O Tempo no Discurso Narrativo
Que somos tempo e espaço é um aforismo. Como somos tais entidades continua a ser uma questão filosófica que, quanto mais perseguida, mais longínqua parece, visto que cada resposta torna-se uma aporia e a reflexão torna-se cíclica: regressa-se à questão inicial - "o que é o tempo?". Porque inesgotável, a questão produziu ao longo dos séculos reflexões primorosas - ora belas, como as de tom teológico-filosófico de Santo Agostinho; ora sistemáticas, como as de cunho teórico-literário da semiologia, que evidenciaram a importância do tempo na construção narrativa (esta já pressentida por Aristóteles e posteriormente trabalhada pela teoria dos gêneros). É neste último caminho reflexivo que este ensaio deter-se-á, embora tal escolha não exclua pressupostos filosóficos exigidos pelo próprio tema: o tempo é, decerto e a fortiori, uma criação e uma experiência humana. Entretanto, seguir-se-á o primeiro caminho porque este ensaio não estacionará na criação e na experiência temporais descontextualizadas, contudo se preocupará como tais apresentam-se nas narrativas literárias: o tempo é um aspecto narrativo por vezes tão imbricado em outros que difícil se torna demarcá-lo. É para essa demarcação que os estudos semiológicos tornam-se necessários.
Para responder a primeira questão levantada - "o que é o tempo?" - faz-se necessário relativizá-lo; uma busca por entendê-lo em suas várias nuances funcionais tanto na vida "real" quanto na discursivo-literária. É com essa relativização do tempo que Benedito Nunes dá seus primeiros passos em seu livro O Tempo na Narrativa; um estudo introdutório dessa questão e que será tomado como eixo norteador deste ensaio. Tem-se, então, a primeira "categoria temporal": o tempo físico. Desde as civilizações mais remotas, os movimentos físicos pelos quais passam a Terra são responsáveis pela demarcação temporal humana, assim há o dia e a noite em vinte quatro horas e as quatro estações, por exemplo. O tempo físico é o tempo do movimento, da ação per se; visto anteriormente como absoluto e, depois das teorias de Albert Einstein (1905), entendido em uma relação estreita à determinada porção de espaço no qual a ação ocorre. Esse tempo é cíclico: quando uma etapa se cumpre, retorna-se à primeira; não há mudança visível no tempo, mas vê-se a mudança do espaço ocasionada por ele.
Entretanto tais etapas ganham, dentro das relações sociais, um conteúdo semântico estruturador das mais diversas ações culturais e o tempo passaa ser visto, desde Santo Agostinho (por volta do ano 397), de forma linear (porém houve historiadores como Vico, século XVII, que retomaram a ideia de tempo como cíclico, com períodos recorrentes). Semanticamente, o tempo passa a ser não apenas uma volta da Terra em torno do Sol, mas, metaforicamente, tempo de plantio e tempo de colheita (no passado apenas com agricultores, hoje com máquinas). Assim, cada sociedade busca em sua história fatos importantes, para deles ser feito um eixo norteador, como, por exemplo, o nascimento de Cristo no qual se baseia o calendário ocidental. Dentro dessa perspectiva cronológica do tempo, divide-se a história humana baseando-se nas grandes revoluções, mudanças políticas e avanços tecnológicos; tal divisão também é vista em estudos historicistas da literatura: demarcação de períodos literários de acordo com o momento social de sua existência e das características em comum que este possibilitou. Essa divisão teve seu ápice no século XIX, com a crítica de base positivista que, embora falha, continua sendo a base do ensino de literatura. Hoje, de um ponto de vista mais apurado, a importância do tempo cronológico para os estudos literários está em definir cronotropicamente o ato da leitura para se observar a recepção das obras ao longo das épocas.
Contudo o tempo cronológico é uniforme apenas em sua forma "física"; quando ele é internalizado pelo sujeito, sua dimensão e seu encadeamento tornam-se flexíveis às condições de quem o vive ou o relata. Embora medidos no mesmo relógio, momentos de tédio e momentos de felicidade "parecem" durar distintamente, sobre isso Hans Meyerhoff (1976, p. 12) diz:
A mensuração, ou métrica do tempo, envolve considerações comparativamente simples. Todos sabemos que nossas próprias experiências são uma base pobre para medir objetivamente o tempo. Neste instante ele se escoa rápido; naquele, transcorre lentamente; agora, estamos agudamente conscientes de cada segundo que se escoa; no momento seguinte parecemos completamente alheios ou inconscientes da passagem do tempo.
Assim se no tempo físico o "efeito" nunca virá após a "causa", no psicológico essa ordem submete-se a certas escolhas do sujeito que o narra. Por isso, tal incompatibilidade entre os citados tempos é, de certa forma, análoga à relação tempo da história/ tempo do discurso presentes nas narrativas, sejam elas literárias ou não. Pode-se dizer que esse abismo entre o "real" e o "contar", em narrativas não-literárias, e entre o "fato" e a "fábula", na literatura, é explicado por dois vieses: um de cunho lingüístico e outro fenomenológico.
