adulta e sair pagando as contas de casa. Sou uma mentira, nunca tive existência para mim mesmo, nem metafísica, até porque nunca procurei saber o que realmente viria a ser metafísica, não posso ter algo, ser algo, que não sei bem o que é; se o Campos falou para desaparecerem com ela, não deve ser algo bom; deve fazer parte dessas condutas sociais pré-fabricadas, às quais devemos ser contra, como a qualquer lugar-comum. Meus pais, por exemplo, comuns, chatos, sempre prontos, atentos, cães de guarda, salva-vidas, pára-quedas e termômetros: sempre pagaram o plano de saúde em dia e minha vida parecia resolvida, até ontem - por que não atrasar em uma semana para me dar a grana para comprar chicle? isso eu perguntava quando, aos 5 anos, não entendia de porcaria alguma. Hoje, mesmo ainda não entendendo, sei que meu pai não me sorrirá numa explicação dramática e helênica que poderia tirar 50 centavos, que isso lhe faria falta, mas mesmo assim me daria, e me dava. Hoje não preciso de cinqüenta centavos nem de chicles; ela, ali, deve custar algumas latas de coca e umas doses de uísque, uma boa explicação porque precisarei do carro até depois das duas, das três: hoje, o homem em mim precisará mostrar-se mesmo nunca tendo, realmente, existido: não beberei para poder segurá-la ao colo, quando bêbada cair em meus braços, sei que não terei forças e cairemos os dois, pensarão que estamos fazendo amor em via pública e nos prenderão; não usarei aquela saia escocesa, talvez ela não goste desse visual mais-incomum-possivel. Precisarei ter dinheiro para fazer as unhas e limpeza de pele - lavar o carro de minha mãe parece ser uma boa, mas penso que amanhã terei de lavá-lo de todo jeito, se quero usá-lo hoje; ela se importará de ir a pé? a noite está apenas começando, falarei; mentirei que sou esportista, adoro caminhar e bater em ladrõezinhos que esperam na esquina escura da rua 32, seu sorriso crescerá pois saberá que é mentira, não sou forte, não valente, não alguém que possa mentir e tudo bem; saberá que não tenho dinheiro nem para a primeira rodada e rirá de minhas unhas imundas; se gostasse de homens imundos, namoraria o Pedro do terceiro andar. Por que uma garota que pode sair com qualquer cara, sairia comigo? somos materialmente distantes e dizem que sou gay por fazer as unhas; notei que ela não faz as unhas - disso não gosto, mas que se pode fazer? agora, sentindo-me realmente macho, não é mais uma transa onde eu poderia escolher garotas pela perversão de unhas bem feitas, grandes, arredondadas e coloridas; ela não tinha de ser meu reflexo, amor não conhece essas coisas de perfeição e higiene; ela era linda e me satisfazia sem que eu tivesse usufruído seus beijos, se bem que, no final das noites, normalmente, sempre fiquei só, sem usufruir nada; ao menos, dessa vez, posso usufruir uma náusea que chamam sentimento, paixão, se ela não me quiser por falta de grana, tudo bem, contarei da Rita, do 101; ela rirá mais uma vez, pois a Rita não tem cabelos ruivos nem olhos de um castanho vivo e sanguíneo, nem está apaixonada por mim, pois isso é mais uma mentira e de tanta mentira, ficarei sufocado em minhas palavras inférteis. Falarei a verdade, olha sou um cara pobre, mas legal, sei, sei, o Rodrigo da cobertura comprou um carro, claro que eu soube! ah, mesmo, o Otávio do 602 passou em medicina? legal, eu passei em crítica literária - é, acho que não dá tanto dinheiro quanto análise de sistemas, mas eu não sei lógica, caramba! eu sei que você já está no terceiro de direito, que bom, você sempre foi boa aluna, não é? não, não, eu fugia para o banheiro, sabe, contos pornôs eram meus favoritos; também sempre gostei de poesia, mas não espalha, dizem que é coisa de viado - é, eu faço as unhas, algo de errado? Essa coisa de falar a verdade é impensável quando a verdade parece nada exótica, é normal e bruta como pedra falsa antes de ser lapidada: minha vida não é nenhum diamante que eu possa pôr num colar e estender-lhe como convite; convidarei uma garota para sair quando não posso pagar-lhe um uísque? sim, talvez ela nem beba, mas isso não importa - só seu cabelo vermelho me custariam todos os dias de trabalho árduo. Desisto, porque muito me cansa isso de encontro, de ter de estar pronto, a serviço, de não ser mais eu: por que não posso ter mais perfumes que ela, nem chapinha para cabelo, nem serra de unha? Se na história da poesia, desde os trovadores até os modernos, sempre houve poetas e estes possuíam suas amadas-musas-deusas, por que serei eu o viado? Todos os outros poetas eram? Sei não, Neruda pareceu-me bem pack-man, naquele filme do carteiro...
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Última atualização ( Sex, 22 de Maio de 2009 14:38 )



