Mais Estranho que a Ficção (2006)

Este texto tem fins didáticos, para explanar alguns termos da Teoria da Literatura.

 

Lembro do meu "estranhamento" a primeira vez que assisti a este filme, dirigido por Marc Forster e tendo Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson e Dustin Hoffman como elenco principal. Uma comédia, sem dúvida, que não recai em piadas de humor fácil e de gosto duvidoso, mas o riso se dá pela situação inusitada em que o personagem principal se encontra: descobre que é um protagonista de um romance.

"Um personagem principal que se descobre personagem principal"? Vamos analisar o filme sob um ângulo da teoria da narrativa para entender o jogo diegético criado.

Comecemos, então, pelo conceito de diegese. Vamos entendê-la como "dimensão ficcional" da narrativa, ou seja, a realidade criada nos romances, nos filmes, nas peças - mais conhecida como "mundo ficcional". As narrativas mais simples e lineares têm apenas uma diegese, com o tempo e o espaço narrativos construídos de forma uniforme, sem mudanças de planos ficcionais. Entretanto, não é isso que acontece em Mais Estranho que a Ficção. Somos apresentados, no início do filme, a três dimensões:

a) A vida de Harold Crick (Will Ferrell), que se começa a ouvir uma voz feminina narrando suas atitudes e seus pensamentos;
b) A vida de Karen Eiffel (Emma Thompson), escritora, que se encontra em dificuldades para terminar seu último romance;
c) Há um terceiro plano, em que conhecemos diretamente a imaginação da escritora, tecendo possíveis cenas para o fim de seu livro.

Essa estrutura é seguida por muitas cenas, até que descobrimos que narradora e personagem estão na mesma diegese.

É importante lembrar que temos um narrador que conhece tudo: a vida de Harold, a vida de Eiffel e, inclusive, seus pensamentos. Poderíamos dizer que ele se caracteriza ora como câmera ora como onisciência seletiva, pois ele não se limita a focalizar as ações dos personagens, o que eles dizem ou fazem, mas, além de saber todos os passos dos personagens, ele imerge na mente criativa da escritora Eiffel.

Dentro dessa grande narrativa, temos uma segunda: a vida de Harold contada por Eiffel. Ela é um narrador onisciente, pois conhece os sentimentos e pensamentos de seu protagonista. Embora ela não narre todos os fatos, é notável como ela nunca narra os encontros de Harold com o Professor Hilbert (Dustin Hoffman), por isso ela é um narrador secundário.

Percebe-se, então, que temos uma história na qual há outra história. Temos a história de Harold dentro do romance (narrativa menor) e temos sua vida dentro do filme (que em muitos momentos espelha o que está acontecendo no romance). Para casos como esse, André Gide (1869-1951), teórico e escritor francês, cunhou o termo Mise en Abyme. Em português, a expressão significa "cair em abismos". Dentro da teoria da narrativa, significa que há uma história dentro de outra história, as duas tendo alguma semelhança na forma (relação sintática) ou no conteúdo (relação semântica).

O tempo é um dos elementos mais importantes da narrativa, pois todas as ações que Harold vai realizar são modeladas pelo tempo que lhe resta. É uma corrida para entender o que está acontecendo (mal sabia ele...) e modificar seu destino (morte iminente).

Mas a vida e o tempo de Harold, antes, eram dominados pelo espaço: os passos contados para o ponto de ônibus, o método rígido de seu emprego, os cálculos intermináveis. Também vemos a importância do espaço quando, para eleger possíveis escritoras, professor Hilbert questiona se ela conhece bem a cidade. Pois esse "conhecer bem a cidade", delinear o espaço e moldá-lo em um tempo é que vai dar à obra da escritora ares de verossímil. É ao convencer o leitor ou expectador que determinados tempo, espaço e personagens são possíveis que um escritor ou diretor de cinema criam a verossimilhança (mesmo que esse tempo, esse espaço e esses personagens não sejam possíveis na vida real).

Os personagens são mais caricaturas do que tipos. Ou seja, elas representam mais uma qualidade social do que peculiaridades pessoais. Harold Crick, por exemplo, começa como uma caricatura de um homem que vivi sozinho e para seu trabalho; sua função social é levada ao extremo e sua mente "matemática" determinada todos seus atos. Temos o crítico literário, aquele que sabe tudo, que, antes mesmo de ler o livro, sabe como a história vai acabar, aquele que põe a literatura acima da vida. Temos a padeira com grandes propósitos sociais. A escritora maluca. E a assistente com propósitos editoriais (que vão de encontro aos propósitos literários, bom salientar!). Contudo, o filme parece ser a passagem de Harold de caricatura para tipo. Ao saber que vai morrer, ele começa a questionar sua vida e tentar mudá-la. Passa a ter uma dimensão psicológica.

É engraçado ver, em alguns sities, o filme catalogado apenas como drama. Certamente quem assim pensa não prestou atenção às palavras de professor Hilbert: na tragédia temos a inevitabilidade da morte, e na comédia temos a continuidade da vida, sequer saber que, nos dias atuais, a questão do gênero narrativo está tão "misturada" que fica difícil, senão mesmo impossível, dizermos a qual gênero o filme pertence: é um drama porque trata dos sentimentos de um homem ante sua vida (e morte!), mas também é comédia porque, pelo exagero das caricaturas, temos uma sátira ao modo de vida que temos.

Virgínia Celeste Carvalho

Comentários
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Adilson jardim 18-09-2009 14:17

Esse tipo de filme dá "Ibope"? O público tem dificuldade pra entender
até High-Land!!! Corajoso o autor. Nada muito esperto pra dizer, só uma
passadinha, Celeste.
Virgínia Celeste 18-09-2009 14:45

oi a, sempre bom vc por aqui... se deu ibope, eu não sei... sei que assisti em
uma aula de teoria da literatura e, como só podemos oferecer o que recebemos,
passei para meus alunos tb...
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