Sem Estômago

Olhei para o apartamento, a luz apagada dizia que ele já havia se mudado, não dizia mais que isso. Eu quis entrar, subir as escadas, acender as luzes, dizer que tudo aquilo representava muito pra mim, mas que diferença isso faz?, me perguntaria o porteiro moco, e eu responderia muita, mas nenhuma para você!. Visto isso me conformei em parar um pouco em frente ao edifício e olha!, na esquina escura havia um caminhão parado, vi coisas como se o caminhoneiro estivesse comendo uma puta barata, fazendo algo mais real do que eu aqui, em frente a esse prédio imundo, lembrando do barulho que fazíamos, talvez até em vão, para que os vizinhos se espantassem e gritassem injuriados, que merda é essa?, e eu gritasse cada vez mais alto, me chama de puta, porra...

Ela parece que gozou. Acidente de trabalho. Quanto a mim, estou indo ao ponto de ônibus, parece tudo caleidoscópico, e não sei por que bosta parei aqui. Vou caminhando, a rua fede como todo o Recife fede, há cachorros sarnentos por todos os lados, gatos fazendo amor e olha que ainda são oito da noite. Estou indo ao ponto de ônibus para espairecer, nem precisava sair, sabe?, mas queria, precisava de ar, de sexo até, mas ele não pode, ele não quer, se quisesse, como seria?, enquanto os pais velam no quarto ao lado?, que nada! sexo sem gemidos, sem gritos, quero apanhar e quero que me foda ao máximo, eu sempre digo isso, e ele vem com aquela conversinha mole de você gostou?, e eu, enquanto seu pau estiver lá, duro, sedento, querendo mais, pois eu também sempre quero, aí não rola problema.

Olha!, um carro preto parado, o motorista dentro, sinto-me convidada a fingir ser uma puta barata como a outra do caminhoneiro e entrar lá, fazer o serviço, cobrando é claro, talvez eu aprendesse a ler o Ulisses, talvez eu mesma me tornasse o Ulisses, veja a cara dele, sem imaginar que está trepando com uma intelectual, mas se eu lhe dissesse, ele diria preferia que você tivesse o tabaco maior, mais gordinho sabe?, você só tem ossos!, onde está sua bunda, hein?. E eu diria, pô!, podemos discutir Karl Marx, ele mandaria eu engordar uns quilos e eu aprenderia que o mundo não se resume a uma dialética de merda nem a minha anorexia. Mas eu não ficaria calada e sairia gritando que meu namorado diz que minha buceta é gostosa, sim ele diz quando me lambe, e diria que a Nicole Kidman tem bunda pequena também e vive cheia de grana por mostrá-la em filmes.

Deixo o cara em seu corcel lá, sozinho, sem comer ninguém, eu não teria coragem mesmo.

Comentários
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álisson da hora 28-05-2009 18:27

Você é das poucas que dá soco nos estômagos alheios sem chocar, sem precisar
apelar...
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