Deus no Pasto: Pacto Autobiográfico, Intertextualidade e Estilística
(Esse texto é simples, apenas foi um esboço para uma discussão em sala de aula)
Há diversas maneiras de se olhar para uma obra literária; maneiras que não se excluem e que, quando bem utilizadas, podem unir-se em uma leitura mais ampla, que não reduz o livro à teoria aplicada. Para analisar três aspectos literários - o pacto autobiográfico, a intertextualidade e a estilística - escolhemos o romance Deus no Pasto de Hermilo Borba Filho, publicado em 1972. É certo que, nessas poucas linhas, muito do romance nos escapou, porém por ele ser o objeto de um trabalho maior - a dissertação - achamos conveniente analisá-lo.
Deus nos Pasto é o último livro de uma tetralogia, Um Cavalheiro da Segunda Decadência, da qual fazem partem os romances Margem de Lembranças (1966), A Porteira do Mundo (1967) e O Cavalo da Noite (1968). É importante ressaltar que os dois primeiros volumes foram reeditados nos anos noventa; o que nos faz pensar que os dois últimos não o foram por trazer ironicamente figuras políticas e da intelectualidade que ainda estão vivos.
O primeiro aspecto que iremos demonstrar é o mais forte na obra: a autobiografia. Porém, não será feita uma topicalização, os outros serão expostos no decorrer da explanação, quando for conveniente.
O título da tetralogia já remete a um fato autobiográfico: Hermilo é filho de um falido "senhor de engenho", que tudo perdeu com as baixas na produção de cana-de-açúcar. Seu pai seria "o cavalheiro da PRIMEIRA decadência", logo Hermilo lhe herdaria o sentimento de perda, uma conformidade de quem questiona tudo, mas a nada pode mudar. Dessa forma, o herói desta história por ela passa e por ela é arrastado, não atônito, mas como se dessa corrente não pudesse fugir. Esse herói tem por nome Hermilo. A fusão do escritor com a personagem principal cria uma obra na qual o que aconteceu, o que poderia ter acontecido e o que Hermilo gostaria que acontecesse confundem-se. O escritor parece, no ato da escrita, reviver o seu passado e a ele nos apresenta apenas pelo seu ponto de vista. É uma busca por uma dignidade que se perderia nos destinos coletivos da história. Não só a sua dignidade, mas também de personagens simples que vão aparecendo ao longo da narrativa e a quem Hermilo dá voz e espaço. É sua verdade. É um sorriso irônico no canto da boca ao dizer tudo que não pôde no momento ocorrido. Hermilo, assim, constrói sua tetralogia em cima dos fatos de sua vida: família, primeiros amores, prazeres, casamentos, traições, amizades, inimizades, empregos, mortes.
Uma característica estilística que se perpetua em tal tetralogia é a ironia. Mas uma ironia fina, inteligente, que não está no nível sintático, mas no semântico, nas imagens. Hermilo, por não ser um escritor que subestime a capacidade interpretativa de seus leitores, não traz de forma descritiva sua crítica social e política, ele demonstra os fatos horrendos que presencia como se pudesse tirar-lhes uma foto e participar dela ao mesmo tempo. A fuga de Hermilo desses fatos é sempre instintiva e de certa forma escatológicas: o vômito, os dejetos, os orgasmos - todos esvaziamentos. O sexo em diversas partes da obra toma uma proporção gigantesca e parece que dele tudo deriva ou a ele se reduz.
Entretanto a forma narrativa se altera entre os quatro livros. No primeiro, temos uma narrativa que sempre é interrompida por fluxos de consciência; esses servem como um preenchimento das lacunas da memória, pois este livro se passa na adolescência febril do escritor em sua terra natal, Palmares. No último livro, o aqui estudado, tal forma narrativa é trocada por um estilo mais seco, um romance-crônica. Livro sem floreios, sem mistificações, que tenta representar de forma mais verdadeira as experiências de seu escritor-herói.
Deus no Pasto se passa em Recife, na esfera política-intelectual da qual Hermilo fez parte. Tempo de censura e de tortura, que saltam das páginas escritas de forma crua. O autor cria, por meio de pseudônimos e caracterizações, a esfera ficcional de seu livro, pois várias personalidades são expostas e tornam-se personagens por meio de um exagero em suas descrições, um "avacalhamento" de seus atos e uma importância exagerada em fatos menores, no intuito de dar ao futuro informações que não constariam em livros de história.
As personalidades que conseguimos encontrar são o então governador de Pernambuco Miguel Arraes, o escritor Ariano Suassuna, o artista Francisco Brenand e o escritor argentino Túlio Carella. Este último esteve no Recife e foi deportado; com ele, Hermilo manteve correspondência e, com seu romance Orgia, Deus no Pasto possui uma profunda intertextualidade. Isso porque ambos utilizam dos mesmos pseudônimos em seus respectivos romances. Outro traço intertextual na obra é a abertura dos capítulos por epígrafes: provérbios, frases de escritores, pensamentos de autores desconhecidos.
Bibliografia
ALBERTI, V. Literatura e Autobiografia: a questão do sujeito na narrativa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 4, n. 7, 1991, p. 66-81.
BORBA FILHO, H. Deus no Pasto - Um Cavalheiro da Segunda Decadência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
________________. Margens das Lembranças - Um Cavalheiro da Segunda Decadência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
CARELLA, T. Orgia.
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Última atualização ( Ter, 01 de Dezembro de 2009 14:23 )



