Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você.
B. Cortizo
Ele entrou de mãos vazias, vazias. E era uma tarde triste, eu perdida em meio a papeis e flores mortas. Mas ele veio, vazio e se mostrou a mim, inteiro. E eu queria que o tempo morresse aos poucos e calcificasse aquele sorriso já eternizado na memória. Porque era um sorriso alegre, que me falava de vidas que já foram e de vidas que virão. Acontece que eu estava preenchida, pesada, cheirando a tantas promessas, envolta no que deveria ter sido.
Estou aqui. Foi que ele me disse, olhando como se enxergasse meus pelos, minhas entranhas, minha alma e o que meus olhos veem. Você está aí. Foi o que eu consegui responder sem titubear, pois eu sabia que ele estava ali e era inútil achar uma borracha com nossa medida. Sabes quantos passos eu dei? Eram seus olhos que me pediam para dar um passo, apenas um, mas sentia cada vez mais a terra úmida sob os meus pés impedir-me, a terra a se abrir sob meu corpo. Eu ainda carregava uma pesada flor do passado em meu seio.
Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você. Não repita isso, foi o que eu tentei falar em vão. Não repi... Se for para Eu ser culpado... Ele repetiu de forma mais alta, mais árida até, mais rígida, e eu o contive com um dedo em seu lábio. Meu olhar recaiu sobre nossos pés juntos, unidos, havia eu dado um passo sem perceber? Eu quero ser culpado de você. Mas sem levantar a vista, descobri que sempre há um retorno, e regressando, vi a terra abrindo-se e eu caindo, naquele mar de rosas murchas.
Última atualização ( Ter, 23 de Março de 2010 17:03 )
Passos lentos, deliberados, como uma valsa, levavam-lhe adiante.
Mas talvez, só talvez, fosse um tango. (B. Cortizo)
Amor? Não... Amor! Isso não é amor, é feeling. Foi o que eu tentei explicar-lhe com minhas metáforas, e nada do mundo se mostrou tão difícil, era-lhe impossível imaginar algum sonho no qual eu lhe dissesse algo a mais que literatura, daí na vida real tudo seria sempre encarado como ficção. Mas ele me sorriu como sempre e eu lembrei que a vida poética pode ser mais, não, não, ela é mais real que tudo, e me senti feliz, e lhe sorri também.
Não, meu amor, não é amor... é feeling. É a pele sobre a pele, mas ainda e sempre é a pele-palavra, pele ferida, pele maculada, ainda que apenas palavra. Ele me sorriu com ar de bobo. É ficção? É, é ficção. E verdades. Gargalhei sozinha, repetindo para mim todas as verdades, de maneira mais metonímica, a qual me permito quando falo só. Porque sempre lhe penso, sozinha. Sempre... se a palavra é carne, nosso discurso é sexo, e não posso colocar as coisas de outra forma...
É amor? Não, amor. Amar é largar nossa vida pequeno burguesa e lavar feridas de leprosos ou sair pichando muros contra nossa vidinha capitalista de merda. Isso é feeling. Eu lhe disse mais uma vez, na atitude vã de uma metáfora. Mas seu sorriso pós-moderno me dizia que meu discurso era obsoleto, moderno demais. Daí defini as coisas assim: amor é sempre valsa, e nós seremos sempre tango. Ele sorriu sério até seu lábio se enrijecer. Pôs seu casaco e, sem olhar para trás, fechou a porta atrás de si.
Eu cortaria os pulsos com você. Penso nisso ao estarmos nós dois sentados no chão frio e empoeirado, deprimidos e entediados. Também penso que o amor assim assexuado é mais racional e, de certa forma, mais prazeroso: você não me pedirá, com uma cara estúpida, para gozar nos meus lábios; e eu não terei que fingir prazer com tudo isso - fingir até sair correndo para o banheiro vomitar a porra e o jantar.
Eu cortaria... E beijaria uma puta. Veja: todos da plateia estão meio anestesiados, meio enojados com o filme, mas nós o olhamos e nos vemos ali. Mais uma boate cheirando a sêmen e vinho barato; mais uma drag e nós lá, imortalizados de preto, felizes com o anonimato, totalmente bêbados e achando legal um casalzinho gay se beijar. Como já disse, beijaria uma puta só pra saber que prazer você sente nisso; tem realmente gosto de pêssego os lábios dela? Não sei, mas sei que se um dia você ficar de quatro, como eu fico, dificilmente não gostará.
Você ficaria? Não? Eu não beijaria uma puta também, estava apenas nos testando. Devolve meu chocolate. Nós aqui no chão somos dois vermes sem nome, as coisas são assim mesmo, mas ela saberá nossos nomes na hora certa e nos chamará. A ela sim eu beijaria, pois é apenas uma garota gótica, "com um chapéu idiota e um sorrisinho todo exibido". Ela virá hoje? Não, você não sabe. Acho que esta é a única pergunta para qual você não tem resposta, pois não vamos cortar nossos pulsos hoje, mesmo com todo esse nó e esse eco de inutilidade.
Acho que vou vomitar o vinho não bebido. Acho que já cortei os pulsos e nem senti.
Apenas acho. A única certeza é que somos dois idiotas de egos grandes e só.
Virgínia Celeste Carvalho
Não venha a mim, como se eu fosse espelho. Não tentes me explicar sob sua ótica: eu não acendo um cigarro, muito menos no que estou terminando de fumar, numa tentativa frustrada de aplacar qualquer vazio, seja por falta de amor seja por falta de sexo. Nem puxo baseado. Nem bebo também para apagar qualquer nódoa em mim. Tomo uma dose de vodca para sentir faltarem-me as pernas e permitir-me falar algumas besteiras, e isso é bom. Mas não fico com essa cara de puta arrependida: olhos inchados, hálito fétido e processador lento.
