A única coisa que alguém era capaz de escutar ali era o estrondoso som do silêncio.
B.
Era o silêncio dos teus olhos que me dizia um adeus. E foi a eternidade do tempo que conheci naquele brilho que se escondia sob o elmo. Depois foram apenas tuas costas eretas pela compostura que a armadura impunha; depois foram apenas o trote do cavalo, a poeira revolta e minha expectativa de uma última troca de olhares que por muito não existiu.
Era meu silêncio à janela, a cada tarde. E era de mim que partia a tua voz; uma lembrança boba de infância perdida. E quanto mais me chamavas, mais me escondia entre trigos, atravessando os descampados, só parando um pedacinho de mundo perdido, em outra dimensão colorida, com realidades desenhadas na terra ainda fofa da última chuva.
Era o silêncio da memória que emergia de meu ser e se tornava torre, castelo e muralha. Tornava-se o limite de todo horizonte que eu via. E os campos verdes tornaram-se rochas e a lembrança da tua face tornou-se pouco a pouco um mosaico em tons cinza; tua figura quase toda incerta, a eternidade só não surtindo efeito na candeia que me eram teus olhos.
Mas houve o silêncio do recompor. E não foi um silêncio rápido. A eternidade se sobrepuja e se constrói nos livros de nossos dias. Foi um silêncio saboreado em palavras esparsas, fúteis trocas de gentilezas que refaziam tua imagem e pude reconhecer os teus olhos que agora também me reconheciam. E eles me disseram que ainda não é a hora do silêncio, enfim, de nosso amor.
Última atualização ( Dom, 31 de Maio de 2009 05:56 )
Olhei para o apartamento, a luz apagada dizia que ele já havia se mudado, não dizia mais que isso. Eu quis entrar, subir as escadas, acender as luzes, dizer que tudo aquilo representava muito pra mim, mas que diferença isso faz?, me perguntaria o porteiro moco, e eu responderia muita, mas nenhuma para você!. Visto isso me conformei em parar um pouco em frente ao edifício e olha!, na esquina escura havia um caminhão parado, vi coisas como se o caminhoneiro estivesse comendo uma puta barata, fazendo algo mais real do que eu aqui, em frente a esse prédio imundo, lembrando do barulho que fazíamos, talvez até em vão, para que os vizinhos se espantassem e gritassem injuriados, que merda é essa?, e eu gritasse cada vez mais alto, me chama de puta, porra...
Ela parece que gozou. Acidente de trabalho. Quanto a mim, estou indo ao ponto de ônibus, parece tudo caleidoscópico, e não sei por que bosta parei aqui. Vou caminhando, a rua fede como todo o Recife fede, há cachorros sarnentos por todos os lados, gatos fazendo amor e olha que ainda são oito da noite. Estou indo ao ponto de ônibus para espairecer, nem precisava sair, sabe?, mas queria, precisava de ar, de sexo até, mas ele não pode, ele não quer, se quisesse, como seria?, enquanto os pais velam no quarto ao lado?, que nada! sexo sem gemidos, sem gritos, quero apanhar e quero que me foda ao máximo, eu sempre digo isso, e ele vem com aquela conversinha mole de você gostou?, e eu, enquanto seu pau estiver lá, duro, sedento, querendo mais, pois eu também sempre quero, aí não rola problema.
Olha!, um carro preto parado, o motorista dentro, sinto-me convidada a fingir ser uma puta barata como a outra do caminhoneiro e entrar lá, fazer o serviço, cobrando é claro, talvez eu aprendesse a ler o Ulisses, talvez eu mesma me tornasse o Ulisses, veja a cara dele, sem imaginar que está trepando com uma intelectual, mas se eu lhe dissesse, ele diria preferia que você tivesse o tabaco maior, mais gordinho sabe?, você só tem ossos!, onde está sua bunda, hein?. E eu diria, pô!, podemos discutir Karl Marx, ele mandaria eu engordar uns quilos e eu aprenderia que o mundo não se resume a uma dialética de merda nem a minha anorexia. Mas eu não ficaria calada e sairia gritando que meu namorado diz que minha buceta é gostosa, sim ele diz quando me lambe, e diria que a Nicole Kidman tem bunda pequena também e vive cheia de grana por mostrá-la em filmes.
