A banalidade da morte como móvel para o crime - Os Crimes Exemplares, de Max Aub
Álisson da Hora é mestrando em Teoria da Literatura, pelo PPGL/ UFPE.
A inocência parece algo que está ao mesmo tempo tão longe e tão perto nos relatos do francês naturalizado espanhol Max Aub. Os micro-contos que são encontrados no livro Crimes Exemplares (cuja primeira edição é de 1957, posteriormente ampliada em 1968) abordam o absurdo da confissão, ou um conjunto de confissões absurdas, "coletadas" ao longo de anos de pesquisas e de leituras diárias de jornalecos popularescos da Espanha, da França e do México. Relatos pretensamente reais (ou realmente reais, vá saber) de criminosos tão cínicos quanto sinceros que dão os seus relatos, suas culpas, de forma concisa, direta, crua. O próprio Aub esclarece as formas dos contos, no seu prefácio:
Tenho aqui material em primeira mão. Passado da boca para o papel roçando o ouvido. Confissões sem importância: claras, confusas, diretas, com o único propósito de explicar o arrebatamento. Recolhidas na Espanha, na França e no México, ao longo de vinte anos, eu não iria agora enfeitá-las, razão da sua vulgaridade. (Aub: 2003, 9)
Arrebatamento. Palavra que às vezes assume um ar quase religioso nos Crimes Exemplares é sempre um impulso impensado e cruel que só se justifica com a simples explanação de uma verdade: a verdade do criminoso. Assume-se a culpa, é verdade, mas aqui, até a culpa é meio que repassada para o lado da vítima por coisas tão simples como simplesmente existir.
Sem entrar no mérito da veracidade dos relatos, mas entrando no modo como eles são contados, há de se atentar para o seu humor negro. O livro todo é um compêndio de histórias profundamente risíveis. O mundo no qual elas acontecem é um mundo de perdidos, de neuróticos. Não de loucos patológicos porque, segundo Aub, os crimes confessados pelos loucos foram "decepcionantes". O humor que brota das páginas estampa no rosto um sorriso espantado e por vezes prazeroso, talvez porque explique ou acaricie as nossas próprias personalidades plenas de modernidade: práticas, impacientes, cotidianamente transtornadas, e que se reconhece naqueles crimes - não como vítimas, claro - como os chamados indivíduos "fronteiriços", nomeados pela psicologia moderna.
O atrativo do grotesco, como algo tão próximo, mas ao mesmo tempo distante o suficiente para não nos atingirmos diretamente, é algo ancestral no homem. E as páginas policiais, - as do mundo real - repletas de detalhes hipnotizadora dos leitores, que talvez fechem as mesmas enfadados, posto que não há a confissão sumária dos algozes. E quando há, é uma confissão recheada de culpa e de covardia; quando o confessor se mostra consciente de sua culpa e até faz pouco caso da vida que tornou extinta ganha os holofotes e um monte de epítetos (obviamente pouco elogiosos), mas sempre ganha o respeito talhado pelo horror e pela repugnância. O próprio mundo da modernidade permaneceu permeado de suas "historinhas" de horror, do grotesco, do inusitado, sustentando esse "riso satânico" ao qual se refere Wolfgang Kayser em O grotesco. Para ele:
(...) a literatura do horror quer transmitir medo ao leitor, coisa que ele por si mesmo procura; deseja mostrar-lhe abismos, à cuja beira ele próprio se posta de bom grado. Temos o mesmo que antes: a problemática do artista, os lados noturnos da alma, a magia sinistra entre o amor e a morte, o caráter satânico do crime. (Kayser, W.: 1986, 121)
Se "o mundo é um manicômio", como ele mesmo diz (id., 61) compreendemos que a percepção desse mundo louco se faz em poucas palavras que ratificam tal absurdo. Esse riso é ao mesmo tempo um riso de alívio, mas também o riso de alguém que conta com a segurança ilusória que pode eventualmente ruir e fazer com que seja atingido por uma situação semelhante da qual ele ri. Cada conto de Aub é um mundo instantâneo, de onde inferimos o contexto e nos vemos propensos a compartilhar das razões dos assassinos em uma relação estranha de empatia, sádica, fruto de um individualismo no qual estamos imersos e o qual praticamos na vida cotidiana. O limite para que sejamos também praticantes da morte parece ser muitas vezes o limite da nossa própria paciência.