Também não acho relacionamentos difíceis. Não que os ache fáceis. Eles apenas são. Assim, intrasitivamente, como eu costumo dizer. Não gosto de mulheres que rebaixam os homens na tentativa de se afirmar; afinal não era essa, inversamente, a fortaleza masculina? Muito menos aprecio o lema da "mulher edificadora do lar"; essa coisa de ter apreensão nos olhos para garantir o amor nos olhos do homem... dessa mulher forte que fingi suportar marido, filhos, trabalho e, no fim da noite, ou corneia um, ou espaça os outros, ou se entope de remédios, ou, no fim do mês, aluga o ouvido de um bundão psicólogo que sequer sabe cuidar de sua própria vida. Se há duas coisas que aprendi com a literatura são: que somos máscaras e por baixo dessas há feridas imensuráveis, com secreções amarelas e fétidas; e que podemos fazer a realidade de tudo sem fazer a realidade de nada. E mesmo assim, te juro, ser feliz.
E quando toda essa merda terminar, não me converterei ao protestantismo, no intuito de que alguém me perdoe por superpopularizar o planeta. Não usarei saias cafonas nem me esquecerei das gramas que cheirei. Lembro-me que nunca cheirei nada, além de flores, frutas, terra molhada na qual eu pisava descalça e aquele perfume que fica no peito de um homem, após seu orgasmo. E isso sempre me foi o bastante. E como foi...
Última atualização ( Sex, 02 de Outubro de 2009 14:47 )
À Morte, porque ela é o tudo sempre; A meu pai, pelos seus olhos que tudo me diziam pela janela; A Kirlian Silvestre, por ser sempre terra; A Álisson da Hora, porque lembrei dele à meia-noite de uma noite triste; A Bernardo Cortizo, que sempre me causa um sorriso; A Karolinne Serpa, a primeira leitora dessas palavras tortas, e, é claro, a Sylvia Plath, a quem só compreendo em noites como esta.
... e ela precisou levantar, para escrever e expurgar tudo aquilo que lhe impedia de dormir. Porque os olhos dele eram como duas setas fincadas há muito tempo, tanto tempo que nem podia mais medir em anos. Porque era o tempo da falta e do que não fazia mais sentido. E eram esses olhos que apareciam vertiginosamente, em lampejos que traziam uma sensação de dormência a seu cérebro... e ela se sentia caindo, caindo no sono, serena, mas acordava tonta, sentindo suas veias pulsando. Estava lisérgica.
Engraçado... essas coisas sobre a Morte. O silêncio que há no minuto anterior do verbo morrer conjugado. A atmosfera... os olhos... a atmosfera dos olhos. Eram esses olhos pestilentos que me olhavam e me diziam sobre o fim. Eram olhos turvos, taciturnos, de um brilho apagado, como tocha de fogo negro, e eram eles que eu fitava entre as frestas da janela.
Última atualização ( Ter, 29 de Setembro de 2009 04:40 )
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Não sei como você é tão burra. Era isso que eu queria dizer, assim, na cara, sem alterar a voz, no tom de sempre, confiante. Mas disse, agitando-me, noooossa, que legal! Intuitivo, inovador. Ri-me por dentro, pois sabia que não adiantava travar uma discussão teórica a respeito do que conversávamos. Ela riu, serena, concordando com minha falsa opinião. Irônica, falei do quanto Bakhtin estava errado e de quanto não ia com a cara do Benjamin. Ela ficou surpresa e me alertou para não falar coisas desse tipo na frente dos professores.
Da além-vida, Bakhtin sorriu. Sabia de meu respeito por suas ideias, embora eu sempre as unisse com outras, as mais diversas possíveis. Monogamia de ideias, não! O bom é quando fazemos uma suruba e não se sabe mais de quem é aquele falo..., ô, quero dizer, aquela ideia bacana. Como se eu engravidasse de trigêmeos e cada um fosse filho de um pai diferente. Sacana. Gostoso. Imoral.
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"Vou fazer de minhas mãos manjedoura e haverá de, nelas, nascer o acaso..."
É o que consigo escrever, antes que teu sorriso me venha à mente e me passe pela cabeça a ideia louca de ir te encontrar, mesmo que isso fosse loucura, mas preciso terminar esse texto ainda hoje, e a noite já consome tudo e o bairro onde moro já descansa. Amanhã voltará tudo: lavadeiras, mecânicos, professores, manicures, cabeleireiros, padeiros, motoristas, estudantes, domésticas, donas-de-casa, atendentes, vendedores ambulantes, feirantes, faxineiros, seguranças, tudo e todos num barulho imenso, numa procissão de tamanho alarido que me desperta todos os dias quando o sol começa a esquentar o quarto. Fico tão curiosa por saber o que estás fazendo. Assim, curiosa pelas pequenas coisas, como no que estás tocando agora. As pontas de teus dedos, o que percorrem? Talvez estejas limpando teus dentes com fio-dental ou limpando delicadamente as lentes de teus óculos em movimentos suavemente circulares. Te imagino até se aconchegando na cama para dormir, colocando o travesseiro em uma posição confortável e colocando o lençol até a altura do ombro, mesmo em dias quentes. Sei que sentes tua cama pequena, apertada, mal mexes uma de tuas grossas coxas e esta já pende para o lado. Inquieto como és, acordas diversas vezes durante a noite. Sei que desejas outra cama, mesmo que tenhas que dividi-la com alguém. Pena que esta não seja eu. Tu nem sabes se ela quer isto, quer dizer, eu acho que no fundo tu sabes sim, um fantasma já espreita no corredor quando olhas antes de fechar a porta do teu quarto, mas queres calá-lo a todo custo e te enganas que é apenas um pensamento inútil, fruto da distância. "Mas, mais distante você está", é o que me dirias, e eu responderia que sim, realmente estou, além de milhas de voo, estou numa camisa de força, a qual eu mesma me prescrevi. Não tenho o direito de acusá-la de omissa, quando eu sequer presente um dia fui. Mas o teu sorriso
Ela para abruptamente, sem ponto-final mesmo. Sua mesa está tão desorganizada que poderia esconder-se nela, atrás de uma pilha de livros ou de cd´s. Há poeira, fios e um grampeador sem muita utilidade, com grampos já enferrujados. Ela está com um pouco de frio e se sente um pouco sozinha. Seu marido ainda não chegou. Está sem inspiração e, como a personagem a quem acabara de dar vida, precisa terminar um texto. Estamos falando de Mônica. Não que este seja seu verdadeiro nome, porém vamos adotá-lo, pois ela é tão pura quando a Mônica, amante de Santo Agostinho quando este não era santo.