Deixo o cara em seu corcel lá, sozinho, sem comer ninguém, eu não teria coragem mesmo.
Lembra a brancura da garota do prédio vizinho, mas não é, aquela tinha sardas avermelhadas que me faziam parecer bailar entre estrelas flamejantes, rodopiando, rodopiando, caindo bêbadas no mar, eu caindo bêbado no. Essa, agora, apesar do cabelo ruivo, esquecera as sardas em algum lugar da barriga da mãe; as espinhas, entretanto, mostram que só agora a pouco saíra da adolescência; não reclamo porque ainda não me julgo ter saído. Sabe como é, não dá para viver dezoito anos recebendo gracejos que ainda se é criança e de um dia para o outro, especificamente 1º de abril, meu aniversário, acordar com cara adulta e sair pagando as contas de casa. Sou uma mentira, nunca tive existência para mim mesmo, nem metafísica, até porque nunca procurei saber o que realmente viria a ser metafísica, não posso ter algo, ser algo, que não sei bem o que é; se o Campos falou para desaparecerem com ela, não deve ser algo bom; deve fazer parte dessas condutas sociais pré-fabricadas, às quais devemos ser contra, como a qualquer lugar-comum. Meus pais, por exemplo, comuns, chatos, sempre prontos, atentos, cães de guarda, salva-vidas, pára-quedas e termômetros: sempre pagaram o plano de saúde em dia e minha vida parecia resolvida, até ontem - por que não atrasar em uma semana para me dar a grana para comprar chicle? isso eu perguntava quando, aos 5 anos, não entendia de porcaria alguma. Hoje, mesmo ainda não entendendo, sei que meu pai não me sorrirá numa explicação dramática e helênica que poderia tirar 50 centavos, que isso lhe faria falta, mas mesmo assim me daria, e me dava. Hoje não preciso de cinqüenta centavos nem de chicles; ela, ali, deve custar algumas latas de coca e umas doses de uísque, uma boa explicação porque precisarei do carro até depois das duas, das três: hoje, o homem em mim precisará mostrar-se mesmo nunca tendo, realmente, existido: não beberei para poder segurá-la ao colo, quando bêbada cair em meus braços, sei que não terei forças e cairemos os dois, pensarão que estamos fazendo amor em via pública e nos prenderão; não usarei aquela saia escocesa, talvez ela não goste desse visual mais-incomum-possivel. Precisarei ter dinheiro para fazer as unhas e limpeza de pele - lavar o carro de minha mãe parece ser uma boa, mas penso que amanhã terei de lavá-lo de todo jeito, se quero usá-lo hoje; ela se importará de ir a pé? a noite está apenas começando, falarei; mentirei que sou esportista, adoro caminhar e bater em ladrõezinhos que esperam na esquina escura da rua 32, seu sorriso crescerá pois saberá que é mentira, não sou forte, não valente, não alguém que possa mentir e tudo bem; saberá que não tenho dinheiro nem para a primeira rodada e rirá de minhas unhas imundas; se gostasse de homens imundos, namoraria o Pedro do terceiro andar. Por que uma garota que pode sair com qualquer cara, sairia comigo? somos materialmente distantes e dizem que sou gay por fazer as unhas; notei que ela não faz as unhas - disso não gosto, mas que se pode fazer? agora, sentindo-me realmente macho, não é mais uma transa onde eu poderia escolher garotas pela perversão de unhas bem feitas, grandes, arredondadas e coloridas; ela não tinha de ser meu reflexo, amor não conhece essas coisas de perfeição e higiene; ela era linda e me satisfazia sem que eu tivesse usufruído seus beijos, se bem