A Visão do Mar em Sophia de Mello Breyner

Texto lido no seminário
"Na véspera de não partir nunca": 70 anos sem Fernando Pessoa,
UFPE, 2007.

 

Não foi em sala de aula que conheci Sophia de Mello Breyner Andresen. A ela fui apresentada por uma amiga, quando discutíamos a existência, ou não, de uma "escrita feminina". Teria sexo, a escrita? Haveria peculiaridades na literatura produzida por mulheres? Embora não tenhamos chegado a uma conclusão, concordamos que a obra de Sophia de Mello nos causava o mesmo sentimento: um silêncio crítico. Não silêncio de desprezo ou indiferença, mas aquele que nos obriga a rever nossas bases teóricas; que revela o quanto a literatura é sempre mais ampla que o discurso crítico, isso porque, como disse Bachelard, "a palavra de um poeta, tocando o ponto exato, abala as camadas profundas de nosso ser" (2003, p. 32).

Ao pesquisar por ensaios sobre Sophia, encontrei um que tinha por tema "o mar" e seguia os pressupostos teóricos que eu pretendia trilhar. O ensaio Mar-Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen: Poética do espaço e da viagem, escrito por Helena Conceição Langrouva, publicado pela primeira vez na Revista Brotéria em 2002, serviu-me como orientação para minhas idéias esparsas. Por ele, soube que os críticos literários portugueses, até os anos setenta, partilhavam do meu silêncio, pois não havia como encaixar a poética de Sophia em uma corrente estética. Não era necessário recorrer a teorias para ali encontrar poesia, pois, segundo a autora do ensaio, Sophia está no mesmo patamar de Rilke, de Novalis, de Homero, dos líricos gregos e dos românticos ingleses e alemães.

Basta apenas conhecer os títulos eleitos pela autora para entender o motivo pelo qual escolhi falar sobre a imagem marinha: Dia do Mar (1947), Coral (1950), Mar Novo (1958), História da Terra e do Mar (1984), Mar-Poesia (2001). Em sua poesia, encontram-se os mais variados componentes do mar - sal, areia, sol, água, vento, coral, baía. E mesmo que não haja menção direta ao mar, podemos perceber que a luz, a claridade de seus versos lembram uma tarde na praia.
Porque o mar diversas vezes é mostrado como uma extensão do eu lírico, aqui o tomaremos como uma imagem e não como uma metáfora. Seguiremos aqui a distinção que Bachelard faz em seu livro A Poética do Espaço: "a metáfora vem dar um corpo concreto a uma impressão difícil de exprimir" (2002, p. 82), enquanto a imagem guarda parte do ser do escritor, doando suas experiências ao leitor. São as simples, porém grandes imagens que revelam o estado da alma. Seguiremos também a lógica bacherladiana de que "a relação entre uma imagem poética nova e um arquétipo adormecido no fundo do inconsciente [...] não é propriamente causal". Dessa forma as imagens marítimas de Sophia não são apenas um eco das imagens criadas por poetas portugueses, de Camões a Pessoa, mesmo que o imaginário português esteja preenchido por imagens aquosas e salgadas. Mesmo Bachelard acha que negar a causalidade é grave, por isso ele nos traz o conceito de repercussão. É neste processo que um arquétipo torna-se uma imagem única, nascida da subjetividade do poeta e que será transubjetivada por outro ser - o leitor. É por isso que ela traz consigo sempre uma novidade.

Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.

 

(ANDRESEN, 2001, p. 9)

 

Essa é a epígrafe de sua antologia Mar-Poesia. Antologia essa organizada pela autora e que traz em si toda a identificação do sujeito lírico e o objeto (mar). Nesse trecho, em um processo de fundição, parte do sujeito transforma-se no objeto, revelam uma parte consciente do sujeito que se sabe etéreo e, ao mesmo tempo, marcante. Não seria essa mesma a essência da poesia de Sophia? Ao passo que é de difícil classificação estética, inquieta-nos com seus versos rápidos e aquosos.
A profundidade do mar em Sophia desliza entre dois sentidos distintos. Ora nada tem de soturna ou tenebrosa nem está ligada ao estado de sono do sujeito. Ao contrário, a densidade e o peso do mar significam o movimento e a experiência daquele que carrega vida dentro de si:

Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.