Mônica faz textos para uma revista feminina. E se questiona se não é tão feminina, já que nunca compraria essa revista; embora goste de escrever seus textos e os faça com toda verdade, não se sente mais tão confortável. Ela pula para outra janela do Word.
Agora tenho a certeza de que não quero ser escritora, afinal nem sei por que continuo a visitar continuamente blogs de escritores. Até porque alguém pode achar que há um tanto de inveja em minhas observações, pois não tenho blog nem amigos para ficar me bajulando em scraps, dizendo que o que escrevi era legal. Mas como, leitor, posso criticar se não ler? Como, ainda, posso falar mal - pois é isso que farei adiante - se não percorrer sob minha pele uma amargura de meus textinhos tão graciosos não estarem tão na moda como esses metaficcionais, metacríticos, cults? Gosto apenas de falar de amor, de sonhos, de pessoas distantes, de pessoas próximas, de pessoas, intransitivamente. Dizem que minha literatura é para donas-de-casa e até gosto de lençóis dependurados em varais, quanto mais coloridos melhor e de prendedores coloridos também, transformando-os em verdadeiros estandartes da família que os tem. Isso me traz um pouco de memória do quintal barrento, um cheiro de amaciante e de graviolas, os galhos de um cajueiro que tomava os recantos vazios e pés de alface descansando até a colheita sob a sombra dos cajus.
Eu dizia que não quero ser escritora. E há querer? Ao ato, ninguém pode fugir porque palavra e memória cercam como lobos atrozes e devoram, a partir de dentro, do útero, e sugam das veias, da medula. Não há como fugir da lembrança daquele morangozinho que estava nascendo e um fungo corroeu, meus olhos perdidos em lágrimas e meu pai explicando técnicas de como envolver o frutinho - logo que a flor cai - em uma pequena bolsa plástica, isso garantindo toda uma produção de morangos, resultando de um apelido a mim dado: moranguinho. Como enxotar esses fantasmas em vida, minha vida, senão transformá-los em palavras que nada dizem, ou pouco dizem, ou dizem às donas-de-casa?
E por que ousar o que não quero? Advirto-me.
Por que escrever algo a mais que estes pensamentos fugidios?
Por que pensar que devo escrever algo como o último texto que li, de um escritor famoso, no qual ele representava um diálogo idiota de um pai e filho, com grandes questionamentos sobre TV, educação, papéis sociais, cobradores de ônibus e dançarinas que sobrevivem do tamanho da bunda?
Para que sentir as dores do mundo, se as minhas já fazem meu corpo pender para o lado, uma corcunda de existência, tecida por laçadeiras invisíveis, eu, todo um aglomerado de cânceres de mim mesma, com unhas crescidas e cabelos despenteados por todo o tempo?
Por que tentar questionar condutas, pessoas, idiotas, ladrões, mulheres-objeto, se o que mais me causa náuseas são os escritores? Não o ato da escrita - esse sempre acima, um deus, um grande coelho branco caçando as onças - mas esse status perseguido, um privilégio de poucos para poucos, que sequer as pessoas entendem, sequer lêem, apenas, algumas, amontoam um monte de livros em suas estantes, na busca de um status, também tão vazio, de leitor. Já percebi que escritores não se dizem escritores, ou não se diziam até isso se tornar um clichê. Mas, entre alguns que não se dizem, alguns são. Eles não perseguem o status nem dizem "não sou escritor", no intuito que você lhe diga "é, sim". A despeito do que falem - seios, anjos, ancas, ladrões, dinossauros, libélulas, corredores, espíritos, vampiros, famílias húngaras, países maravilhosos, países extintos, mentiras verdadeiras, verdades falaciosas, memórias, caos e objetos - se percebem que suas palavras são unas, nasceram ali, naquele instante, e só são ali, com outras, como crianças em um parque, alegres, mesmo que ao lado repouse mortos em um cemitério, embora encubram verdades doentes, como um pai que toca sempre em seu sexo na hora de niná-lo.
Os outros, que se dizem e os que não se dizem para outros dizê-los, não são escritores. Falam da vida, mas a linearidade ou a ruptura tão socialmente esperada não fazem parte da vida. Ser humano é ser cruel e ser cruel, de fato, não é explicitar nomes de pessoas que estão por trás de uma grande máquina - máquina e homem se tornando um todo amorfo, doentio, mas, enfim, fértil, mesmo que de uma fertilidade doentia - chamada ideologia. Ser cruel, ainda, não é enfileirar as chagas humanas e se pôr acima - um deus a tudo e a todos julgando, quando ele se sabe que não passa de nosso títere - em forma de deboche, de inteligência e se consagrar aquele que condenava as mazelas de seu tempo e alertava ao povo, em uma mensagem que pairava entre o muthos e o logos, as coisas que todo mundo já sabe. Ser cruel é ser, por fim, o ditador das coisas que ninguém quer ver ou provar ou imaginar sequer que existem, latentes, por baixo de tapetes de aceitação, sociabilidade e bom comportamento. Existe perversão no olhar de um pai de família, gritando socorro por seu filho, talvez não para com seu filho, mas para com a adolescente que transita pela esquina com a mini-saia da moda, ou para com uma senhorita protestante que, de tanto esconder seu corpo, cria uma expectativa monstruosa, um pastor se deliciando à noite, num vai e vem de suas mãos em seu falo, lembrando daquela blusa que cobria os cotovelos e da saia que cobria os joelhos e imaginando todo o resto escondido. Quem escreveu sobre a perversão não fui eu, foi um escritor, esse sim escritor, pois conseguiu não representar um cotidiano televisesco, mas criá-lo, enquanto os intelectuais não o entendiam ou não queriam dar-lhe o contorno de todo merecido, ele também não querendo fogos de artifício, afinal são de artifício, não de conteúdo.
