Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você.
B. Cortizo
Ele entrou de mãos vazias, vazias. E era uma tarde triste, eu perdida em meio a papeis e flores mortas. Mas ele veio, vazio e se mostrou a mim, inteiro. E eu queria que o tempo morresse aos poucos e calcificasse aquele sorriso já eternizado na memória. Porque era um sorriso alegre, que me falava de vidas que já foram e de vidas que virão. Acontece que eu estava preenchida, pesada, cheirando a tantas promessas, envolta no que deveria ter sido.
Estou aqui. Foi que ele me disse, olhando como se enxergasse meus pelos, minhas entranhas, minha alma e o que meus olhos veem. Você está aí. Foi o que eu consegui responder sem titubear, pois eu sabia que ele estava ali e era inútil achar uma borracha com nossa medida. Sabes quantos passos eu dei? Eram seus olhos que me pediam para dar um passo, apenas um, mas sentia cada vez mais a terra úmida sob os meus pés impedir-me, a terra a se abrir sob meu corpo. Eu ainda carregava uma pesada flor do passado em meu seio.
Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você. Não repita isso, foi o que eu tentei falar em vão. Não repi... Se for para Eu ser culpado... Ele repetiu de forma mais alta, mais árida até, mais rígida, e eu o contive com um dedo em seu lábio. Meu olhar recaiu sobre nossos pés juntos, unidos, havia eu dado um passo sem perceber? Eu quero ser culpado de você. Mas sem levantar a vista, descobri que sempre há um retorno, e regressando, vi a terra abrindo-se e eu caindo, naquele mar de rosas murchas.