AnteMorte

...não sabia se seria fácil transcender o setembro, já que lhe parecia longínquo ultrapassá-lo. A noite, tão negra, instigara buscas, sim! Mas o corpo, salientemente pavoroso, não lhe seguira as intenções. Não houvera passos, seus pés repousavam num azul indefinível, desconhecido. As mãos férteis dormiram no sonho, nunca sequer chegaram a realidade de um único verbo. Ali, no abismo, não havia luz, ressaca ou calos: coração dormente. Sentira tudo isto e não entendera porque a cabeça, surpreendentemente, cogitava, ainda, um futuro.

O passado restava num envelope ou selo; porque fotografias sempre lhe pareciam parte de um capitalismo do qual nunca fizera parte. Então, mudara de opinião. Fotografias são almas congeladas que trafegam num incerto tempo, imagem inerte que, mesmo inútil, pode nos revelar quem fomos, caso esqueçamos. O passado, talvez, assombrava-lhe na poeira sobre o abajur. Ou na teia de aranha num canto do teto. Daquele branco do céu-teto fora que já fora mais branco: isso era vertiginosamente recordação. No quarto, então quarto-mundo, apareciam pessoas, entretanto aqueles rostos pareciam crucificados e mortos num canto do cérebro.

Não sabia se era fácil, o setembro. Cheiro de primavera corrompendo o mofo. Noites menos tristes, menos noites. Ventos menos tesos. Solidão menos viva. Um canto de rouxinol. Era fácil esquecer, difícil era encontrar um porquê para recordar.
Comentários
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Alisson da hora 08-06-2009 20:09

"Fotografias são almas congeladas que trafegam num incerto tempo, imagem
inerte que, mesmo inútil, pode nos revelar quem fomos, caso
esqueçamos."

eu digo sempre: "a memória é uma espada
ensanguentada..."

lindo...
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Última atualização ( Seg, 08 de Junho de 2009 16:38 )