 

A tua beleza aumenta quando estamos sós.

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.

(ANDRESEN, 2001, p. 16)

 

Ora essa profundidade torna-se tão escura quanto os recantos mais sombrios de nossa alma:

Senhor liberta-nos do jogo perigoso da transparência

 

No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios

Mas sufocado sonho

E não sabemos bem que coisa são os sonhos

Condutores silenciosos canto surdo

Que um dia subitamente emergem

No grande pátio liso dos desastres

(ANDRESEN, 1967, p. 95)

 

Em ambos os casos, vê-se que a imagem marinha é um retrato da própria alma humana. Entretanto, o que se percebe de distintos nos dois poemas é que, quando o eu lírico está recluso do mundo degradado, voltado para seu ser que se confunde com o objeto marítimo, o peso do mar é, por assim dizer, leve. Contudo, quando o indivíduo se inclui em seu meio social, a profundidade marítima - encoberta muitas vezes por uma impressão de água límpida e calma - torna-se um desconhecido sonho que, de tanto sufocado, poderá ter se tornado vil.

Diferentemente da epígrafe citada, nesses últimos poemas há uma inversão: neles é o mar que é transformado ao se fundir com o sujeito. Torna-se mais belo ou soturno. Ganha, como a alma humana, uma profundidade e uma extensão que não podem ser medidas. Porém essa inversão não exclui os versos de uma convergência; ao contrário, o impasse causado nos faz lembrar as considerações que Bachelard (1998, p. 42) fez sobre o mito de Narciso, em seu livro A Água e os Sonhos, no capítulo Águas Claras. É visível que entre as imagens estudadas pelo filósofo e as aqui apresentadas há uma diferença: ele se referia a imagens refletidas nas águas rasas e claras. E o que temos aqui são águas profundas, ondulantes, que não se permitem serem espelhos imediatos. Mas ainda são espelhos. Mesmo que de forma sutil, porém mais intensa. O eu lírico aqui, como narciso, é um "eu duplo", mas já não precisa enxergar sua face na superfície da água, pois ela mesma é a imensidão vista. Dessa forma, contemplar o grandioso milagre é também contemplar-se. Vale lembrar que longe de nós falarmos em narcisismo em seu sentido neurotizante - falamos em seu sentido positivo como processo criador de uma obra estética.

Em outros versos, a imagem do mar vem dar forma ao estado de espírito do eu lírico:

Neste dia de mar e nevoeiro

 

É tão próximo o teu rosto.

São os longos horizontes

Os ritmos soltos dos ventos

E aquelas aves

Que desde o princípio das estações

Fizeram ninhos e emigraram

Para que num dia inverso tu as visses

Aquelas aves que tinham

Uma memória eterna do teu rosto

E voam sempre dentro do teu sonho

Como se o teu olhar as sustentasse

(ANDRESEN, 1950, 54)

 

Nesses versos, o nevoeiro sobre o mar certamente concede um toque de angústia. Novamente o ser contempla o mar, mas desta vez ele não se modifica. Novamente é o mar que se transforma. O ser contempla o mar e espera, pois não pode nem cruzar o oceano como quem partiu ou como as aves migratórias. Essas deixam claro uma veia romântica, na qual tudo aquilo que rodeia o sujeito é contagiado por seu estado de espírito.A praia, o mar sempre são lugares de refúgio, em contraste com os ambientes fechados e "mortos" das ruas. O ambiente de areia, sal e água parece não ter sido conspurcado com a vida moderna, pelos vícios existentes no mundo de cimento e concreto. A praia guarda em si a atemporalidade. Por mais que tenha sido descoberto e navegado, o mar guarda em si seus mistérios, suas promessas que em sua outra margem há ainda lugares inexplorados, virgens, de onde ainda se pode ver o mudar das luas:

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

 

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes e não vejo

Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.