O sadismo, como dissemos, que se intromete na nossa empatia para com humanos que ganham voz com Aub, advém, como diz Sartre em O ser e o nada (1997, 472) do nosso fracasso em relação à nossa primeira atitude para com ou outro, que é justamente marcado pelo amor, pela linguagem e por um masoquismo que nos põe como seres muitas vezes servis, ou passivos no tocante ao relacionamento com o outro. Quando se esgota isso, temos a indiferença, o desejo (talvez nesse caso, o de fazer mal mesmo), o ódio e o sadismo. O sádico, segundo Sartre:
(...) se coloca como aquele que dispõe de "todo o tempo do mundo". É calmo, não tem pressa, dispõe de seus instrumentos como um técnico, testa uns atrás dos outros, tal como um chaveiro testa diversas chaves em uma fechadura; saboreia esta situação ambígua e contraditória: de um lado, com efeito, faz o papel de quem, no cerne do determinismo universal, dispõe pacientemente dos meios com vistas a um fim que será alcançado automaticamente - tal como a fechadura se abrirá automaticamente quando o chaveiro encontrar a chave "certa" (...) (Sartre, J.P.: 1997, 501)
Essa instantaneidade na aniquilação do Outro é representativa do livrar-se do indesejável, do que incomoda. O que é um corpo? Para os personagens de Aub nada mais do que um corpo o qual a morte elimina juntamente com um simulacro de alma. Para dizer a verdade, também não há alma, não há post-mortem, não há fantasmas. Há o algoz e a vítima e a morte que assume quase sempre um aspecto pedagógico e exemplar: você fez algo, que não é necessariamente algo que eu goste ou aprove, e por isso deve morrer. Simples assim.
O non-sense é desconcertante e não dá espaço para análises morais. Lê-se, ri-se e fica aquela sensação no ar de que "poderíamos fazer do mesmo jeito que ele". Ou podemos? Assim, mata-se porque alguém não é de uma cidade lá muito aprazível "Matei-o porque era de Vinaroz" (Aub, M.:2003, 15). Ou mata-se por "compaixão": " ‘Prefiro morrer', ela disse. E pensar que o que eu mais gostava era fazer a vontade dela". (id., 15).
Em outros relatos fica claro o descalabro emocional de alguém no limite de suas forças psíquicas, ultrapassando a fronteira que separar nossos transtornos cotidianos daquele "arrebatamento" evocado por Aub para justificar os seus supostos informantes. Desse jeito temos, no que podemos chamar de "A história do barbeiro":
Sou barbeiro. Isso é coisa que acontece a qualquer um. Até me atrevo a dizer que sou um bom barbeiro. Cada um tem as suas manias, eu não gosto de espinhas.
Aconteceu mais ou menos assim: comecei a barbeá-lo tranqüilamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da minha mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e além do mais aquele tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha espinhas. Reconheço que nas espinhas dele não havia nada de mais. Mas incomodavam-me, deixavam-me nervoso e o meu sangue fervia. Contornei bem a primeira, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, com certa naturalidade aprofundei a ferida e depois, sem poder remediar, com um só golpe, decepei-lhe a cabeça. (ib., 17)
Esse "não sei o que me deu" encerra todo o arrebatamento. Daí para a morte é um passo, e fica a sensação de que realmente era algo que não se poderia remediar. O fato de que "nas espinhas dele" não havia nada de mais é uma balela. Ele tinha espinhas. Por isso deveria morrer.
