As ideias chegando ao seu lugar (Karine Rocha)


Karine Rocha é Mestre em Teoria da Literatura, pela Universidade Federal de Pernambuco.


Ao avistarem as caravelas que vinham de terras distantes, não sabia a população indígena, que aqui habitava, o mal que estava prestes a aportar em suas terras. Dois povos que não se conheciam, duas culturas adversas se olhavam de maneira estranha e provavelmente assustada. Deste encontro alguém teria que sair ferido. E este alguém foi o índio, que por não ter uma sociedade centralizada como a europeia, não conseguiu escapar do extermínio e da aculturação.

Iniciado o conflito entre as duas culturas, o homem europeu civilizado começa junto à população indígena o seu trabalho de massacre cultural. No Brasil, o mais célebre exemplo deste trabalho é o do Padre José de Anchieta, que por meio de seu teatro cria o que Alfredo Bosi chama de mitologia paralela, matando o que era sagrado para a população indígena. Anchieta usava a sintaxe e palavras do vocabulário tupi para impor a religião do homem branco. Por meio do teatro denunciou o que era tido como maus hábitos para os católicos e apontou o verdadeiro Deus, o verdadeiro modo de vida. Tudo isto mediante o uso da alegoria, que tinha o poder de persuadir com suas imagens que personificavam elementos abstratos.

A alegoria é o discurso do outro, daquele outro que fala e nos cala, faz tremer e obedecer, mesmo quando os fantoches grotescos da sua representação nos façam rir. A alegoria foi o primeiro instrumento de uma arte para as massas criadas pelos intelectuais orgânicos da aculturação. (BOSI, 1992, p. 81).

 

 

Paralelo a isto ocorria a colonização do Brasil, a instalação de engenhos e de uma população vinda da Europa em busca de oportunidades. A nova colônia portuguesa se dividia em duas classes. De um lado os latifundiários, do outro os índios e os negros, estes que, aos poucos, chegavam em navios abarrotados vindos da África. Destes dois últimos elementos nota-se uma tentativa de destruição progressiva de sua cultura. Do índio, pela maneira exposta acima e do negro através de sua condição de escravo, na qual a única coisa que lhe restava era assegurar a prosperidade do seu senhor. Diante deste abismo social que se instalou entre as classes da colônia, não havia espaço para o desenvolvimento das criações artísticas. Não existia vida urbana, só uma vida rural pobre e apagada culturalmente. Os únicos elementos dotados de intelectualidade neste período eram os religiosos, que, como já foi dito, trataram logo de justapor sua cultura ao meio.

Os filhos dos senhores de engenho começam a ter acesso à educação através dos padres, logo depois que estes abandonam o trabalho da catequese indígena. A fraca vida cultural brasileira começa destoante da realidade que a cerca, com uma característica livresca, vazia que não apontava caminhos "para o entendimento da vida e do homem e não estava em condições de proporcionar, de forma alguma, as bases para novas conquistas, ou as pontes para a aventura do espírito" (SODRÉ, 1978, p. 122).

Na segunda metade do século XVII, inicia-se o ciclo do ouro no Brasil. Surgem os primeiros centros urbanos e a fisionomia da colônia começa a mudar com o surgimento da classe média. Os grandes proprietários coloniais já não comandam nossas terras e o comércio alarga o campo de atuação do homem livre, fazendo com que aqui cheguem atividades que só existiam além-mar. Aos poucos aparecem indivíduos nascidos no Brasil dotados de uma bagagem intelectual que não foi bebida de fontes religiosas. Surge a imprensa, os livros começam a ser procurados, mas nem tudo é tão favorável a formação de nossa identidade nacional (que nem era cogitada na época). Os nossos bacharéis, que agora estavam à frente do Brasil, iam estudar em Coimbra e traziam para cá moldes pré-fabricados, deixando o país, mesmo depois da Independência, sem condições para se desviar do que a herança colonial lhe deixou. Começa então o drama da transplantação cultural, da qual só começará a se libertar três séculos depois. Nelson Werneck Sodré aponta como uma das causas da transplantação o fato de que as classes sociais estavam muito distantes umas das outras, cada qual com suas preocupações. A classe abastada procurava um público para demonstrar os seus conhecimentos e a classe pobre não dava aos nossos intelectuais a atenção que estes ansiavam.

 

Distanciamento que é posto como origem de males diversos: a inobjetividade política, a fraqueza artística, a superficialidade literária. Que motivava, em suma, o desinteresse ostensivo do povo, de um lado, e a alienação progressiva das elites, de outro, desesperançadas estas de encontrar, no meio, aplausos e estímulos para as suas aventuras de espírito" (SODRÉ, 1978, p. 134).