[...]

 

(ANDRESEN, 1944, p. 16)

O local "praia" é sempre um local de liberdade, um espaço aberto aos desejos, aos sonhos. É representada uma dualidade entre o ser na praia, liberto, de gestos amplos, e o ser aprisionado em seu quarto. A sensação claustrofóbica, de gestos pequenos, de atitudes parcas ante ao devaneio proposto pela imensidão da areia, faz com que o refúgio torne-se uma jaula exasperada:

Dia do mar do meu quarto - cubo

 

Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam

Entre o animal e a flor como medusas.

Dia do mar no ar, dia alto

Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem

Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.

 

(ANDRESEN, 2001, P. 166)

Porém quando a casa se localiza no espaço da praia, parece que a maresia também se torna parte dela. A casa ganha dimensões marinhas, então sujeito/casa/praia parecem formar um só corpo harmonioso:

Casa branca em frente ao mar enorme,

 

Com o teu jardim de areia e flores marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

A ti eu voltarei após o incerto

Calor de tantos gestos recebidos

Passados os tumultos e o deserto

Beijados os fantasmas, percorridos

Os murmúrios da terra indefinida.

 

[...]
(ANDRESEN, 1944, p. 17)

Essa liberdade chega a ser erótica em diversos momentos. A praia entrega-se, nua, ao eu lírico, em uma união cósmica. Isso se percebe quando o eu lírico poetiza a entrega de algumas mulheres ao ambiente. Nessa entrega, corpo feminino e movimentos marítimos se conjugam em um só ritmo. Novamente o mar inspira liberdade, mas não lasciva, mesmo que erótica. Liberdade repleta de ternura e de gestos inocentes:

Confundindo os seus cabelos com os cabelos

 

Do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e

tão denso em plena liberdade

lançam os braços pela praia fora e a brancura

dos seus pulsos penetra nas espumas.

[...]

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa-

Mente a virgindade dum mundo que nasceu.

 

(ANDRESEN, 1950, 21)

Para Helena Conceição Langrouva, o mar é também um "espaço arfado". Identifica-se, então, com as origens e a renovação da vida do sujeito lírico. Esse processo que não está permeado pela fatalidade do eterno retorno das cosmologias pré-socráticas, insere-se no rito da passagem que impregna as viagens para o desconhecido. Cada nova viagem renovaria, segundo ainda a mesma autora, o sentido profundo, quase etimológico da aventura, ou seja, o caminho para o futuro, como se ao mesmo tempo se tratasse de um "rito do espanto e do começo":

O mar azul e branco e as luzidias

 

Pedras - O arfado espaço

Onde o que está lavado se relava

Para o rito do espanto e do começo

Onde sou a mim mesma devolvida

Em sal espuma e concha regressada

À praia inicial da minha vida.

 

(ANDRESEN, 2001, p. 47)

Vemos, com todos os versos acima expostos, que o mar português passou de espaço-símbolo de liberdade de toda uma nação para a liberdade de um único eu, cada vez mais encerrado em si e que não se confunde mais com a comunidade em que habita. Ao contrário, ele busca as áreas mais remotas, de beleza intacta. Este eu-lírico, de tanto embriagar-se com a imensidão marinha, confunde-se agora com o próprio espaço, tornando-se cada vez mais aquoso e de extensão inapreensível.

 

 

 

Referências Bibliográficas

ANDRESEN, S. M. B. Coral. Porto: Livraria Simões Lopes,1950.
_____. Geografías. Lisboa: Ática, 1967.
_____.Mar-Poesia. 3ª Ed. Lisboa: Caminho, 2001.
_____. Poesia. Lisboa: Ática,1944.
BACHELARD, G. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
_____. A Água e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
LANGROUVA, H. C. Mar-Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen: Poética do Espaço e da Viagem. [online] Disponível via WWW http://www.triplov.com/sophia/helena.html

 

 

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Última atualização ( Ter, 08 de Setembro de 2009 13:33 )