A Reescritura dos Mitos Literários


Resumo: Nesse trabalho discutir-se-á o processo de reescritura dos mitos literários. Objetiva-se demonstrar como o movimento de reescrever mitos, antes de ser um indício de escassez, é a característica primeira da atividade literária. Para isso, procurar-se-á diversas acepções da palavra mito em teóricos como Aristóteles, Northrop Frye, Ian Watt e André Jolles, na busca de pontos em comum e para delinear um conceito que embase as idéias propostas neste ensaio. Após definir o mito, elucidar-se-á o processo pelo qual toda obra literária passa: a tríplice mimesis, apresentada por Paul Ricoeur. Nesse processo que perpassa os campos simbólicos sociais, a tessitura da intriga e a recepção de cada texto, a experiência humana ganha sua forma narrativa e se liga à tradição literária, à qual inova e sedimenta ao mesmo tempo.
Palavras-chave: mito, mimesis, narrativa, tempo, tradição literária.

 

1 Introdução

Reescrever histórias é o que impulsiona a literatura. Longe de ser um sintoma de escassez imaginativa, o processo de reescritura demonstra que o alimento primeiro do discurso literário é a própria literatura. Um movimento que lembra a figura mítica do Oroborus: a imagem de uma cobra que engole ou vomita seu próprio corpo, encontrada em culturas diversas e distantes. E, mesmo que busque elementos constitutivos em outros discursos, como o histórico, não consegue desvencilhar-se de uma tradição literária que, de certa forma, estabelece as regras de um jogo. Mesmo que seja para controvertê-la, é desta tradição que a nova literatura se erguerá.

Se pensarmos na literatura ocidental de forma diacrônica, e chegarmos à grega, perceberemos o quanto ela estava ligada aos Mitos organizadores da cultura helênica. A literatura, nesse momento, era uma espécie de redoma que asseguraria a conservação de determinados valores e moral. Entretanto essa redoma logo deixou de ser um estanque repositório que apenas catalogava mitos: ela crescia e as novas inserções reorganizavam sua estrutura. O mito literário, então, tornou-se complexo e se desvencilhou do mito religioso-cultural. Hoje, uma obra que retome Édipo nos fala menos do mito edipiano do que da peça escrita por Sófocles e das obras posteriores que a "reescreveram".

Decerto é importante não confundir a relação existente entre mitos análogos em culturas distintas - como o mito do dilúvio - e a relação entre mitos e textos literários - como Shakespeare que retoma a idéia do "desencontro amoroso" na peça Romeu e Julieta, já presente no mito grego de Píramo e Tisbe. Enquanto no primeiro caso temos uma questão antropológica - como culturas espacialmente distantes produzem mitos análogos -, no segundo não podemos negar certo grau de consciência por parte do escritor em retomar determinado mito. Não que uma arqueologia dos mitos não seja de certa importância para a compreensão dos estágios pelos quais a arte literária passou. Ao contrário, estudos sobre a estrutura do mito auxiliam a perceber de forma mais delineada as mudanças sintáticas e semânticas pelas quais ele passa. Entretanto, a reescritura é o cerne da própria atividade literária: livro algum nos traz a última palavra sobre determinado assunto; livros tornam-se, então, sementes de novas obras. Mostra-se, assim, imprescindível para os estudos literários averiguá-la. Quando falamos na reescritura como "em certo grau consciente", estamos admitindo que não seja possível mapear todas as influências diretas de um autor, visto que as leituras por ele feitas já são intertextuais. Nas linhas a seguir procuraremos discutir e delinear os processos da reescritura, destingi-la da formas simples e defender que o processo intertextual não é algo novo, embora ele aconteça por meio de processos que se modificaram ao longo do tempo.

2 Mito: da forma simples à complexidade literária

 

A palavra mito carrega em si duas problemáticas, uma de cunho conceitual e outra, ideológico; que, se podem ser entendidas separadamente de modo didático, possuem uma realidade de mútua dependência. A problemática de cunho conceitual instaura-se nas diversas ocasiões em que o termo mito é utilizado. Ao menos neste ensaio poderemos nos deparar com quatro significados para o termo: 1) Disposição mental que, ao mesmo tempo em que busca abarcar fenômenos não compreendidos, cria-os, também chamada aqui por forma simples (JOLLES, 1987); 2) Conjunto dessas disposições mentais que organizam determinada cultura; 3) Disposição de fatos em um sistema, ou seja, a própria tessitura da intriga (ARISTÓTELES, 1984, p. 246). Retiramos o quarto significado do livro Fábulas de identidade (1999) de Northrop Frye, no qual o autor parece unir, na palavra mito, a primeira e a terceira assertivas aqui apresentadas. Isso porque ele sugere que o mito está ligado ao tema de determinada narrativa, porém não entendamos tema aqui por "assunto" - apenas a superfície textual -, mas como uma união entre assunto e forma:

O tema, assim considerado, se diferencia sensivelmente do enredo em movimento: é o mesmo em substância, mas agora estamos mais preocupados com os detalhes em relação a uma unidade e não em relação ao suspense e à progressão linear. Os fatores unificadores ganham uma importância nova e ampliada e os detalhes menores do sistema de imagens, que podem escapar da percepção consciente na experiência direta, assumem sua significação adequada. (FRYE, 1999, p. 31)

Essa concepção parece ser a que mais se aproxima da que utilizamos na parte final deste trabalho, embora, antes, achamos necessário separar e explicitar a significação das outras assertivas. Para ilustrar rapidamente a idéia de Frye - os temas podem ser reorganizados, transformando-se em histórias diferentes -, vejamos o exemplo que ele nos traz:

O Pardoner´s Tale, de Chaucer, é um conto popular que começou na Índia e deve ter chegado a Chaucer por meio de alguma fonte européia-ocidental. Também ficou na Índia, onde Kipling o recolheu e colocou no Second jungle book. Tudo é diferente - cenário, detalhes, método de tratamento -, contudo, penso que qualquer leitor, em qualquer nível de sofisticação, diria que era reconhecidamente a mesma "história" -, isto é, história como tema, pois a progressão linear é o que é diferente. (FRYE, 1999, p. 32)

Quanto à problemática ideológica, quem nos mostra alguns dos desencontros é André Jolles (1987), em seu livro Formas Simples. Ao resgatar algumas definições do Mito, ele demonstra como são imprecisas e estão impregnadas por uma visão depreciativa do mito, pois sempre o coloca como algo "primitivo", rudimentar, não-elaborado. Mesmo quando entendido como "primitivo" na sua asserção de "preliminar", a noção que se forma é de evolução, como se o Mito não fosse suficiente em si mesmo e precisasse de uma estrutura posterior para existir. Ele é sim primordial, mas não se encontra nesse declive em relação ao que dele brota. Antes, é uma relação cíclica: determinada questão torna-se mais estruturalmente complexa, porém busca apenas responder o que já havia sido respondido pelo mito. A pergunta do mito era simples, mas a resposta não o era. Não obstante era sua complexidade, ele fecha de tal forma sua resposta que outras perguntas são anuladas. Antes, até mesmo a pergunta primordial se anula. Para exemplificar tais idéias, peguemos o exemplo utilizado por Jolles (1987); ele busca no livro do Gênese o mito da criação do Universo para nos fazer entender como a pergunta mítica anula-se na resposta. Comentando sobre imagem do aparecimento dos astros (e, logo, da divisão do dia e da noite), ele argumenta:

Quem as colocou onde estão? Como era antes de virem a iluminar o universo, antes da separação do dia e da noite, antes da divisão do tempo? Uma resposta chega então ao interrogador; e essa resposta é de tal natureza que não é possível formular outra pergunta; a pergunta anula-se no mesmo instante em que é formulada; a resposta é decisiva. (JOLLES, 1987, p. 87)

Assim, o mito, diferentemente do corriqueiramente argumentado, não está numa disposição inferior ao logos, mas se encontra em paralelo. Seguindo ainda o pensamento de Jolles (1987), utilizaremos o exemplo por ele citado para verificar a assertiva acima: a Odisséia. No Canto XX, Odisseu entra em seu palácio vestido de mendigo, e um jovem (Ctesipo) que banqueteava à sua mesa, sem reconhecê-lo, insulta-o e joga-lhe uma pata de boi à cara. Odisseu despe-se do disfarce, todos os que estavam à mesa são mortos, e o jovem insultante foi morto por Filoitio, que diz as seguintes palavras: "Não mais falarás com bazófia, arrastado pela insensatez. Dá agora a palavra aos deuses, que podem mais do que tu. Em retribuição da pata de boi que há pouco deste ao divino Odisseu (...), recebe agora esta lançada como dom de hospitalidade" (HOMERO, apud JOLLES, 1987, p. 92). Nesse trecho a dualidade logos/ mito não é dissolvida em favor da superioridade do primeiro sobre o segundo, ao invés disso a importância do mito é reafirmada, como argumenta Jolles:

