Manjedoura


"Vou fazer de minhas mãos manjedoura e haverá de, nelas, nascer o acaso..."

É o que consigo escrever, antes que teu sorriso me venha à mente e me passe pela cabeça a ideia louca de ir te encontrar, mesmo que isso fosse loucura, mas preciso terminar esse texto ainda hoje, e a noite já consome tudo e o bairro onde moro já descansa. Amanhã voltará tudo: lavadeiras, mecânicos, professores, manicures, cabeleireiros, padeiros, motoristas, estudantes, domésticas, donas-de-casa, atendentes, vendedores ambulantes, feirantes, faxineiros, seguranças, tudo e todos num barulho imenso, numa procissão de tamanho alarido que me desperta todos os dias quando o sol começa a esquentar o quarto. Fico tão curiosa por saber o que estás fazendo. Assim, curiosa pelas pequenas coisas, como no que estás tocando agora. As pontas de teus dedos, o que percorrem? Talvez estejas limpando teus dentes com fio-dental ou limpando delicadamente as lentes de teus óculos em movimentos suavemente circulares. Te imagino até se aconchegando na cama para dormir, colocando o travesseiro em uma posição confortável e colocando o lençol até a altura do ombro, mesmo em dias quentes. Sei que sentes tua cama pequena, apertada, mal mexes uma de tuas grossas coxas e esta já pende para o lado. Inquieto como és, acordas diversas vezes durante a noite. Sei que desejas outra cama, mesmo que tenhas que dividi-la com alguém. Pena que esta não seja eu. Tu nem sabes se ela quer isto, quer dizer, eu acho que no fundo tu sabes sim, um fantasma já espreita no corredor quando olhas antes de fechar a porta do teu quarto, mas queres calá-lo a todo custo e te enganas que é apenas um pensamento inútil, fruto da distância. "Mas, mais distante você está", é o que me dirias, e eu responderia que sim, realmente estou, além de milhas de voo, estou numa camisa de força, a qual eu mesma me prescrevi. Não tenho o direito de acusá-la de omissa, quando eu sequer presente um dia fui. Mas o teu sorriso

 

Ela para abruptamente, sem ponto-final mesmo. Sua mesa está tão desorganizada que poderia esconder-se nela, atrás de uma pilha de livros ou de cd´s. Há poeira, fios e um grampeador sem muita utilidade, com grampos já enferrujados. Ela está com um pouco de frio e se sente um pouco sozinha. Seu marido ainda não chegou. Está sem inspiração e, como a personagem a quem acabara de dar vida, precisa terminar um texto. Estamos falando de Mônica. Não que este seja seu verdadeiro nome, porém vamos adotá-lo, pois ela é tão pura quando a Mônica, amante de Santo Agostinho quando este não era santo.

Mônica faz textos para uma revista feminina. E se questiona se não é tão feminina, já que nunca compraria essa revista; embora goste de escrever seus textos e os faça com toda verdade, não se sente mais tão confortável. Ela pula para outra janela do Word.
Agora tenho a certeza de que não quero ser escritora, afinal nem sei por que continuo a visitar continuamente blogs de escritores. Até porque alguém pode achar que há um tanto de inveja em minhas observações, pois não tenho blog nem amigos para ficar me bajulando em scraps, dizendo que o que escrevi era legal. Mas como, leitor, posso criticar se não ler? Como, ainda, posso falar mal - pois é isso que farei adiante - se não percorrer sob minha pele uma amargura de meus textinhos tão graciosos não estarem tão na moda como esses metaficcionais, metacríticos, cults? Gosto apenas de falar de amor, de sonhos, de pessoas distantes, de pessoas próximas, de pessoas, intransitivamente. Dizem que minha literatura é para donas-de-casa e até gosto de lençóis dependurados em varais, quanto mais coloridos melhor e de prendedores coloridos também, transformando-os em verdadeiros estandartes da família que os tem. Isso me traz um pouco de memória do quintal barrento, um cheiro de amaciante e de graviolas, os galhos de um cajueiro que tomava os recantos vazios e pés de alface descansando até a colheita sob a sombra dos cajus.

 

Eu dizia que não quero ser escritora. E há querer? Ao ato, ninguém pode fugir porque palavra e memória cercam como lobos atrozes e devoram, a partir de dentro, do útero, e sugam das veias, da medula. Não há como fugir da lembrança daquele morangozinho que estava nascendo e um fungo corroeu, meus olhos perdidos em lágrimas e meu pai explicando técnicas de como envolver o frutinho - logo que a flor cai - em uma pequena bolsa plástica, isso garantindo toda uma produção de morangos, resultando de um apelido a mim dado: moranguinho. Como enxotar esses fantasmas em vida, minha vida, senão transformá-los em palavras que nada dizem, ou pouco dizem, ou dizem às donas-de-casa?

E por que ousar o que não quero? Advirto-me.

