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Desabafo

A Paloma dos Santos, porque transcendemos as aspas.


Ontem estive me sentindo sufocada; triste até. As coisas se avolumaram de tal forma que pensei que iam me tragar; eu me perdendo num emaranhado de aços tortos, cores fortes, energias fartas. Mas depois lembrei que eu era Virgínia Celeste Carvalho, com todos os defeitos e qualidades que isso implicava, e, sinceramente, ego murcho não constava em nenhuma das listas.

Tentei lembrar fatos que vivi e, principalmente, porque eu os vivi. Pensar em todas as pessoas que fui e nas que deixei de ser. Nas que eu poderia ter sido também. E esse sentimento enlameado não estava nos planos de nenhuma delas. Tive medo.

Mas era noite, porta da madrugada já, e nessas horas as horas deixam de fazer algum sentido. Tudo fica muito instável e era eu quem estava em crise, não uma personagem. Não havia ficção alguma, eu me repetia. Mas depois pensei que a ficção poderia ser tão tamanha que nem eu percebera seus contornos. Duvidei de mim.

As faltas preenchiam. E algumas faltas sequer tinham nome, sequer formas, nem sentido. Era falta do que eu tinha, falta mesmo do que eu era. E fiquei assim pensando nessas coisas amorfas, inominadas, e, justamente por isso, tão intensas e inquietantes.

Daí lembrei que uma amiga me falou que precisamos definir as coisas. Não basta senti-las, vivê-las, jamais apenas passar por elas como passamos pela estrada imersa em canaviais. Precisamos envolvê-las em signos que as designem; que as façam significar algo fora de si. A linguagem e sua alienação primeira: delimitar, quando as coisas são, em si, esparsas.

E tudo que precisei foi nomear aquele momento para poder transcendê-lo.


Comentários
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Rita kramer 28-11-2009 11:23

E qual foi o nome?


Eu ando com Barthes debaixo das axilas, para essas horas. E
nem resolve.

;*
maria cristina 28-11-2009 13:20

professora,foi prciso que eu perdesse para poder entender uma literatura
tão romântica e gostosa, como é a sua embora tendo tanta dificuldade
de fazer uma análise com tempo e espaço que a faça gostar.
Virgínia Celeste 01-12-2009 11:50

Ritxita..... que bom vc por aqui nessa sala! :)

a palavra era medo. vc deve
entender o porquê.

Maria Cristina... sempre é preciso perder para aprender.
Aprendizagem sem obstáculos não é aprendizagem. Lembre-se que foi difícil se
desacostumar do leite materno... depois se desacostumar das bonecas... a gente
sempre tem que abrir mão de algo, para crescer. Bom, vc estar sempre por
aqui... quanto à análise, faça uma que vc goste... pense em vc gostar... com
certeza, eu gostarei também.
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