O fato de Ctesipo ter acreditado que o mendigo que se encontrava entre os pretendentes era um mendigo de verdade; o fato de ele ter pensado que podia reconhecê-lo como mendigo e assim o tratar, baseando-se nesse conhecimento, esse erro é então chamado temeridade e tolice. A verdade, o mythos, é que tal mendigo não era mendigo[,] mas Odisseu em pessoa. Partindo do conhecimento, Ctesipo ignorou a natureza específica do mendigo, ignorou o mythos conhecido dos deuses. (JOLLES, 1987, p. 92)

Desse Mito, organizador e criador ao mesmo tempo, a literatura parece guardar a forma de conhecer o mundo que se lança - mesmo sem desprezar o logos - a uma dimensão criadora de perguntas e respostas e que não necessita de argumentos extrínsecos para se sustentar. A verdade literária, assim como a mítica, não admite verificações. Se no Mito, "a questão é, em primeiro lugar, um desafio que parte de fenômenos universais e vai, simultaneamente, na direção deles; fenômenos ao mesmo tempo múltiplos e constantes que, desse modo, sobressaem na diversidade dinâmica e viva da realidade cotidiana" (JOLLES, 1987, p. 99), na literatura o movimento é similar. O mito literário instaura-se, então, na tentativa de apreender pela escrita os questionamentos humanos e criar um universo próprio que lhes responda. Não que estes questionamentos sejam tão explícitos e as respostas tão entregues; não tratamos aqui de uma literatura-conhecimento que apazigúe dilemas e venda soluções. Falamos de uma literatura que desnuda a todos os anseios humanos, sejam eles vis ou agradáveis. Da mesma maneira que perguntamos sobre o Sol e o Mito, ao nos responder, cria um "luzeiro cravado no firmamento que separa cada dia de cada noite" (JOLLES, 1987, p. 99), as obras literárias ao nos responderem sobre o amor, a tirania, a compaixão, o desprezo, a angústia, também os cria.

A literatura, vista assim, parece perseguir sempre os mesmas questões. E, de certo modo, o faz. Entretanto há pelo menos duas mudanças significativas em cada perseguição e elas não permitem que as questões se tornem obsoletas e as obras repetitivas. Chegamos, então, à questão do mito aristotélico - a tessitura da intriga -, responsável pelas mudanças sintáticas ocorridas no paradigma literário e à questão da atualização semântica dos mitos, ocorrida a cada vez que o mito é recontado. E são delas que trataremos no tópico a seguir.

 

3 Reescritura do mito literário: inovação e sedimentação

Apenas pela narratividade resolvemos nossa problemática da experiência. É-nos simpática a teoria lançada por Paul Ricoeur (1994), na qual afirma que só pelo mito (aristotélico) organizamos nossa experiência temporal: é a narratividade que dá forma às sensações do sujeito ante o tempo. Ele nos alerta da proximidade dos termos mito e mimesis: entenda-se, aqui, por mito, a disposição dos fatos em um sistema; e, por mimesis, uma imitação (representação) dinâmica, criadora, da experiência temporal viva. Essa proximidade se dá porque na mimesis não temos apenas o imitar/ representar o conteúdo da ação per se, mas também a imitação do modo de "agenciamento" dos fatos. No trecho aristotélico a seguir, vemos como o filósofo já percebia os diversos níveis em que se dá a imitação-criadora literária:

 

É portanto necessário que sejam seis as partes da tragédia que constituam a sua qualidade, designadamente: mito, caráter, elocução, pensamento, espetáculo e melopéia. De sorte que quanto aos meios que se imita são duas, quanto ao como porque se imita é uma só, e quanto aos objetos que se imitam, são três [...] (ARISTÓTELES, 1984, p. 246)
Entretanto, segundo Ricoeur, a tessitura da intriga é apenas um estágio da mimesis (por ele chamada de mimesis II); um ponto intermediário no qual um estágio anterior (mimesis I) e um ulterior (mimesis III) se encontram. Esses dois níveis correspondem, respectivamente, a um estágio corresponde a pré-narrativas simbólicas; e à refiguração da experiência narrativa por parte do leitor. O que o autor faz é atualizar e verticalizar o que outrora fora sentido por Aristóteles. E essa lógica de Ricoeur embasa nossa visão de que a literatura prossegue como novidade pelo processo de reescritura, que atua tanto no campo sintático quanto no semântico. Entender tal divisão certamente nos auxiliará em demonstrar qual a importância e como funciona o mito no sistema literário.

