Religião, Sexo e Poder

 

Em 2007, cursei uma disciplina sobre Literatura e Pornografia, no Departamento de Pós-Graduação em Letras, da UFPE. A cada aula produzíamos pequenos textos acerca dos temas estudados. O texto a seguir foi concebido após a leitura do texto Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas), documento católico, publicado em 1487, ensinando ao juízes da Inquisição como reconhecer e punir as bruxas.

Decerto, Deus é construído de acordo com um momento específico da história das igrejas cristãs, à imagem e semelhança do Homem, contrariando aquele antigo ensinamento bíblico que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Mas o que é a Bíblia senão um amontoado de palavras que, como qualquer texto, possui um espaço vazio, pelo qual se pode interpretar o contrário, pervertendo-a? É isso que notamos em Malleus Malleficarum: um deus que, ao mesmo tempo, permite o pecado e o castiga, tão sádico quanto qualquer velho inquisidor, de pau duro por baixo da batina, enquanto punia santamente alguma jovem.

Quando digo "à imagem e semelhança do homem", dentro do contexto ocidente/ Idade Média, leia-se "sujeito do sexo masculino, conhecedor de peripécias retóricas e com algumas peças de ouro". É claro que essa mesma predisposição ocorre em outras culturas (e até hoje!), porém em nossa análise nos deteremos no horizonte cristão do texto.

É explícito o modo que o livro tenta mostrar como a mulher recai, sempre, na fraqueza de Eva ante o pecado: saboreia o fruto proibido e corrompe o digno e ingênuo Adão. Os demônios (sempre atentos e sem nada mais interessante para fazer) atormentam doces virgens até que estas deixem de frequentar a igreja (onde um padre, com certeza, salivava sobre seu decote) e passam a cultuar o obscuro; para tanto, os demônios utilizam-se de outras mulheres mais velhas, conhecedoras de práticas de bruxaria. E um dado importantíssimo é que os demônios não se interessam por "almas más", mas por aquelas pessoas que ainda são boas. Bem, como uma alma fica má sem o auxílio do demônio, isso eles não explicam.

Enquanto na Europa mocinhas iam pra fogueira por fazer desaparecer ou diminuir um membro masculino, no Brasil, a Inquisição ocorreu de forma diferenciada; até mesmo porque nossa terra era o próprio desterro para portugueses "indignos" de sua pátria (a maioria desses foi expulsa por ser judia; a primeira expulsão judia das terras portuguesas deu-se no ano de 1496)[1]. A primeira visita da Inquisição ao Brasil deu-se em 1591 e nunca fora estabelecido de fato um Tribunal da Inquisição aqui, mas nem por isso o Tribunal instalado em Portugal esteve atuante na colônia até as vésperas da independência.

Aqui a questão da etnia se sobrepôs à sexual: sodomizar índias não era considerado pecado, enquanto que sentir prazer com sua esposa poderia ser considerado um pecado gravíssimo. A mulher também poderia procurar prazer com outros homens, mas caso o marido os matasse não seria considerado crime. Foi desse cenário erótico, luxurioso, quente, cheio de nudez e emoldurado pela exótica natureza tropical que muitos índios e negros foram sodomizados, violentados e até mesmo crianças eram prostituídas para gerarem renda para seus senhores. Daí vem-nos aquela máxima "branca pra casar, índia pra foder, negra para trabalhar". E, é claro que os jesuítas desde o século XVI interessavam-se pela demonização dos índios, estendida depois aos negros, uma boa justificativa para a catequese e para escravidão. Quando se falava em bruxaria, referia-se principalmente a costumes afros e indígenas.

Mas se hoje os padres não podem mais se divertir olhando mulheres nuas penduradas em jaulas, ou ferindo-lhes o útero em troca de uma confissão fictícia? Como eles convivem com os hormônios e a impossibilidade de ceder aos desejos da carne? Eles cedem. E de maneira, aos olhos de nosso tempo, horrenda: abusando sexualmente de inocentes crianças e jovens; ou até mesmo, mulheres à força. Mais uma vez deus troca de face: se ainda no começo do século passado, ele abençoava casamento de pedófilos, como era o caso de meu avô (minha avó só tinha 12 anos quando se casou), manda-lhes hoje, de cabeça pra baixo, para o inferno. Porém a instituição católica, por muito tempo, tentou esconder tais fatos. Como prova disto, temos um documento do Vaticano escrito em 1962, "ameaça com a expulsão da Igreja qualquer padre ou bispo que não mantiver silêncio sobre quaisquer acusações de escândalo sexual. Os fiéis, vítimas de abuso, também são ameaçados de excomunhão." "O Vaticano confirma a existência do texto, escrito pelo cardeal Alfredo Ottaviani e que recebeu a chancela do papa João XXIII, mas nega que tenha sido usado para abafar os casos mais recentes, notadamente os de pedofilia nos Estados Unidos."[2]

Assim, as igrejas ainda tentam monitorar os desejos e os corpos de seus fiéis, condenando, por exemplo, a homossexualidade (que para eles ainda é homossexualismo), o sexo antes do casamento e o aborto. É verdade que falamos assim, ironicamente, achando toda essa questão uma banalidade, coisa de padres atormentados por hormônios ensandecidos. Mas, na verdade, o que vivemos hoje é a perpetuação de alguns mitos que, vez ou outra, deparamo-nos em conversas de corredor, mesmo com toda "liberação sexual". Até mesmo porque o discurso do "libera geral" fortalece um discurso antitético, continuador de mitos como a virgindade e da mulher enquanto edificadora do "lar".


[1] http://www.geocities.com/kbeto082002/Historia/nossasfamilias.html

[2] http://www.dantas.com/realidadebr/rn/catolica/c180803.html

 

Comentários
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Karoline 08-09-2009 14:28

Gostei do texto! Bem realista em relação à Igreja Católica! Sou
católica, mas não sou conivente! A verdade está aí!

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Última atualização ( Ter, 01 de Setembro de 2009 22:35 )