Por que escrever algo a mais que estes pensamentos fugidios?

Por que pensar que devo escrever algo como o último texto que li, de um escritor famoso, no qual ele representava um diálogo idiota de um pai e filho, com grandes questionamentos sobre TV, educação, papéis sociais, cobradores de ônibus e dançarinas que sobrevivem do tamanho da bunda?

Para que sentir as dores do mundo, se as minhas já fazem meu corpo pender para o lado, uma corcunda de existência, tecida por laçadeiras invisíveis, eu, todo um aglomerado de cânceres de mim mesma, com unhas crescidas e cabelos despenteados por todo o tempo?

Por que tentar questionar condutas, pessoas, idiotas, ladrões, mulheres-objeto, se o que mais me causa náuseas são os escritores? Não o ato da escrita - esse sempre acima, um deus, um grande coelho branco caçando as onças - mas esse status perseguido, um privilégio de poucos para poucos, que sequer as pessoas entendem, sequer lêem, apenas, algumas, amontoam um monte de livros em suas estantes, na busca de um status, também tão vazio, de leitor. Já percebi que escritores não se dizem escritores, ou não se diziam até isso se tornar um clichê. Mas, entre alguns que não se dizem, alguns são. Eles não perseguem o status nem dizem "não sou escritor", no intuito que você lhe diga "é, sim". A despeito do que falem - seios, anjos, ancas, ladrões, dinossauros, libélulas, corredores, espíritos, vampiros, famílias húngaras, países maravilhosos, países extintos, mentiras verdadeiras, verdades falaciosas, memórias, caos e objetos - se percebem que suas palavras são unas, nasceram ali, naquele instante, e só são ali, com outras, como crianças em um parque, alegres, mesmo que ao lado repouse mortos em um cemitério, embora encubram verdades doentes, como um pai que toca sempre em seu sexo na hora de niná-lo.

Os outros, que se dizem e os que não se dizem para outros dizê-los, não são escritores. Falam da vida, mas a linearidade ou a ruptura tão socialmente esperada não fazem parte da vida. Ser humano é ser cruel e ser cruel, de fato, não é explicitar nomes de pessoas que estão por trás de uma grande máquina - máquina e homem se tornando um todo amorfo, doentio, mas, enfim, fértil, mesmo que de uma fertilidade doentia - chamada ideologia. Ser cruel, ainda, não é enfileirar as chagas humanas e se pôr acima - um deus a tudo e a todos julgando, quando ele se sabe que não passa de nosso títere - em forma de deboche, de inteligência e se consagrar aquele que condenava as mazelas de seu tempo e alertava ao povo, em uma mensagem que pairava entre o muthos e o logos, as coisas que todo mundo já sabe. Ser cruel é ser, por fim, o ditador das coisas que ninguém quer ver ou provar ou imaginar sequer que existem, latentes, por baixo de tapetes de aceitação, sociabilidade e bom comportamento. Existe perversão no olhar de um pai de família, gritando socorro por seu filho, talvez não para com seu filho, mas para com a adolescente que transita pela esquina com a mini-saia da moda, ou para com uma senhorita protestante que, de tanto esconder seu corpo, cria uma expectativa monstruosa, um pastor se deliciando à noite, num vai e vem de suas mãos em seu falo, lembrando daquela blusa que cobria os cotovelos e da saia que cobria os joelhos e imaginando todo o resto escondido. Quem escreveu sobre a perversão não fui eu, foi um escritor, esse sim escritor, pois conseguiu não representar um cotidiano televisesco, mas criá-lo, enquanto os intelectuais não o entendiam ou não queriam dar-lhe o contorno de todo merecido, ele também não querendo fogos de artifício, afinal são de artifício, não de conteúdo.


Para quem estava sem palavras, Mônica sente que escreveu demais e coisas que não devia, coisas que não seriam publicadas pela revista. Ela abre a porta de sua sala e vê que seu marido chegou e, cuidadosamente, tentava jantar sem fazer barulho; ela não se lembra de ter ouvido barulho de porta, sabe apenas que se concentrava nas palavras quando, na verdade, elas pediam pouca concentração. Ele sorri da sala de jantar, ela retribui com um beijo à distância, desses que vão voando pelo ar e até, se você escutar atentamente, ouve-se o estalo. Mas, naquela noite, ela nada ouvira. Sem mais, volta a fechar a porta de seu pequeno escritório, na certeza de que tem pouco tempo e textos que se escrevem deixando a mão liberta não são de bom agrado. Há de continuar seu texto.