Como deveria morrer "a amante descuidada", que poderia ser o título do relato a seguir: "Cortei-a todinha, de baixo para cima, como se fosse uma novilha. Porque olhava, indiferente, para o teto, enquanto fazia amor," (ib., 19). Essa inevitabilidade do crime, do aniquilamento do Outro é algo característico em todos os contos de Crimes Exemplares. A relação algoz/vítima se reveste de uma extrema ambigüidade, uma vez que o autor do crime sempre se justifica como vítima primeira de uma situação vexatória, e, já que não há ninguém ou nada que interceda por ele recorre-se ao assassinato. Na maioria das vezes não é um assassinato premeditado, o que não isenta que o autor do mesmo, no extravasar da sua ira não reserve a si uns requintes de crueldade, necessários tão somente para lhe justiçar. Não basta matar, tem que ser com classe. Com a mínima que seja.
O único relato no qual pode ser percebido um tom de remorso é o do que podemos chamar de "O caso do teatro":
Aquele ator era tão ruim, tão ruim, que todos pensavam - disso tenho certeza - "matem esse cara!".
E justamente no exato momento em que eu desejei matá-lo, caiu algo de cima do cenário e destroncou-lhe o pescoço. Desde então, ando com remorsos, pensando se eu fui o responsável por aquilo. (Aub, M., 2003, 26)
Por outro lado, esse remorso aí existente pode se transfigurar em outro conto, como raiva direcionada a si próprio por conta de sua "incompetência" na execução do seu plano (talvez o único ostensivamente premeditado), que chamamos aqui de "O invejoso":
Era mais inteligente do que eu, mais rico do que eu, mais desprendido do que eu, mais alto do que eu, mais bonito, mais esperto, vestia-se melhor, falava melhor. Se pensam que isto não é desculpa, é porque são uns tontos. Sempre pensei na melhor forma de me ver livre dele, mas fiz mal em envenená-lo: sofreu demais. Disso tenho remorsos, queria que morresse logo. (id.,32)
Mas esse remorso, essa culpa tardia pelo que se cometeu - que parece depois de uma análise mais apurada apenas um recurso retórico para florear a ironia - é exceção. A regra que Aub segue e que parece ser a regra de um mundo absurdo e encerrado num labirinto onde o matar é sempre melhor do que o morrer (e esse labirinto lembra muito a concepção maneirista-barroca esmiuçada por Gustav Hocke, que apresenta o theatrum mundi como um imenso labirinto onde as solidões se deparavam com o fantástico, com a ilusão, o aberrante; cabia ao homem sair de tal labirinto, talvez até para manter sua solidão intacta) e esse matar, que seja julgado ou não, sempre será bem justificado pela consciência individual.
Exemplo disso é o caso de "Panchito Contreras", aluno incorrigível (ou não), que passa por uma transformação, por assim dizer, moral, efetuada pelo seu professor:
Sou professor. Há dez anos sou professor na Escola Primária de Tenancingo, Zac. Muitas crianças já passaram pelas carteiras da minha escola. Acredito que sou um bom professor. Pelo menos até chegar esse tal Panchito Contreras. Não ligava a mínima para mim e não aprendia absolutamente nada, porque não queria. Os castigos não surtiam nenhum efeito, nem os morais nem os corporais. Olhava-me como insolência. Supliquei, bati nele. Cheguei a colocá-lo para fora da aula Não teve jeito. Os outros meninos começaram a fazer pouco caso de mim. Perdi toda a autoridade, o sono e o apetite, até o dia em que não pude mais aguentar e, para servir de exemplo, enforquei-o na árvore do pátio. (Aub: 2003,36)
