A única coisa que alguém era capaz de escutar ali era o estrondoso som do silêncio.
B.
Era o silêncio dos teus olhos que me dizia um adeus. E foi a eternidade do tempo que conheci naquele brilho que se escondia sob o elmo. Depois foram apenas tuas costas eretas pela compostura que a armadura impunha; depois foram apenas o trote do cavalo, a poeira revolta e minha expectativa de uma última troca de olhares que por muito não existiu.
Era meu silêncio à janela, a cada tarde. E era de mim que partia a tua voz; uma lembrança boba de infância perdida. E quanto mais me chamavas, mais me escondia entre trigos, atravessando os descampados, só parando um pedacinho de mundo perdido, em outra dimensão colorida, com realidades desenhadas na terra ainda fofa da última chuva.
Era o silêncio da memória que emergia de meu ser e se tornava torre, castelo e muralha. Tornava-se o limite de todo horizonte que eu via. E os campos verdes tornaram-se rochas e a lembrança da tua face tornou-se pouco a pouco um mosaico em tons cinza; tua figura quase toda incerta, a eternidade só não surtindo efeito na candeia que me eram teus olhos.
Mas houve o silêncio do recompor. E não foi um silêncio rápido. A eternidade se sobrepuja e se constrói nos livros de nossos dias. Foi um silêncio saboreado em palavras esparsas, fúteis trocas de gentilezas que refaziam tua imagem e pude reconhecer os teus olhos que agora também me reconheciam. E eles me disseram que ainda não é a hora do silêncio, enfim, de nosso amor.