Entre dois séculos e duas percepções: a correspondência entre Joaquim Nabuco e Graça Aranha (1890-1910)

Cartas de Cícero: "A nossa superioridade presumida provém simplesmente de não sabermos mais o grego nem o latim" [1]

 

Essa frase citada por Joaquim Nabuco, em uma carta endereçada a Graça Aranha, no ano de 1905, foi retirada da correspondência de Marco Túlio Cícero, filósofo romano. Nabuco buscava, por intermédio dessa correspondência, resgatar valores da cultura e da sociedade romanas; partindo desse particular, como ele afirma em outra carta, datada de 1904, pode-se construir uma ideia clara da Antigüidade: sua vida íntima, suas ruas, suas cores. Ora, se Nabuco, ao ler a correspondência de Cícero, vê-se percorrendo as ruas de Pompeia, talvez possamos resgatar alguns traços da intelectualidade brasileira por meio das missivas trocadas entre Nabuco e Graça Aranha, no período de 1890 a 1910.

De maneira geral, temos como conteúdo dessas missivas vários fatos sócio-políticos que constituíram a História do Brasil e, de algum modo, contribuíram para a formação do Estado brasileiro. Nesse período, situado na Primeira República, não era estranho que os homens "de letras" fossem os mesmos empenhados na política; eles tomavam para si a tarefa de criar uma nação liberal e progressista, baseados na cultura europeia. Sendo assim, os pensamentos e obras destes, de certa maneira, espelhavam o pensamento de uma época que estava dividida entre ideais europeus e a necessidade de encontrar a própria identidade brasileira, como forma de sobrevivência do Estado. Nomeados por Nicolau Svecenko [2] como "mosqueteiros intelectuais", eles perseguiam uma atualização da sociedade brasileira de acordo com os padrões europeus; a modernização das estruturas da nação, com sua integração na "unidade internacional" e a elevação do nível cultural e material da população.

Nesse contexto de transformações políticas, como fica a literatura e a crítica literária? O objetivo específico deste trabalho é delinear o parecer desses intelectuais sobre a literatura de sua época; tentando verificar como esses comentários se relacionam com o que já foi dito sobre o pensamento de ambos e da época em questão.

Embora comentários sobre diplomacia e o corpo político brasileiro configurem a maior parte da correspondência trocada entre Joaquim Nabuco e Graça Aranha, encontramos comentários críticos desses intelectuais sobre os lançamentos ocorridos na literatura, como o tão bem recebido "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Assim, como Aranha parece sempre manter Nabuco informado sobre a "dança das cadeiras" na diplomacia brasileira, ele também informa seu interlocutor acerca das eleições na Academia Brasileira de Letras: impressões sobre o papel que um imortal precisa desempenhar na instituição, as expectativas em torno dos candidatos a uma vaga e seus "padrinhos".

O Sr. sabe muito bem a importância que dou à Academia, dentro do espírito desta penso que o meu voto exprime uma consagração ou pelo menos um reconhecimento e nunca um prêmio de animação ou de condescendência. Ora o Amaral não tem individualidade ainda, é provável que o estudo faça dele alguma coisa. [...] não se trata de dar o voto ao Amaral (por quem tenho vivo interesse), mas de não dar ao Euclides Cunha (que não conheço pessoalmente), cujo livro, com todos os seus defeitos de afetação científica, vem colocá-lo entre os grandes e vigorosos dos jovens pensadores e escritores brasileiros. [3]

Verificamos também - e isto talvez por ser mais raro, seja o mais importante - os escritores que dialogam sobre o ato da escrita, revelando as expectativas e as experiências da produção de seus diversos livros. Com nossa pesquisa, esperamos acompanhar, mesmo em nosso século, a transição de um século, que trouxe em si transformações estéticas e de gosto nas concepções sobre arte, literatura, teatro; esperamos, então, apreender um momento crucial para a afirmação da cultura brasileira.