 

Junte-se a isso o fato de que foi imbuída na cabeça dos brasileiros a idéia de que éramos um povo incapaz, subordinado por nossa condição ecológica e por nosso clima que amolece e não é propício para uma raça superior. É destino da América Latina o trabalho braçal e a incapacidade criativa no campo das artes. Bombardeados por tanto preconceito não nos restava senão a transplantação das ideias europeias para o nosso solo. Até porque o preconceito europeu em relação aos negros e índios era o mesmo da nossa elite, que tinha um ar afrancesado de ser. Logo após a Independência, nossos artistas começam a ir atrás de uma identidade nacional, do que era ser brasileiro. Os romances datados da época do Romantismo procuram redescobrir o Brasil, a sua língua, a raça e tradições. No entanto os moldes eram europeus e não conseguíamos nos libertar do fardo de ser uma cultura de prolongamento. Este problema só será sentido profundamente nas primeiras décadas do século XX, quando a Europa perde a hegemonia.

 

Estas profundas transformações históricas ocorridas nos centros hegemônicos provocaram uma angustiante sensação de orfandade nas sociedades semicoloniais, abalando até os fundamentos a cultura de prolongamento que as caracterizava. Parece neste contexto que, como tentativa de superar a angústia de orfandade e assumir a própria identidade histórica, surge no seio destas sociedades periféricas o conceito de dependência" (DACANAL, 1978, p. 10).

 

Durante algum tempo a nossa elite cultural ainda se alimenta do que resta da Europa: Sartre, Beauvoir, Camus, Proust. Mas e depois disto o que nos resta? Resta discutir o problema da nossa dependência cultural e partir em busca de uma solução. Para a nossa ajuda existe dentro das sociedades de cultura dependente o que Dacanal chama de cultura marginal contradependente. "Parece que será através da força haurida nestas culturas marginais contradependentes que a América Latina conseguirá destruir seu ser dependente e nascer assim, liberada e autêntica, para a História" (DACANAL, 1978, p. 17). A cultura marginal é representada pelos cantadores, o trabalho artesanal e o caboclo. O caboclo é o nosso elemento étnico que representa o mestiço. O mestiço é o símbolo da quebra da unidade e da pureza europeia. Silviano Santiago aponta o mestiço como um elemento perturbador. Ele representa o hibridismo de nossa sociedade, que fica nas fronteiras do europeu, indígena, africano. Dacanal aponta que por volta de 1930 os grupos marginais passam a cobrar sua participação no processo político. A elite cultural responde a estas exigências obtendo a superação da defasagem entre infra-estrutura sócio-econômica e superestrutura mental/cultural. As amarras da dependência começam a ser soltas. Uma ajuda de extrema importância para que este passo fosse dado ocorreu graças à publicação dos artigos da Revista Antropofágica no Diário de São Paulo, fazendo com que as ideias deste grupo ultrapassassem os limites dos círculos intelectuais brasileiros e atingissem grande parte da população. Foi por volta de 1928 que o grupo Antropofágico se desvencilha dos pressupostos ingênuos da primeira fase do movimento modernista e começa a se preocupar com o que está a sua volta, transformando a literatura em uma arma de revolução permanente com um caráter denunciador. Utilizando o método da colagem, os antropófagos manipulavam os símbolos linguísticos por meio da:

Repetição pura e simples de um determinado trecho (...) Conserva-se tanto quanto possível o significante do texto alheio, transformando-o somente quando indispensável para produzir um significado novo, de acordo com as ideias defendidas pelo grupo" (BOAVENTURA, 1985, p. 132).

Este método revela que em nosso espírito nascia o senso crítico descolonizador dos modelos que vinham da Europa. Começam a ser tratados assuntos vindos diretamente da nossa realidade e o grupo traz à tona discussões sobre a violência cometida contra o índio, o racismo sofrido pelos negros, a marginalização da mulher. Denuncia a complacência da Igreja Católica para com o tráfico de escravos africanos, condena a dizimação dos quilombos e põe em cheque a visão racista que afirmava ser o fator racial determinante para a condição social de uma nação. O movimento antropofágico ajudou a articular a literatura com o social, levantando discussões e questionando o passado. O mérito do grupo antropofágico está no fato de ter tentado "levar o homem brasileiro a um aperfeiçoamento do seu modo, a uma realização antecipada, para superar os conceitos e preconceitos de sua situação histórica, sempre se servindo de uma linguagem em constante renovação" (BOAVENTURA, 1985, p. 133).

