Passos lentos, deliberados, como uma valsa, levavam-lhe adiante.
Mas talvez, só talvez, fosse um tango. (B. Cortizo)
Amor? Não... Amor! Isso não é amor, é feeling. Foi o que eu tentei explicar-lhe com minhas metáforas, e nada do mundo se mostrou tão difícil, era-lhe impossível imaginar algum sonho no qual eu lhe dissesse algo a mais que literatura, daí na vida real tudo seria sempre encarado como ficção. Mas ele me sorriu como sempre e eu lembrei que a vida poética pode ser mais, não, não, ela é mais real que tudo, e me senti feliz, e lhe sorri também.
Não, meu amor, não é amor... é feeling. É a pele sobre a pele, mas ainda e sempre é a pele-palavra, pele ferida, pele maculada, ainda que apenas palavra. Ele me sorriu com ar de bobo. É ficção? É, é ficção. E verdades. Gargalhei sozinha, repetindo para mim todas as verdades, de maneira mais metonímica, a qual me permito quando falo só. Porque sempre lhe penso, sozinha. Sempre... se a palavra é carne, nosso discurso é sexo, e não posso colocar as coisas de outra forma...
É amor? Não, amor. Amar é largar nossa vida pequeno burguesa e lavar feridas de leprosos ou sair pichando muros contra nossa vidinha capitalista de merda. Isso é feeling. Eu lhe disse mais uma vez, na atitude vã de uma metáfora. Mas seu sorriso pós-moderno me dizia que meu discurso era obsoleto, moderno demais. Daí defini as coisas assim: amor é sempre valsa, e nós seremos sempre tango. Ele sorriu sério até seu lábio se enrijecer. Pôs seu casaco e, sem olhar para trás, fechou a porta atrás de si.