Além desse caráter pedagógico do crime, se assim podemos afirmar, que mostra o quão breve é o agora, o quanto o corpo humano é frágil aos temperamentos alheios, há também a importância da demonstração da vontade. A vontade individual sempre é a soberana, o individuo, e não Deus, é quem decide a hora dos outros partirem. E, em casos excepcionais a dele mesmo morrer. Por isso, dentro dos Crimes Exemplares também há uma seção que trata especificamente dos suicidas, talvez o sujeito mais característico da vontade individual (num sentido negativo, óbvio), uma vez que o suicida até procura entrever uma situação melhor (no seu entendimento), mas o que importa é livrar-se da dor do imediato. E a morte é a única saída, nem tão indolor, é verdade, às agruras do mundo. Contudo aí também reside o mesmo inusitado, o mesmo absurdo que move os assassinos nos seus crimes e as justificativas deixadas em bilhetes tão patéticos quanto risíveis tem o mesmo teor de decisão inabalável, inadiável, inevitável. Alguns exemplos:
De Balbino López D., comerciante:
"Mato-me, senhores, porque dois e dois são quatro". (id., 76)
"Não culpem a mulher. Precisamente porque ela não existe, corto o fio da minha vida. Com uma tesoura, para maior precisão." (ib., 77)
É verdade que Aub também escreveu o seu livro com o intuito de ironizar a imprensa sensacionalista que oferecia e sempre oferecerá material para se escrever tantas quantas novelas tremendas, recheadas de sangue e violência. Compreendemos, porém, que sem nos importarmos com a autenticidade dos relatos (mas a ficção, por si só, não é autêntica?) traça um retrato bem-humorado, sarcástico e com um humor negro fino e arrebatador do quanto o homem, por mais sociável que o queiram tantas quantas sociologias existentes, em um nível pessoal e intrínseco, sempre será um ser individual, temperamental e cheio de desculpas para os seus atos. A morte é o final do desejo, é a aniquilação do incômodo, é a solução necessária para evitarem-se maiores complicações. Não importam aos assassinos as lamúrias dos que ficam nem a dor dos que se vão. Importa saber é que tudo está bem morto. Simples assim, como explica um dos autores dos "Dois crimes barrocos":
Penso, logo existo, disse um famoso homem. As árvores do meu jardim existem, mas não acho que pensem; com isto, podemos demonstrar que o senhor René não estava no seu juízo perfeito, e que o mesmo acontece com outros seres: meu sogro, por exemplo, existe e não pensa, ou o meu editor, que pensa e não existe. E se virarmos tudo do avesso, tampouco é verdadeiro. Não existo porque penso, nem penso porque existo. Pensar é certo, existir é um mito. Eu não existo, sobrevivo; viver - ou o que se chama viver -, só os que não pensam. Os que se põem a pensar não vivem. A injustiça é demasiado evidente. Bastaria pensar para se suicidar. Não, senhor Descartes: vivo, logo não penso, se pensasse não viveria. Poderíamos até fazer um belo soneto: Penso, logo não vivo, se vivesse não pensaria, senhor...etc...etc.
Se para viver fosse necessário pensar seríamos lúcidos. Mas, enfim, se estão convencidos de que é assim, sou inocente, totalmente inocente, já que não penso e nem quero pensar. Logo, se não penso, não existo e se não existo, como poderia ser responsável por essa morte? (Aub, M.:2003, 94,95)
Diante da banalidade da morte que os personagens de Aub nos demonstram fica claro que em outras palavras, diante de tanta violência e absurdo que se move ante aos nossos olhos, o que é banal, quase sempre, é a vida, essa vida que nos faz até pensarmos se existimos ou não. O certo é que da morte não escapamos.
Referências bibliográficas:
AUB, Max. Crimes exemplares. Tradução de Wanderley Mendonça. São Paulo:Amauta Editorial, 2003.
HOCKE, Gustav R. Maneirismo: o mundo como labirinto. Tradução de Clemente Raphael Mahl. São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1974.
KAYSER, Wolfgang. O grotesco: configuração na pintura e na literatura. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1986.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução e notas de Paulo Perdigão. 11 ed. Petropólis, RJ: Vozes, 1997.