Não venha a mim, como se eu fosse espelho. Não tentes me explicar sob sua ótica: eu não acendo um cigarro, muito menos no que estou terminando de fumar, numa tentativa frustrada de aplacar qualquer vazio, seja por falta de amor seja por falta de sexo. Nem puxo baseado. Nem bebo também para apagar qualquer nódoa em mim. Tomo uma dose de vodca para sentir faltarem-me as pernas e permitir-me falar algumas besteiras, e isso é bom. Mas não fico com essa cara de puta arrependida: olhos inchados, hálito fétido e processador lento.
Também não acho relacionamentos difíceis. Não que os ache fáceis. Eles apenas são. Assim, intrasitivamente, como eu costumo dizer. Não gosto de mulheres que rebaixam os homens na tentativa de se afirmar; afinal não era essa, inversamente, a fortaleza masculina? Muito menos aprecio o lema da "mulher edificadora do lar"; essa coisa de ter apreensão nos olhos para garantir o amor nos olhos do homem... dessa mulher forte que fingi suportar marido, filhos, trabalho e, no fim da noite, ou corneia um, ou espaça os outros, ou se entope de remédios, ou, no fim do mês, aluga o ouvido de um bundão psicólogo que sequer sabe cuidar de sua própria vida. Se há duas coisas que aprendi com a literatura são: que somos máscaras e por baixo dessas há feridas imensuráveis, com secreções amarelas e fétidas; e que podemos fazer a realidade de tudo sem fazer a realidade de nada. E mesmo assim, te juro, ser feliz.
E quando toda essa merda terminar, não me converterei ao protestantismo, no intuito de que alguém me perdoe por superpopularizar o planeta. Não usarei saias cafonas nem me esquecerei das gramas que cheirei. Lembro-me que nunca cheirei nada, além de flores, frutas, terra molhada na qual eu pisava descalça e aquele perfume que fica no peito de um homem, após seu orgasmo. E isso sempre me foi o bastante. E como foi...