Para quem estava sem palavras, Mônica sente que escreveu demais e coisas que não devia, coisas que não seriam publicadas pela revista. Ela abre a porta de sua sala e vê que seu marido chegou e, cuidadosamente, tentava jantar sem fazer barulho; ela não se lembra de ter ouvido barulho de porta, sabe apenas que se concentrava nas palavras quando, na verdade, elas pediam pouca concentração. Ele sorri da sala de jantar, ela retribui com um beijo à distância, desses que vão voando pelo ar e até, se você escutar atentamente, ouve-se o estalo. Mas, naquela noite, ela nada ouvira. Sem mais, volta a fechar a porta de seu pequeno escritório, na certeza de que tem pouco tempo e textos que se escrevem deixando a mão liberta não são de bom agrado. Há de continuar seu texto.
Mas o teu sorriso é um ídolo de carne e nos teus lábios pulsam tanto desejo. Não creio que ela, como eu, consiga distinguir essa verdade única que és e, caso eu soubesse que me vês como te vejo, o que eu faria? Gotejaria em meus olhos águas do Lete e iria te ver. Assim, serias tu meu primeiro amado,
Mônica sabe muito bem que o trecho de agora destoa totalmente do que começara. Antes a personagem tinha uma incredulidade e lhe bastava imaginar formas e cores, não os viver. Era um texto sobre a dicotomia: mundo real e mundo ideal. E agora, onde a realidade? O mito se apoderou e o trecho que agora concebera parece retirado de um romance de um século distante, com uma devoção feminina, bem distante do público mulheres-modernas ao qual destinaria o texto. Ela não apaga o texto. Copia e cola em outra janela do Word. Salva, ironicamente, como "poema perdido". E retoma sua verve mulher bipolarizada, cidadã ativa, que enxerga o submundo citadino e as distâncias intransponíveis, como o casamento, o trabalho, o morar em outro país:
Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para
Estou lendo e relendo, lendo e relendo essa história, até mesmo estou vivendo, como se ela fosse a minha, até que sua mão fria de morto toca em meu ombro, me dizendo que é tempo de fazer outra coisa, como alongar o pescoço ou caminhar à sala e pôr comida para o gato. Mas sua mão, fria, não é assim terrível, história de horror com mortos-vivos, fantasmas e anjos perambulando em desgoverno pela Terra. Não. Essa história é particularmente de amor, de respeito: ele me enxerga, por entre espelhos, teclar e teclar e fica se perguntando o que danado tanto fala sobre ele, até que não suporta mais tal angústia curiosa e vem, de espelho a espelho, a mim. É nesse instante que ele recorda que mortos não lêem, desaprenderam o contorno das letras e os sons das sílabas; não conseguem unir signo a signo, até tudo relacionar-se em um compreender. Não tenho porque ter medo, embora no primeiro contanto um frio tão intenso deturpou o traçado que há em minhas mãos e formou uma palavra. Era o nome de um de seus livros. E eu lia tão claramente, mas não tive o que fazeride: não sou sua viúva, nem seus filhos, nem editora. Eu fico aqui, escrevendo as idiotices pelas quais me pagam e vou sobrevivendo dessas úlceras, pois em cada texto que escrevo se vai um pedaço de mim.
Corrôo-me aos poucos, como um pudim que vai sendo delicadamente comido por alguém que sabe descuidadamente apreciar o sabor. Eu até creio em minhas idiotices, às vezes. Só às vezes para não viciar e essa lama virar cíclica e eu, ao menos eu, mude, já que seres humanos, aconteça o que acontecer, continuam a fazer a mesma coisa: comer e cagar, matar e morrer, acostumar-se à morte dos seus e precisar de um outro para brincar na gangorra.
Tenho pensando muito nele e nela, em tantos neles e em tantas nelas que passam por isso agora e, é óbvio, que isto me leve a pensar em mim e em você. Nesse eu e tu tão belamente crus, como tudo que é novo, uma página em branco, o primeiro cantinho claro do céu quando as trevas dissipam-se ou mesmo a primeira onda que a gente pula, quando adulto ou criança pouco interessa, ao primeiro contato com o mar. Tudo que é virgem, ao ter consciência de si, quer exceder esses contornos parcos, quer alimentar-se de sangue, tinta, nuvens ou areia. Pensando assim nos parece que tudo, após uma primeira entrega, estagna. Mas não. Sempre somos virgens a algo, sempre tímidos - entretanto desejosos - ao novo. Nunca uma nuvem igual à outra, nem onda, nem tinta, nem sangue. Todos de espessura, cor, consistência, verdade, mentiras, acidez, conchinhas, moluscos, algas, sabor, formas, tipos, moléculas, doenças, saúdes, humores, marés e tanto mais coisas distintas. É tudo tão diverso, quando se olha atentamente. Nem se precisa de tanto tempo, para olhar. Muitas vezes até, caso não se perceba na primeira hora, não mais se verá e continuar-se-á a ver tudo tão familiar que causa um enjôo de voltas e voltas intermináveis na mesma montanha-russa de sempre, com emoções e desesperos sempre tão calculáveis e os respingos de vômito caindo em algum idiota que debaixo observava o movimento.