Se entendido este último viés, mais clara torna-se a questão lingüística: após compreender como se dá a experiência humana ante as três instâncias temporais (passado, presente, futuro), fica mais fácil observar como estas se cumprem no discurso. Em um trabalho muito audaz, Paul Ricoeur apresenta a tese de que tempo e narrativa se encontram numa relação circular, na qual há uma mútua necessidade de existência: o tempo é, necessariamente, articulado de modo narrativo; já a narração só é possível enquanto estruturada por experiências temporais (1994, p. 15). Ele toma como pressupostos duas teorias de universos culturais distintos: os paradoxos do tempo de Santo Agostinho (Confissões) - de certo modo desvinculando tais paradoxos de seu contexto religioso (meditação sobre a eternidade e o tempo suscitada por versículos bíblicos) - e a teoria da intriga de Aristóteles (A Poética). Dessa tese, o que importará para o entendimento do abismo existente entre "fato" e "linguagem" é o desenvolvimento que Ricoeur faz das aporias presentes nas Confissões de Santo Agostinho; de forma sucinta, mostradas na célebre frase de Santo Agostino: "Por conseguinte, o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei" (AGOSTINHO, 2004, p. 342). Mais precisamente, serão interessantes aquelas que dizem respeito à medida temporal.
Há três instâncias às quais se recorre quando se tenta demarcar o tempo: passado, presente, futuro. O paradoxo instaura-se, então, no argumento de que "o futuro ainda não é, que o passado não é mais e que o presente não permanece" (RICOEUR, 1994, p. 22). A resposta à questão vem com a ideia de um tríplice presente; um presente dialetizado, no qual se encontram passado (narração, memória) e futuro (previsão, espera). Essa resposta, nas Confissões, torna-se mais uma aporia, porém traz as primeiras luzes à tese de Ricoeur: o tempo se articula de modo narrativo.
As considerações acima aclaram a anteriormente citada questão do tempo discursivo porque o tempo da enunciação é o presente e é dele que se fala do passado ou do futuro. São os dêiticos, na narração, que situam os interlocutores na cronologia da narrativa. E, dentro da literatura, o tempo linguístico sempre está subordinado ao ponto de vista adotado pelo narrador. Uma obra, por exemplo, cujo narrador relata sua infância, trará o peso da memória desse narrador: serão tidas imagens que, além da mimetização própria da literatura, sofreram uma deformação resultante "da impressão deixada pelos acontecimentos e que permanece fixada no espírito" (RICOEUR, 1994, p. 27). Meyerhoff (1976, p. 50), baseado na teoria psicanalítica de Freud, defende que nada da experiência humana é esquecido, apenas deixado de lado ou reprimido. Ele retoma a ideia freudiana de uma dimensão intemporal do "Id" e faz uma analogia entre a reconstrução da personalidade psicanalítica e a construção de um eu-ficcional. Por serem datadas, de certo modo, as ideias do autor não se sustentam em nossos dias tanto porque a psicanálise já encontrou outros conceitos de experiência e memória, quanto porque a teoria literária não mais vê essa correlação entre o "divã" e a escrita.
Ainda no âmbito do tempo da narração, Benedito Nunes (2003, p. 38) traz outra questão que envolve a relação narrativas/ narrativas ficcionais. Decerto, quando se narra uma experiência pessoal, narra-se no pretérito, situa-se o fato em seu tempo e espaço próprios. Porém quando se trata de ficção, para Kate Hamburger (apud NUNES, 2003, p. 38), fala-se de personagens que existem originalmente em um plano estético, logo o pretérito serviria como um desligamento da ficção com o real; "anular-se-ia a experiência do passado, própria de sujeitos reais, sem ser substituída por uma outra experiência do presente. Nenhuma fase temporal entra na vivência do enredo" (NUNES, 2003, p. 39). Já para Weinrich, os verbos no pretérito indicam que há narração, mas esta não segue a concepção gramatical que equipara o presente, o pretérito e o futuro com o discorrer natural das coisas. Se fosse o contrário, não haveria, por exemplo, livros de ficção científica. Em outra passagem, Benedito Nunes (1994, p. 44) cita Paul Ricoeur para intensificar o conceito de que o passado é o tempo narrativo por excelência:
Porque o tempo apenas pode ser medido por convenções, e só entendido pela experiência, e esta só tem como suporte a linguagem, é que apenas narrativamente se pode compreender o tempo: o "agora" que contém em si tanto a imensidão do passado - que, de certa forma, vai se deteriorando -, quanto a crescente imensidão da espera.
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Última atualização ( Seg, 25 de Maio de 2009 14:59 )