 

 

O âmbito da mimesis I corresponde a uma "pré-compreensão do mundo e da ação" (RICOEUR, 1994, p. 88) que o sujeito possui, ou seja, uma inteligibilidade das estruturas socialmente estabelecidas, de seus campos simbólicos e de seu caráter temporal. "Compreender uma história é compreender ao mesmo tempo a linguagem do "fazer" e a tradição cultural da qual procede a tipologia das intrigas" (RICOEUR, 1994, p. 91). Se tomarmos a mimesis como imitação da ação, é preciso que haja, a priori, uma ação geral sintática e semanticamente estruturada. Além de termos consciência da organização da ação (o "que" "como" e "por que" aconteceu; "quem" agiu, "com" ou "contra" quem), partilhamos dos significados socialmente estabelecidos destas determinadas ações. É dessa pré-figuração que partem as narrativas, tanto histórica quanto a literária. Como diria Ricoeur:
Mas o fato decisivo é que empregar de modo significativo um ou outro desses termos ["que", "por que", "quem", "como", "com", "contra quem"], numa situação de questão e resposta, é ser capaz de ligá-los a qualquer outro membro do mesmo conjunto. Nesse sentido, todos os membros do conjunto estão numa relação de intersignificação. Dominar a trama conceitual no seu conjunto, e cada termo na qualidade de membros do conjunto, é ter a competência que se pode chamar de compreensão prática. (RICOEUR, 1994, p. 89)

 

 

A mimesis II corresponde ao fazer narrativo em si; o ponto que se confunde com o mito, a tessitura da intriga. É o âmbito do como-se: um espaço mediador entre o pré-conhecimento da narratividade e a reconhecimento narrativo pelo leitor. É nela que reside nosso maior interesse, pois ela "extrai de uma simples sucessão [de fatos] uma configuração." (RICOEUR, 1994, p. 103); é ela quem resolve, poeticamente, o paradoxo do tempo. É a mimesis II que
engendra uma inteligibilidade mista entre o que já se chamou de a ponta, o tema, o "pensamento" da história narrada e a apresentação intuitiva das circunstâncias, dos caracteres, dos episódios e das mudanças de fortuna que produzem o desenlace. É assim que se pode falar de um esquematismo de função narrativa. (RICOEUR, 1994, p. 107)

 

E é desse esquematismo que se fará a tradição da literatura. Cada passo é incisivo tanto para solidificar um paradigma narrativo quanto para inová-lo. Ele é perpetuado com seu reconhecimento e sua reutilização. Tomemos por paradigma, aqui, não apenas a forma narrativa ou gênero literário, mas obras singulares também que, ao se inserirem na tradição, reorganizam-na e transformam-se na fertilidade da literatura porvir. Em contrapartida, é esse mesmo esquematismo que dará subsídios para a experimentação e para o desvio paradigmático: na tradição já está a semente da mudança. A obra nova e discordante dos modelos anteriores, assim, reformula o modo de tessitura da intriga e torna-se, por sua vez, típica. É por isso que os paradigmas devem ser compreendidos como uma gramática que em certo sentido regula a elaboração das novas obras literárias. E, embora o número das regras estabelecidas seja limitado, o número das formas e dos conteúdos possíveis é imprevisível e pode resultar sempre em produções originais.

 

Quanto à mimesis III, ela compreende a recepção dos leitores. Mas não uma recepção passiva, e sim aquela em que se completa a significação, na qual os horizontes simbólicos se chocam e produzem o sentido. Essa dimensão mimética também podia ser encontrada em Aristóteles, embora mais delineada por ele na Retórica que na Poética. Entretanto, como expõe Ricoeur (1994, p. 110), quando Aristóteles diz, na Poética, que a poesia "ensina" o universal, que a tragédia, "representando a piedade e o terror,... realiza uma depuração deste gênero de emoções", ou ainda quando evoca o prazer que temos de ver os incidentes aterrorizantes ou lamentáveis concorrerem para a inversão de sorte que constitui a tragédia - significa que é bem no ouvinte ou no leitor que se conclui o percurso da mímesis.