Só depois de uma pausa para, enfim, respirar, nota que errou de documento. Ctrl+seta para cima, Ctrl+x, Ctrl+alt e Ctrl+v. Volta ao documento da revista.
Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para
Ela pensa: esses vários "ps"... Mas resolve deixar assim, afinal que crítico literário leria aquela revista?
Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para esquecer nós dois. Lembrar de Ovídio e dizer para mim mesma que você recebe muito pouco; e eu nunca me passaria por sustentar teus luxos. Repetir em bom som que passaste do peso ideal, que irás enfartar logo e, de cama, serás um peso que atrapalhará toda minha carreira. Então, não mais amor, adeus.
Vou fazer de minhas mãos manjedoura e haverá de, nelas, nascer o acaso. O acaso existente em um tênue sonho.
...não sabia se seria fácil transcender o setembro, já que lhe parecia longínquo ultrapassá-lo. A noite, tão negra, instigara buscas, sim! Mas o corpo, salientemente pavoroso, não lhe seguira as intenções. Não houvera passos, seus pés repousavam num azul indefinível, desconhecido. As mãos férteis dormiram no sonho, nunca sequer chegaram a realidade de um único verbo. Ali, no abismo, não havia luz, ressaca ou calos: coração dormente. Sentira tudo isto e não entendera porque a cabeça, surpreendentemente, cogitava, ainda, um futuro.
O passado restava num envelope ou selo; porque fotografias sempre lhe pareciam parte de um capitalismo do qual nunca fizera parte. Então, mudara de opinião. Fotografias são almas congeladas que trafegam num incerto tempo, imagem inerte que, mesmo inútil, pode nos revelar quem fomos, caso esqueçamos. O passado, talvez, assombrava-lhe na poeira sobre o abajur. Ou na teia de aranha num canto do teto. Daquele branco do céu-teto fora que já fora mais branco: isso era vertiginosamente recordação. No quarto, então quarto-mundo, apareciam pessoas, entretanto aqueles rostos pareciam crucificados e mortos num canto do cérebro.
Não sabia se era fácil, o setembro. Cheiro de primavera corrompendo o mofo. Noites menos tristes, menos noites. Ventos menos tesos. Solidão menos viva. Um canto de rouxinol. Era fácil esquecer, difícil era encontrar um porquê para recordar.
Última atualização ( Seg, 08 de Junho de 2009 16:38 )
A única coisa que alguém era capaz de escutar ali era o estrondoso som do silêncio.
B.
Era o silêncio dos teus olhos que me dizia um adeus. E foi a eternidade do tempo que conheci naquele brilho que se escondia sob o elmo. Depois foram apenas tuas costas eretas pela compostura que a armadura impunha; depois foram apenas o trote do cavalo, a poeira revolta e minha expectativa de uma última troca de olhares que por muito não existiu.
Era meu silêncio à janela, a cada tarde. E era de mim que partia a tua voz; uma lembrança boba de infância perdida. E quanto mais me chamavas, mais me escondia entre trigos, atravessando os descampados, só parando um pedacinho de mundo perdido, em outra dimensão colorida, com realidades desenhadas na terra ainda fofa da última chuva.
Era o silêncio da memória que emergia de meu ser e se tornava torre, castelo e muralha. Tornava-se o limite de todo horizonte que eu via. E os campos verdes tornaram-se rochas e a lembrança da tua face tornou-se pouco a pouco um mosaico em tons cinza; tua figura quase toda incerta, a eternidade só não surtindo efeito na candeia que me eram teus olhos.
Mas houve o silêncio do recompor. E não foi um silêncio rápido. A eternidade se sobrepuja e se constrói nos livros de nossos dias. Foi um silêncio saboreado em palavras esparsas, fúteis trocas de gentilezas que refaziam tua imagem e pude reconhecer os teus olhos que agora também me reconheciam. E eles me disseram que ainda não é a hora do silêncio, enfim, de nosso amor.
Última atualização ( Dom, 31 de Maio de 2009 05:56 )
Olhei para o apartamento, a luz apagada dizia que ele já havia se mudado, não dizia mais que isso. Eu quis entrar, subir as escadas, acender as luzes, dizer que tudo aquilo representava muito pra mim, mas que diferença isso faz?, me perguntaria o porteiro moco, e eu responderia muita, mas nenhuma para você!. Visto isso me conformei em parar um pouco em frente ao edifício e olha!, na esquina escura havia um caminhão parado, vi coisas como se o caminhoneiro estivesse comendo uma puta barata, fazendo algo mais real do que eu aqui, em frente a esse prédio imundo, lembrando do barulho que fazíamos, talvez até em vão, para que os vizinhos se espantassem e gritassem injuriados, que merda é essa?, e eu gritasse cada vez mais alto, me chama de puta, porra...
Ela parece que gozou. Acidente de trabalho. Quanto a mim, estou indo ao ponto de ônibus, parece tudo caleidoscópico, e não sei por que bosta parei aqui. Vou caminhando, a rua fede como todo o Recife fede, há cachorros sarnentos por todos os lados, gatos fazendo amor e olha que ainda são oito da noite. Estou indo ao ponto de ônibus para espairecer, nem precisava sair, sabe?, mas queria, precisava de ar, de sexo até, mas ele não pode, ele não quer, se quisesse, como seria?, enquanto os pais velam no quarto ao lado?, que nada! sexo sem gemidos, sem gritos, quero apanhar e quero que me foda ao máximo, eu sempre digo isso, e ele vem com aquela conversinha mole de você gostou?, e eu, enquanto seu pau estiver lá, duro, sedento, querendo mais, pois eu também sempre quero, aí não rola problema.
