Isto não é um cachimbo
Da além-vida, Bakhtin sorriu. Sabia de meu respeito por suas ideias, embora eu sempre as unisse com outras, as mais diversas possíveis. Monogamia de ideias, não! O bom é quando fazemos uma suruba e não se sabe mais de quem é aquele falo..., ô, quero dizer, aquela ideia bacana. Como se eu engravidasse de trigêmeos e cada um fosse filho de um pai diferente. Sacana. Gostoso. Imoral.
Penso no que Bakhtin e Benjamin conversam no céu. Ou no inferno. Em que língua? Espero que não seja em francês... Minha amiga pergunta no que estou pensando e eu respondo, em sexo. Ela fica vermelha como se nunca houvesse gozado e ri baixinho. Mudando de assunto, do que você falará no seu ensaio? Do Sonho. Vai usar Freud como base teórica? Não, apesar de eu concordar que tudo acaba em sexo, acho que isso é uma coisa pra se fazer, não pra discutir. Ahhh! Mas do sonho em que obra? Assim, do Sonho, intrasitivamente. Você diz coisas estranhas. Não, você que conversa pouco.
Nosso diálogo acaba aí, ela considerou minhas palavras como um fora e se vai. Fico sozinha e volto a ler Ricoeur. É, eu sou louca, eu sei. Gosto dele justamente porque ele complica as coisas, desarruma tudo e é você que vai colocando as coisas no lugar - como se você estivesse no filme mulheres à beira de um ataque de nervos e tivesse que arrumar o estúdio depois. Vai ver que é uma faxina de primavera, levanto a cabeça e digo para ninguém. Me arrependo de ter levantado a vista, pois, eis que surge, vindo pelo corredor, uma aparição. Ela vem assim alegre, com um sorriso idiota, como se valesse à pena viver no mesmo mundo que realities shows. Me dá um enjoo, consigo me controlar e digo um oi sem graça, demonstrando que sou de poucos amigos, de poucas palavras e muito veneno. Lendo (fazendo biquinho pra pronunciar corretamente) Ricoeuuuur? Não o aguento mais! Visse os meninos?! Eles estão com a playboy que tem Fanny. Tem quem? Fanny! Não adiantaria travar outra discussão, agora sobre quem é tal personalidade tão importante e que desconheço. Menina, tô tão cansada. Ela se senta, sem pedir permissão, a meu lado. Esqueceu que, antes de sentar, pede-se licença ou sua mãe não ensinou? Era isso que devia ter dito, ela sairia irritada e eu voltaria a ler, contente. Porém fui enforcada em 1946 por não ser uma pessoa legal. Engoli meu pensamento num sorriso forçado que a maioria das pessoas tomaria por ofensa. Mas há aqueles que, como ela, são imunes à ironia, e fica ali com seu sorriso idiota que me deixa mais depressiva. Era melhor ir pra França, fala isso num tom de sabedoria oriental. Era melhor morrer, concluo. Vixi! Menina, diz isso não. Fica assim, não...
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