A partir das décadas de 1960/1970, o que foi ensaiado pelos representantes da antropofagia brasileira emerge com grande força e tomamos uma nova atitude em relação ao que vem de fora. Não rejeitamos elementos estrangeiros, mas começamos a utiliza-los de outra forma. Nossos artistas começam a fazer uma releitura do que vem de fora, adaptando ao nosso meio, usando a língua a nosso favor, denunciando o nosso passado colonial. As limitações do texto importado são ultrapassadas pelo escritor latino-americano, que passa a brincar com os signos de um outro escritor, de uma outra obra, como nos alerta Silviano Santiago. "Como o signo se apresenta muitas vezes numa língua estrangeira, o trabalho do escritor em lugar de ser comparado ao de uma tradução literal, se propõe antes como uma espécie de tradução global de pastiche, de digressão" (SANTIAGO, 1978, p. 11). A inocência foi perdida. Os escritores latino-americanos agora olham para o que vem de fora de maneira critica e muitas vezes irônica. Finalmente tomamos uma atitude e nossa voz agora pode ser ouvida. Conquistamos o nosso lugar.

E que lugar é este? Nosso lugar é o que se pode chamar de entre-lugar. Estamos situados entre a aprendizagem e a reação, muitas vezes agressiva. Somos rebeldes e obedientes, dotados de uma falsa passividade que nos fez abandonar o posto de contemplador da fonte europeia. É no entre-lugar que mostramos quem realmente somos. E não somos um povo amolecido pelo calor dos trópicos, sem capacidade criadora e com forte propensão para se alimentar de festa e carnaval. O Brasil é um país dotado de uma cultura "plural, mas não caótica", com grande capacidade de criação. Esta é a nossa verdadeira identidade nacional.

 

Comentários
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pODE ME EXCLARECER ALGUMAS PERGUNTAS???
Metusala Mateus Candido 28-09-2009 10:59

O que Alfredo Bosi entende por mitologia paralela ao referir-se à
catequese?

Gregório de Matos está incluído ou excluído do
"corpus"? Porque?

"A pedagogia da conversão apagava os traços
progressistas virtuais do evangelho fazendo-os regredir a um substituto para a
magia dos tupis" Como poderia comentar essa afimação de Alfredo
Bosi???

Qual o recorte de "corpus" literário que Antônio Candido
faz em decorrência do conceito de literatura?

Qual a concepção de
literatura de Antônio Candido?

Poderia me ajudar??? Agradeceria muitíssimo
Virgínia 29-09-2009 01:45

olá, Metusala
enviei suas questões a escritora do artigo. estou aguardando
respostas. quando as tiver, ponho aqui.
responder algumas perguntas??
stephani 04-10-2009 16:07

ola gostaria de saber
O que Alfredo Bosi entende por mitologia paralela ao
referir-se à
catequese?

Gregório de Matos está incluído ou excluído
do
"corpus"? Porque?

"A pedagogia da conversão apagava os
traços
progressistas virtuais do evangelho fazendo-os regredir a um substituto
para a
magia dos tupis" Como poderia comentar essa afimação de
Alfredo
Bosi???

Qual o recorte de "corpus" literário que Antônio
Candido
faz em decorrência do conceito de literatura?

Qual a concepção
de
literatura de Antônio Candido?

ficarei muito agradecida!!
Virgínia Celeste 05-10-2009 14:14

vamos lá, tentarei responder eu....

sobre a mitologia paralela..... ela se dá
pelo encontro (forçado) entre duas culturas.. quando os jesuítas tentam
catequizar o índio e, por meio dos elementos indígenas - como a figura de
tupã -, eles criam uma "representação do sagrado" que não é nem
cristã nem tupi... para entender mais, segue o link do livro de Bosi:
http://books.google.com.br/books?id=9BYLKCI-xG0C&p
g=PA65&lpg=PA65&dq=mitologia+paralela+alfredo+bosi
&source=bl&ots=25qaFaZ77c&sig=N7eoh5gUwvnHAyLhawRN
GnoFxoY&hl=pt-BR&ei=cijKSrf6NZG3lAe285WSAw&sa=X&oi
=book_result&ct=result&resnum=1#v=onepage&q=mitolo gia%20&f=false
Virgínia Celeste 05-10-2009 14:22

no que diz respeito a questão da pedagogia da conversão.... creio que, ao
catequizar os índios com seus elementos, os jesuítas acabavam por derrubar
toda uma "evolução" teológica do cristianismo... a noção de
humanismo, de amor universal, de posicionamento moral eram diminuídas a simples
elementos cristãos que deviam estar no lugar dos elementos indígenas.
Virgínia Celeste 05-10-2009 14:29

já as questões de Gregório de Matos e Antonio Candido.... fogem do texto
lido, não? Para Candido, só há literatura propriamente dita quando há um
sistema de obras ligadas com um denominador comum (ideologia, estética),
autores conscientes de sua obra e um público leitor. Por isso, Candido não tem
o barroco no brasil como um real movimento literário, daí Gregório de Matos
não estar em seu corpus.

espero ter ajudado.
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Última atualização ( Sáb, 05 de Setembro de 2009 14:00 )