Olha!, um carro preto parado, o motorista dentro, sinto-me convidada a fingir ser uma puta barata como a outra do caminhoneiro e entrar lá, fazer o serviço, cobrando é claro, talvez eu aprendesse a ler o Ulisses, talvez eu mesma me tornasse o Ulisses, veja a cara dele, sem imaginar que está trepando com uma intelectual, mas se eu lhe dissesse, ele diria preferia que você tivesse o tabaco maior, mais gordinho sabe?, você só tem ossos!, onde está sua bunda, hein?. E eu diria, pô!, podemos discutir Karl Marx, ele mandaria eu engordar uns quilos e eu aprenderia que o mundo não se resume a uma dialética de merda nem a minha anorexia. Mas eu não ficaria calada e sairia gritando que meu namorado diz que minha buceta é gostosa, sim ele diz quando me lambe, e diria que a Nicole Kidman tem bunda pequena também e vive cheia de grana por mostrá-la em filmes.
Deixo o cara em seu corcel lá, sozinho, sem comer ninguém, eu não teria coragem mesmo.
Lembra a brancura da garota do prédio vizinho, mas não é, aquela tinha sardas avermelhadas que me faziam parecer bailar entre estrelas flamejantes, rodopiando, rodopiando, caindo bêbadas no mar, eu caindo bêbado no. Essa, agora, apesar do cabelo ruivo, esquecera as sardas em algum lugar da barriga da mãe; as espinhas, entretanto, mostram que só agora a pouco saíra da adolescência; não reclamo porque ainda não me julgo ter saído. Sabe como é, não dá para viver dezoito anos recebendo gracejos que ainda se é criança e de um dia para o outro, especificamente 1º de abril, meu aniversário, acordar com cara adulta e sair pagando as contas de casa. Sou uma mentira, nunca tive existência para mim mesmo, nem metafísica, até porque nunca procurei saber o que realmente viria a ser metafísica, não posso ter algo, ser algo, que não sei bem o que é; se o Campos falou para desaparecerem com ela, não deve ser algo bom; deve fazer parte dessas condutas sociais pré-fabricadas, às quais devemos ser contra, como a qualquer lugar-comum. Meus pais, por exemplo, comuns, chatos, sempre prontos, atentos, cães de guarda, salva-vidas, pára-quedas e termômetros: sempre pagaram o plano de saúde em dia e minha vida parecia resolvida, até ontem - por que não atrasar em uma semana para me dar a grana para comprar chicle? isso eu perguntava quando, aos 5 anos, não entendia de porcaria alguma. Hoje, mesmo ainda não entendendo, sei que meu pai não me sorrirá numa explicação dramática e helênica que poderia tirar 50 centavos, que isso lhe faria falta, mas mesmo assim me daria, e me dava. Hoje não preciso de cinqüenta centavos nem de chicles; ela, ali, deve custar algumas latas de coca e umas doses de uísque, uma boa explicação porque precisarei do carro até depois das duas, das três: hoje, o homem em mim precisará mostrar-se mesmo nunca tendo, realmente, existido: não beberei para poder segurá-la ao colo, quando bêbada cair em meus braços, sei que não terei forças e cairemos os dois, pensarão que estamos fazendo amor em via pública e nos prenderão; não usarei aquela saia escocesa, talvez ela não goste desse visual mais-incomum-possivel. Precisarei ter dinheiro para fazer as unhas e limpeza de pele - lavar o carro de minha mãe parece ser uma boa, mas penso que amanhã terei de lavá-lo de todo jeito, se quero usá-lo hoje; ela se importará de ir a pé? a noite está apenas começando, falarei; mentirei que sou esportista, adoro caminhar e bater em ladrõezinhos que esperam na esquina escura da rua 32, seu sorriso crescerá pois saberá que é mentira, não sou forte, não valente, não alguém que possa mentir e tudo bem; saberá que não tenho dinheiro nem para a primeira rodada e rirá de minhas unhas imundas; se gostasse de homens imundos, namoraria o Pedro do terceiro andar. Por que uma garota que pode sair com qualquer cara, sairia comigo? somos materialmente distantes e dizem que sou gay por fazer as unhas; notei que ela não faz as unhas - disso não gosto, mas que se pode fazer? agora, sentindo-me realmente macho, não é mais uma transa onde eu poderia escolher garotas pela perversão de unhas bem feitas, grandes, arredondadas e coloridas; ela não tinha de ser meu reflexo, amor não conhece essas coisas de perfeição e higiene; ela era linda e me satisfazia sem que eu tivesse usufruído seus beijos, se bem que, no final das noites, normalmente, sempre fiquei só, sem usufruir nada; ao menos, dessa vez, posso usufruir uma náusea que chamam sentimento, paixão, se ela não me quiser por falta de grana, tudo bem, contarei da Rita, do 101; ela rirá mais uma vez, pois a Rita não tem cabelos ruivos nem olhos de um castanho vivo e sanguíneo, nem está apaixonada por mim, pois isso é mais uma mentira e de tanta mentira, ficarei sufocado em minhas palavras inférteis. Falarei a verdade, olha sou um cara pobre, mas legal, sei, sei, o Rodrigo da cobertura comprou um carro, claro que eu soube! ah, mesmo, o Otávio do 602 passou em medicina? legal, eu passei em crítica literária - é, acho que não dá tanto dinheiro quanto análise de sistemas, mas eu não sei lógica, caramba! eu sei que você já está no terceiro de direito, que bom, você sempre foi boa aluna, não é? não, não, eu fugia para o banheiro, sabe, contos pornôs eram meus favoritos; também sempre gostei de poesia, mas não espalha, dizem que é coisa de viado - é, eu faço as unhas, algo de errado? Essa coisa de falar a verdade é impensável quando a verdade parece nada exótica, é normal e bruta como pedra falsa antes de ser lapidada: minha vida não é nenhum diamante que eu possa pôr num colar e estender-lhe como convite; convidarei uma garota para sair quando não posso pagar-lhe um uísque? sim, talvez ela nem beba, mas isso não importa - só seu cabelo vermelho me custariam todos os dias de trabalho árduo. Desisto, porque muito me cansa isso de encontro, de ter de estar pronto, a serviço, de não ser mais eu: por que não posso ter mais perfumes que ela, nem chapinha para cabelo, nem serra de unha? Se na história da poesia, desde os trovadores até os modernos, sempre houve poetas e estes possuíam suas amadas-musas-deusas, por que serei eu o viado? Todos os outros poetas eram? Sei não, Neruda pareceu-me bem pack-man, naquele filme do carteiro...