Mas o teu sorriso é um ídolo de carne e nos teus lábios pulsam tanto desejo. Não creio que ela, como eu, consiga distinguir essa verdade única que és e, caso eu soubesse que me vês como te vejo, o que eu faria? Gotejaria em meus olhos águas do Lete e iria te ver. Assim, serias tu meu primeiro amado,


Mônica sabe muito bem que o trecho de agora destoa totalmente do que começara. Antes a personagem tinha uma incredulidade e lhe bastava imaginar formas e cores, não os viver. Era um texto sobre a dicotomia: mundo real e mundo ideal. E agora, onde a realidade? O mito se apoderou e o trecho que agora concebera parece retirado de um romance de um século distante, com uma devoção feminina, bem distante do público mulheres-modernas ao qual destinaria o texto. Ela não apaga o texto. Copia e cola em outra janela do Word. Salva, ironicamente, como "poema perdido". E retoma sua verve mulher bipolarizada, cidadã ativa, que enxerga o submundo citadino e as distâncias intransponíveis, como o casamento, o trabalho, o morar em outro país:


Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para

Estou lendo e relendo, lendo e relendo essa história, até mesmo estou vivendo, como se ela fosse a minha, até que sua mão fria de morto toca em meu ombro, me dizendo que é tempo de fazer outra coisa, como alongar o pescoço ou caminhar à sala e pôr comida para o gato. Mas sua mão, fria, não é assim terrível, história de horror com mortos-vivos, fantasmas e anjos perambulando em desgoverno pela Terra. Não. Essa história é particularmente de amor, de respeito: ele me enxerga, por entre espelhos, teclar e teclar e fica se perguntando o que danado tanto fala sobre ele, até que não suporta mais tal angústia curiosa e vem, de espelho a espelho, a mim. É nesse instante que ele recorda que mortos não lêem, desaprenderam o contorno das letras e os sons das sílabas; não conseguem unir signo a signo, até tudo relacionar-se em um compreender. Não tenho porque ter medo, embora no primeiro contanto um frio tão intenso deturpou o traçado que há em minhas mãos e formou uma palavra. Era o nome de um de seus livros. E eu lia tão claramente, mas não tive o que fazeride: não sou sua viúva, nem seus filhos, nem editora. Eu fico aqui, escrevendo as idiotices pelas quais me pagam e vou sobrevivendo dessas úlceras, pois em cada texto que escrevo se vai um pedaço de mim.

Corrôo-me aos poucos, como um pudim que vai sendo delicadamente comido por alguém que sabe descuidadamente apreciar o sabor. Eu até creio em minhas idiotices, às vezes. Só às vezes para não viciar e essa lama virar cíclica e eu, ao menos eu, mude, já que seres humanos, aconteça o que acontecer, continuam a fazer a mesma coisa: comer e cagar, matar e morrer, acostumar-se à morte dos seus e precisar de um outro para brincar na gangorra.

Tenho pensando muito nele e nela, em tantos neles e em tantas nelas que passam por isso agora e, é óbvio, que isto me leve a pensar em mim e em você. Nesse eu e tu tão belamente crus, como tudo que é novo, uma página em branco, o primeiro cantinho claro do céu quando as trevas dissipam-se ou mesmo a primeira onda que a gente pula, quando adulto ou criança pouco interessa, ao primeiro contato com o mar. Tudo que é virgem, ao ter consciência de si, quer exceder esses contornos parcos, quer alimentar-se de sangue, tinta, nuvens ou areia. Pensando assim nos parece que tudo, após uma primeira entrega, estagna. Mas não. Sempre somos virgens a algo, sempre tímidos - entretanto desejosos - ao novo. Nunca uma nuvem igual à outra, nem onda, nem tinta, nem sangue. Todos de espessura, cor, consistência, verdade, mentiras, acidez, conchinhas, moluscos, algas, sabor, formas, tipos, moléculas, doenças, saúdes, humores, marés e tanto mais coisas distintas. É tudo tão diverso, quando se olha atentamente. Nem se precisa de tanto tempo, para olhar. Muitas vezes até, caso não se perceba na primeira hora, não mais se verá e continuar-se-á a ver tudo tão familiar que causa um enjôo de voltas e voltas intermináveis na mesma montanha-russa de sempre, com emoções e desesperos sempre tão calculáveis e os respingos de vômito caindo em algum idiota que debaixo observava o movimento.

Só depois de uma pausa para, enfim, respirar, nota que errou de documento. Ctrl+seta para cima, Ctrl+x, Ctrl+alt e Ctrl+v. Volta ao documento da revista.

 

Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para


Ela pensa: esses vários "ps"... Mas resolve deixar assim, afinal que crítico literário leria aquela revista?

 

Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para esquecer nós dois. Lembrar de Ovídio e dizer para mim mesma que você recebe muito pouco; e eu nunca me passaria por sustentar teus luxos. Repetir em bom som que passaste do peso ideal, que irás enfartar logo e, de cama, serás um peso que atrapalhará toda minha carreira. Então, não mais amor, adeus.


Vou fazer de minhas mãos manjedoura e haverá de, nelas, nascer o acaso. O acaso existente em um tênue sonho.


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