Ora, Joaquim Nabuco sempre mostrou um senso estético raro, fazendo com que uma linguagem nítida e harmoniosa se sobrepusesse ao português castiço, revelando e sempre assinalando que seu conhecimento parte da Antiguidade, advindo de Platão e Cícero; encontrando em Montaigne, Spinoza e Renan outras fontes de conhecimento. Graça Aranha observou certa vez: "desdenhou a correção portuguesa e escreveu esplendidamente em uma feliz linguagem incorreta" [4]  . Essa concepção de linguagem literária foi talvez responsável por essas impressões acerca do livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha:

Vou ler o Japão [5]. Quanto a Os Sertões não pude. Não é o caso somente de empregar a expressão tão expressiva [...]; é o caso de dizer que a floresta impede de ver as árvores. É um imenso cipoal. [6]

Graça Aranha responde:

É muito verdadeira a sua observação sobre cipoal dos "Sertões." Ainda assim naquela coivara há fogo brilhante e forte, faíscas transmissoras de incêndio. O que há no livro é o traço vigoroso, incisivo; e muito desassombro e sinceridade. Há também o sentimento do cal, da raça e da tragédia. Sob muitos aspectos há uma criação literária do Brasil. Contudo a forma também não me é agradável, mas talvez seja um preconceito e uma injustificada antipatia estética, antipatia que eu compreendo ainda mais num espírito feito de harmonia como o seu, cujas raízes eu descubro em Platão, Cícero e Renan. [7]

Para ele, o artista é aquele que se utiliza da mesma argila que o "autor do Gênesis faz o Criador tocar, a única que não mancha as mãos do artista" [8] . E Graça Aranha, ao conceber Canaã, utilizou-se dessa mesma argila, pois, para Nabuco, não havia página na literatura brasileira com tanto simbolismo quanto a passagem do sono de Maria - personagem do citado livro. Além da apreciação formal, Nabuco preocupava-se com a vida que as personagens adquiriam na fantasia e isso Aranha conseguira dar às suas em Canaã. Porém, apesar da obra Canaã trazer "uma nova aurora para as letras brasileiras", Nabuco, com sua concepção universalista da obra de arte, ainda a vê muito ligada à cor local:

o sentimentalismo nacional ou local, - e emprego a palavra sentimentalismo no sentido mais elevado - ainda que seja quase sempre a origem da inspiração, não basta por si só para produzir a verdadeira obra d´arte; esta tem que ser universal, todos os corações devem poder entendê-la, todos os espíritos interpretá-las, para ela achar lugar na galeria da humanidade. [9]

Na época em questão, a consciência nacionalista se desenvolveu em todo o ocidente, pois os Estados-nação modernos estavam se consolidando e se definiam em oposição aos demais. Até mesmo as ditas ciências humanas - história, filologia, antropologia, geografia, etc. - eram, como nos mostra Sevcenko [10] , financiadas pelos próprios Estados "para justificar a organização uniforme de uma ampla área geográfica com seu respectivo agrupamento humano". Joaquim Nabuco cria que tal consciência ofuscava o brio de obras que ultrapassavam o plano local e dialogavam com aquilo que ele tinha por universal: a esquecida tradição clássica; esse esquecimento permitia que os homens se julgassem "presumidamente superiores". Tal convicção era tão latente em Nabuco que, ao desejar publicar um drama em 1909, comenta a Aranha:

Sabe que escrevi há trinta e três anos um drama sobre a Alsácia. Não quero que ele seja obra póstuma. Não o compus para representações pagas tão pouco. Desejava fazer dele uma edição anônima (o nome sempre prejudica a obra) (sobretudo em França um nome estrangeiro)[...] Julgue o meu drama o único tributo desse gênero, da raça Latina à França pelo seu sacrifício. Tenho orgulho dele, ainda que meu espírito esteja hoje em esfera superior a dos conflitos e paixões humanas. [11]