Última atualização ( Sex, 22 de Maio de 2009 14:38 )
Vivo da realidade nauseabunda que me permitiram. Eu como carnes de minha própria chaga. A chaga da perna. A chaga do peito. A chaga do olho. Urino na perna para que o ácido sirva para romper o pus. Ainda não lambo o pus. Mas já me estapeio, com o vira-lata que me acompanha, por qualquer carniça que se possa chamar de comida. E visto trapos. Era de se imaginar.
Vivo da carne dos livros. Do cheiro de memória das bibliotecas. E do esquecimento dos fracos. Vivo da seiva dos poemas adubo de poemas e de mais poemas. De orquídeas por sobre outras árvores, vivendo em seu parasitismo vicioso. Orquídeas explodindo em cores violetas em tardes cinzas. E de todos os corvos que vêm à janela, à noite, nem sei para quê. Talvez leiam trechos quando o vento abre alguma página despreocupadamente de um livro qualquer deixado sobre a mesa.
Vivo de teu sorriso limpo. De teu gesto menino de tocar nos meus seios e avidamente sugá-los, como bebê. E vivo do que sugas. É meu prazer que sugas. E vivo dos teus olhos quando olho entre olhos e pernas, entre bocas. Vivo da tua mão espessa que tudo abarca, mas delicadamente separa cada fio de meus cabelos róseos e teces algo indecifrável, como tapeçaria já gasta. Vivo da tua morte anunciada, da partida cômica em uma noite chuvosa. Vivo das macas e dos holofotes.
Das palavras ocas que trocamos, vivo. Agora mais ainda: palavra calculada. Não mais olhas e esqueço. Vivo do pedacinho de espelho partido que restou embaixo da cômoda. Do mofo restante em prateleiras vazias. Vivo do silêncio de quem desaprendeu o toque das palavras. Eu apenas vivo das horas.
Última atualização ( Ter, 12 de Maio de 2009 21:44 )
Meu cabelo está servindo para arear panelas e perco um ônibus. Deixo outro passar, pois nesse eu precisaria descer na universidade e, sinceramente, não estou com saco algum de ver aquelas caras enjoadas, ou talvez a enjoada seja eu, mas no fim o que importa é que não quero ver ninguém conhecido, mesmo. Depois de vinte minutos, embarco finalmente e todo mundo do ônibus me cerca com os olhos, devem pensar que só mesmo uma louca para sair com o cabelo assim. E estão certos. A chuva que estava forte passa e me arrependo de ter trazido comigo a minha sombrinha, azul e excêntrica como eu, grande e pesada, mais cassetete que guarda-chuva. Mas como vou à Praça do Derby, pode ser útil. Sento-me ao lado de um senhor de bigode simpático e esqueço-me um pouco olhando pela janela. Crise de ausência. Normal. Crise esta interrompida quando o senhor vai embora e se senta em seu lugar uma mulher de perfume doce, fortemente doce, enjoado e, claro, barato, possivelmente comprado no Hiper. Nos entreolhamos sérias e me lembrei que meu cabelo não estava me dando moral necessária para reclamar do visual de ninguém. Minha rinite me lembrou que existia, mas como já estava perto de onde eu desceria resolvi não trocar de lugar.
Desço no Viaduto da Caxangá e espero mais uns dez minutos pelo outro ônibus. Como este vem da universidade, entro rezando para que não haja ninguém conhecido. Alívio. Há um lugar na sombra, mas ao lado está sentado um babaca que, não sei ao certo, ou está me paquerando ou se dizendo "nossa! Que cabelo horrível", hoje em dia ninguém sabe, né? Mas o fato é que decido sentar do outro lado, junto a um moço que tem uma cara séria de "minha namorada me mata se eu olhar do lado". Sento e, nas paradas seguintes, o ônibus não tarda a encher. Uma mulher gorda se coloca a meu lado, tapando qualquer possibilidade de ar, começo a suar horrores e são nessas horas que descobrimos que a propaganda do desodorante 24h era enganosa. O moço-de-namorada-ciumenta toma toda janela para si. Acho que vou morrer. Finalmente meu destino chega e desço uma parada antes do Hospital Português, vou à Rua Viscondessa do Livramento validar na sede do plano de saúde o exame que farei logo mais. Passo uns quinze minutos e acho que vou me atrasar para o exame. Saio, então, à toda velocidade, para o consultório. Corto caminho pelo pátio de um restaurante chique e, creio, o segurança fica me olhando, sério: com meu cabelo no estado em que está, realmente não é difícil me tomar por uma trombadinha. Chego à Praça do Derby e pergunto a um motorista de táxi onde fica o bar que me deram como referência para achar a clínica; ele responde, amigavelmente: ali, onde está aquela placa "Pitú". Ok. Mesmo que o signo Pitú não signifique nada para mim, era difícil não ver.