É nesse ponto que os paradigmas estruturam as expectativas do leitor e fornecem as diretrizes de leitura. Por isso, a leitura reconfigura a história, atualiza-a. é do leitor a tarefa de preencher as lacunas de sentido ou até mesmo, como Ricoeur (1994, p. 118) exemplifica, em casos mais extremos de desvio como Ulisses de James Joyce, "carregar o peso da tessitura da intriga". Entretanto, a questão do reconhecimento sintático é apenas a primeira instância percorrida pela mimesis III; outro problema se instaura na leitura: o da referência, afinal cada leitor acolhe determinada obra conforme sua capacidade de acolhimento - por sua vez definida por um horizonte simbólico. Não há referência sem diálogo, ela sempre é uma co-referência. E, tentar recusar o problema da referencialidade - deixando de lado o impacto da literatura sobre a experiência cotidiana -, endossa-se ao preconceito de que "só é real o dado tal como pode ser observado e cientificamente descrito" (RICOEUR, 1994, p. 121); abole-se, então, a nossa convicção de que o conhecimento mítico é apenas uma forma paralela de ser apreender o mundo. E é por essa tríplice mimesis que o mito se atualiza.

 

Não podemos esquecer que Ricoeur tece suas considerações para demonstrar que as narrativas histórica e literária possuem uma identidade estrutural, tanto no que tange ao modo como são formuladas quanto no modo como são resimbolizadas no processo da recepção. Isso porque ambas passam pelo mesmo triplo processo mimético e só são distinguíveis quando inseridas no jogo sócio-ideológico de significação, além de que ambos os modos narrativos possuem uma exigência de verdade. Mas as diferenças entre essas narrativas se dão justamente no modo como exigem a verdade, e lógico, ela passa pelos jogos simbólicos da significação.

Decerto se olhássemos mitos históricos de maneira congelada sem inseri-los na ideologia político-social de sua época, nós os tomaríamos por ficcionais. Entretanto, como entendemos a "verdade" como um constructo discursivo, e se alojarmos o mito histórico em seu campo ideológico, veremos que ele se constitui como verdade histórica dentre de seu campo simbólico. Ele era regido pelo logos de sua época, embora para nós - observadores - pareça mítico. Se tratarmos da História contemporânea, mesmo que reconheçamos que, igualmente à literatura, ela é construída por meio de tropos discursivos - metáfora, metonímia, sinédoque e ironia -, como nos mostra Hayden White (2001); mesmo partilhando da proposição de Ricoeur de uma identidade estrutural entre os discursos - por meio da tessitura da intriga -, veremos que ela está atrelada a uma verdade da qual o discurso literário foge.

Mesmo que possuam significações diferentes, os mitos - enquanto forma simples e enquanto tessitura da intriga - unem-se para nos auxiliar no delimitar de fronteiras do discurso literário. É neste ponto que regressamos a idéia de Frye e a utilização do termo mito passa a ser uma.

 

4 Considerações Finais

 

Quisemos, com este trabalho, demonstrar como a cada reescritura, uma obra, embora faça uso de sintagmas já utilizados, cria significações novas. Esse artifício não é um aspecto de determinadas obras, mas se configura como o movimento mesmo da arte literária.

O surgimento de cada obra se faz por uma tríplice mimesis, que envolve desde um pré-conhecimento das formas narrativas até o fechamento da obra pelo leitor. É nesse jogo que os sintagmas da tradição literária ganham uma nova elaboração e cada novo livro, assim, contribuem para o processo de sedimentação e inovação do paradigma da tradição literária.

 

5 Referências bibliográficas

 

ARISTÓTELES. Aristóteles. Metafísica, Ética a Nicômaco e A Poética. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
FRYE, Northrop. Fábulas de identidade - Estudos de Mitologia Poética. São Paulo: Nova Alexandria, 1999. p. 28-47.
JOLLES, André. Formas simples. São Paulo: Cultrix, 1987.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa - Tomo I. São Paulo: Papirus Editora, 1994.
WATT, Ian. Mitos do individualismo moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
WHITE, Hayden. Trópicos do discurso - ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 2001.

 

Comentários
Adicionar novo
cientifica
nildomar siqueira de souza 01-09-2010 10:18

e muito importante para o aluno saber sobre o tema rescritura,ou seja,poder
entender melhor sobre a literatura.
Virgínia celeste 01-09-2010 10:22

é sim importantíssimo, já que é a reescritura o processo primeira do fazer
literário

obrigada pela visita.
Escrever um comentário
Nome:
E-mail:
 
Título:
UBBCode:
[b] [i] [u] [url] [quote] [code] [img] 
 

3.26 Copyright (C) 2008 Compojoom.com / Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved."

Última atualização ( Ter, 08 de Setembro de 2009 13:34 )