As reservas quanto ao espírito de nacionalidade que pairava na literatura não cessavam, mesmo quando seu drama foi elogiado - possivelmente elogiado, pois Nabuco não especifica qual obra foi elogiada - pelo crítico francês Émile Faguet (1847-1916), tem suas reservas:

Sou muito grato ao Faguet. Não creio que ele tivesse escrito assim, se suspeitasse que eu não era Francês. O preconceito, ou pelo menos a prevenção, se interporia. [12]

Quando se refere a críticos literários brasileiros, como José Veríssimo e Oliveira Lima, Nabuco percebe que a febre do nacionalismo e o historicismo afetavam a recepção de suas obras:

Vejo que o Veríssimo me persegue, como o Oliveira Lima, que ofereceu o livro ao Rio Branco! Para que lhe está servindo o Jornal do Rodrigues! Do meu livro disse que fora melhor eu não o ter publicado; agora dá-me como trabalhando em destruir a nossa nacionalidade. [13]

No Brasil, já se buscava um modelo europeu, no qual crítico era visto não apenas como um intérprete das obras, mas aquele que lhe situava, quase sempre de modo didático, em relação a seu espaço sócio-cultural. "A ficção, para José Veríssimo, era pensada como um instrumento de apreensão cultural" [14]  . Nabuco sempre discordou das críticas de José Veríssimo, que se galgavam nas ideias etnológicas. Discordância aparentemente partilhada por Graça Aranha, já que a este:

Não me agradou o segundo artigo do Veríssimo sobre o Sr. Achei-o mal feito; não é a exposição que ele devia fazer de suas ideias estética, artística, moral e filosófica. Veríssimo não se concentrou bastante para nos dar uma síntese. Limitou-se a transcrever. O primeiro artigo, mesmo no ponto de vista em que se colocou, é muito superior. Para ambos ele precisava de mais filosofia e para o último mais cultura. Veríssimo precisa evidentemente ler os filósofos, e não se pode discutir o pensador Nabuco sem se conhecer Platão, Anaxágoras, e os gregos e Spinoza. [15]

A resposta que Nabuco dá a Aranha,

Vi o segundo artigo do Veríssimo, continua a traduzir-me, isto é, a caricaturar o meu livro. O melhor é não me ocupar dele. Os críticos não podem existir para nós. E Dante não os imaginou! [..] Uma boa página de Cícero basta para elevar-me a outras regiões, [16]

vem nos mostrar uma outra discrepância existente entre o pensamento de Nabuco e Veríssimo: para este - no período que João Alexandre Barbosa chamaria de segunda fase - "havia uma preocupação com a especificação da literatura enquanto arte literária; também com a profissionalização do trabalho do crítico e com o rigor editorial" [17] . Já para aquele, o trabalho da crítica literária, ao menos o da sua época, poderia ser extinto; melhor dizendo, poderia se substituído por pensadores que estivessem imbuídos de um idealismo moral e espiritual, que não estivessem despidos de um cunho filosófico. Sobre o Oliveira Lima, ele diria:

Quando ficar livre do Tacutu e solto na literatura, hei de ser um outro Oliveira Lima. É verdade que as tarefas deste me parecem hoje liliputianas. [18]

Aranha responde:

Sempre tive em grande conta o talento do O. Lima pela claridade, pela permeabilidade de sua retina tão transparente e pelo seu grande poder de assimilação. O Sr. acrescenta com razão o poder de expressão. O erro do Lima é persistir na História. Faltam-lhe inteiramente a sensibilidade do passado e essa força de ressurreição do que não vive mais em seu espírito. Ele é um homem moderno_ nos seus mais profundos e íntimos instintos e na cultura. Daí a vantagem com que ele trata dos Estados Unidos e do Japão, e a incapacidade de nos interessar pelo descobrimento do Brasil. [19]