Chego ao local do exame e descubro que a hora marcada era conversa fiada! Nada de 3h05 como "meu horário". Era a partir das 3h05 para chegar, e já há um monte de pessoas-com-cabelo-de-arear-panelas na minha frente! Acho que vou matar a atendente. Mas prefiro ir ao Shopping Boa Vista, comer esfirra. Pego mais um ônibus e vou à Conde da Boa Vista, desço no Shopping e subo ao segundo andar, para o Banco do Brasil. As filas estão enormes e, quando estou quase chegando ao caixa, acabam-se as notas de R$10 e R$ 5! Puta que pariu. Vou para a outra fila, mais tempo em pé, mais cansaço, mais gente me olhando desconfiada, sem eu saber o porquê. Saio do banco e vou à praça de alimentação. Vou ao pastel. Peço de bacon com catupiry. Ao comer, percebo o quanto realmente estou louca: não gosto de catupiry nem de bacon. E eu fora ao shopping comer esfirra. E fui ao banco porque a lanchonete que vende esfirra não aceita débito automático. E lembro que as pessoas devem estar me olhando por conta do meu cabelo em pé, lógico. Estou com vontade de me internar. Desço as escadas rolantes que me dão um pouco de tontura e pego outro ônibus de volta ao consultório. Um cara esquisito fica me encarando e quando desço fica soltando gracinha (tive a "sorte" de o ônibus parar no engarrafamento, perto de faixa onde eu ia atravessar).
São quase 5h e agora o consultório está menos cheio e sei, pela atendente, que serei a próxima a entrar na sala da médica. Sento e uma menina começa a ler sobre Nietzsche a meu lado, quando nota que eu olhava a capa do livro, faz uma cara de intelectual e me olha com ar de superioridade. Ela deve ter 17 anos. Ela deveria ler Capricho. Mesmo. Sou chamada para o exame e a médica faz algumas perguntas. Menti em todas, não sei o porquê, mas menti, eu queria mesmo dizer a verdade, mas outras verdades saíam, e fiquei me perguntando o que era realidade naquilo tudo. Faço o exame e fico completamente tonta. O mundo gira e deixo de sentir minhas mãos e pés. A médica pede para eu sentar um pouco na maca, respirar fundo e, principalmente, para eu ter cuidado ao descer as escadas - escadas em caracol, diga-se de passagem.
Saio com o cabelo pior do que entrei: além de crespo, assanhado, grosso, sem cheirinho gostoso de creme de pentear, está com uma gosma branca, que endurece e fica caindo que nem caspa, está mais assanhado porque deitei na maca, está terrível, enfim. Vou embora, e decido pegar um ônibus apenas para casa: pode-se dizer que eu daria uma volta completa por toda zona sul do Recife. Outro ônibus lotado, de pessoas suadas, que se espremem, se apertam, se roçam. Boa Viagem que de boa não tem nada. O cara do amendoim, o cara da pipoca, o cara da pastilha, os muleques que entraram pela porta traseira para o desespero do motorista, as senhoras, os pais-de-família, os solteiros, as meninas do colégio estadual, as empregadas do shopping, todos, todos, todos, rindo do meu cabelo. E eu, nem aí.
Eu lhe digo que a capa do livro é uma grande vagina aberta, deixando-nos ver a força e a fragilidade de uma vulva em flores. Mas ele diz que não, que preciso de terapia. Deste pasto, não quero mais, foi o que tentei explicar, mas isso parece que lhe deixou mais preocupado, fazendo-lhe engolir um pouco de saliva e seus olhos não saiam de cima de mim, como dois padres, não, dois papas a me excomungarem e eu ficando nua, meu sexo também exposto e seios intumescidos pelo frio. Foi nesse instante que gritei pára!, e me tranquei no quarto, deixando-me cair sentada atrás da porta, como fazem as atrizes hollywoodianas, mas isto é a vida real, era o que ele diria e mesmo calado ressoou sua voz grossa em minha mente e me pus a chorar. Porque sim, isto é sim trágico. Um caleidoscópio, tipo de LSD, mas estou limpa hoje e ele sabe, mesmo assim bate na porta, pergunta se estou limpa, cê jogou minha última caixa de calmantes e não tem nada a ver com isso, é outra coisa. Ele não enxerga o outro lado que sempre há, inflamado, exigente, viscoso e ponho a me tremer e babar como um cachorro, mas estou só, ele está do outro lado da porta e não pode impedir que minha cabeça bata uma vez contra porta, ele escuta e se preocupa, eu sei, mesmo que eu não ouça e não sinta nada agora, sei que ele escuta do outro lado e grita qualquer coisa como amor, calma!, porém nunca estive tão calma, você que não vê que tudo me é vão, e vou ficando miudinha, miudinha, quase passo pela brecha da porta, quando acordo tossindo quase engasgada pela saliva que corre e levanto numa tontura daquele chão frio e abro a porta como se o quarto fosse uma sala tão apertada e me acometesse uma claustrofobia como a que nos acomete quando completamos nove meses e queremos sair a todo custo de um útero fétido, frio e pegajoso que nos acolheu, porém crescemos demais e queremos outros horizontes e depois teremos até que enterrar aquela carne da qual já fizemos parte e achamos tudo isso muito normal, até flores mortas de pessoas que você nem conhece temos que aturar, e servir um cafezinho, como se tudo fosse um samba, um samba de crioulo doido como diriam meus parentes descendentes de portugueses fracassados. Eu abro a porta, ele e os dois papas em seus olhos ainda estão lá, ao menos, agora, confusos, e não tão mais incisivos e gigantes e de pênis sempre excitados. Estão murchos agora, como caramujos doentes. Ele me abraça e diz que está tudo bem, e canta alguma canção dessas idiotas que falam de amor incondicional e eterno, sei que tudo isso é com carinho, que ele me quer ver bem, mas isso me deixa mais entediada, o amor não é assim capitalista, ainda ouso dizer, ao que ele retruca all I ever wanted, all I ever needed is here in my arms, words are very unnecessary They can only do harm, eu lhe digo que gosto dessa música, embora devamos falar e enxotar essa lama que o silêncio cria, atolando nossos pés, pernas, daqui a pouco chegando à cabeça e você morrerá mudo, eu me perguntei como consegui articular tal idéia se tudo era tão confuso, ele até concordou e me levou até a cama, onde se pôs a me ninar e eu voltei a dormir, sonhando com a grande vulva que consumirá a todos nós, vacas e bois nesse pasto de meu deus.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 18:30 )
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