Para terminarmos essa explanação, é interessante ressaltarmos outro aspecto marcante, não só dessa correspondência em questão, mas das correspondências da época, são longas passagens sobre o estado de saúde dos amigos e familiares. E, um fato emocionante para os leitores dessas missivas é, sem duvida, a morte de Machado de Assis. A maestria com que Aranha descreve a decadência e morte do nosso grande escritor faz-nos reviver o passado e receber a notícia como se não soubéssemos de nada, já que sua obra continua viva. É interessante acompanharmos essa decadência desde o que parece ser seu princípio, com a viuvez de Machado em 1904:

Encontrei o Machado de Assis viúvo. E nada me comoveu tanto como vê-lo acabrunhado, esmagado e ir ao meu encontro logo a minha chegada [...]. Anteontem estive naquela melancólica solidão do Cosme Velho, que procurei animar com a lembrança das coisas vistas. Saí muito tarde, e Machado acompanhou-me um pouco e com dificuldade nos separamos; à entrada havia um grande luar, e ele foi desaparecendo na luz... [20]

Em 1908, com sua doença, ao passo que surge uma preocupação que incomoda Aranha, surge também um reconhecimento de grandeza intelectual que a sociedade da época deixava se esvair, sem a devida importância:

O nosso Machado de Assis está muito doente. Temo que não resista e é com imensa melancolia que vejo se ir finando o nosso querido amigo, a Glória mais pura deste país. É uma corrente límpida e maravilhosa de um jardim secreto que vai se perder para sempre. E nós mesmos, que somos esse jardim de mistério, como guardaremos a lembrança do fio d' água que nos alimentava? [21]

Em outubro do mesmo ano, Nabuco tece sua tristeza nas linhas a seguir, negando a validade de uma estátua como prova de reconhecimento a tão grande talento:

Lá se foi o nosso Machado! A vida nas condições em que ele vivia devia se cruel, mas para a inteligência o existir compensa todos os sofrimentos, e isto tanto mais quanto mais alta ele é. Agora é que vemos a nossa pobreza. Eu sou muito contrário à ideia de estátua. A estátua para ser digna dele teria que ser uma grande obra. A melhor ideia, grande demais para nós, seria comprar a casa e conservar tudo tal qual. Essa é a maior prova de veneração da posteridade. [22]

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[1] As cartas citadas nesse artigo pertencem à Fundação Joaquim Nabuco, Recife-PE. Para a referenciação de tais cartas, utilizaremos o código estabelecido pela mesma fundação. O trecho citado pertence ao documento JN CAp 29 doc.567.
[2] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão - tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

[3] JN CPp 117 doc. 2469

[4] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil - Era Realista, Era de Transição. 7ª ed. São Paulo: Global, 2004.
[5] "No Japão", livro de Oliveira Lima, publicado em 1903, sendo o primeiro no Brasil a tratar do Japão.
[6] NABUCO, Carolina. A Vida de Joaquim Nabuco. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1979.
[7] JN CPp 119 doc.2493
[8] JN CAp 23 doc.446
[9] JN CAp 26 doc.514
[10] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão - tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
[11] JN CAp 74 doc. 1465
[12] JN CAp 78 doc. 1542
[13] JN CAp 53 doc. 1056
[14] BARBOSA, João Alexandre. Teoria, Crítica e História Literária em José Veríssimo. São Paulo: LTC/Edusp, 1978
[15] CPp 213 doc. 4390
[16] JN CAp 41 doc. 819
[17] BARBOSA, João Alexandre. Teoria, Crítica e História Literária em José Veríssimo. São Paulo: LTC/Edusp, 1978.
[18] JN CAp 22 doc.426
[19] JN CPp 118 doc.2483
[20] JN CPp 147 doc. 3062
[21] JN CPp 254 doc. 5193
[22] JN CAp 60 doc. 1198

 

 

 

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Última atualização ( Seg, 01 de Junho de 2009 20:18 )