que, no final das noites, normalmente, sempre fiquei só, sem usufruir nada; ao menos, dessa vez, posso usufruir uma náusea que chamam sentimento, paixão, se ela não me quiser por falta de grana, tudo bem, contarei da Rita, do 101; ela rirá mais uma vez, pois a Rita não tem cabelos ruivos nem olhos de um castanho vivo e sanguíneo, nem está apaixonada por mim, pois isso é mais uma mentira e de tanta mentira, ficarei sufocado em minhas palavras inférteis. Falarei a verdade, olha sou um cara pobre, mas legal, sei, sei, o Rodrigo da cobertura comprou um carro, claro que eu soube! ah, mesmo, o Otávio do 602 passou em medicina? legal, eu passei em crítica literária - é, acho que não dá tanto dinheiro quanto análise de sistemas, mas eu não sei lógica, caramba! eu sei que você já está no terceiro de direito, que bom, você sempre foi boa aluna, não é? não, não, eu fugia para o banheiro, sabe, contos pornôs eram meus favoritos; também sempre gostei de poesia, mas não espalha, dizem que é coisa de viado - é, eu faço as unhas, algo de errado? Essa coisa de falar a verdade é impensável quando a verdade parece nada exótica, é normal e bruta como pedra falsa antes de ser lapidada: minha vida não é nenhum diamante que eu possa pôr num colar e estender-lhe como convite; convidarei uma garota para sair quando não posso pagar-lhe um uísque? sim, talvez ela nem beba, mas isso não importa - só seu cabelo vermelho me custariam todos os dias de trabalho árduo. Desisto, porque muito me cansa isso de encontro, de ter de estar pronto, a serviço, de não ser mais eu: por que não posso ter mais perfumes que ela, nem chapinha para cabelo, nem serra de unha? Se na história da poesia, desde os trovadores até os modernos, sempre houve poetas e estes possuíam suas amadas-musas-deusas, por que serei eu o viado? Todos os outros poetas eram? Sei não, Neruda pareceu-me bem pack-man, naquele filme do carteiro...
Última atualização ( Sex, 22 de Maio de 2009 14:38 )
Vivo da realidade nauseabunda que me permitiram. Eu como carnes de minha própria chaga. A chaga da perna. A chaga do peito. A chaga do olho. Urino na perna para que o ácido sirva para romper o pus. Ainda não lambo o pus. Mas já me estapeio, com o vira-lata que me acompanha, por qualquer carniça que se possa chamar de comida. E visto trapos. Era de se imaginar.
Vivo da carne dos livros. Do cheiro de memória das bibliotecas. E do esquecimento dos fracos. Vivo da seiva dos poemas adubo de poemas e de mais poemas. De orquídeas por sobre outras árvores, vivendo em seu parasitismo vicioso. Orquídeas explodindo em cores violetas em tardes cinzas. E de todos os corvos que vêm à janela, à noite, nem sei para quê. Talvez leiam trechos quando o vento abre alguma página despreocupadamente de um livro qualquer deixado sobre a mesa.
Vivo de teu sorriso limpo. De teu gesto menino de tocar nos meus seios e avidamente sugá-los, como bebê. E vivo do que sugas. É meu prazer que sugas. E vivo dos teus olhos quando olho entre olhos e pernas, entre bocas. Vivo da tua mão espessa que tudo abarca, mas delicadamente separa cada fio de meus cabelos róseos e teces algo indecifrável, como tapeçaria já gasta. Vivo da tua morte anunciada, da partida cômica em uma noite chuvosa. Vivo das macas e dos holofotes.
Das palavras ocas que trocamos, vivo. Agora mais ainda: palavra calculada. Não mais olhas e esqueço. Vivo do pedacinho de espelho partido que restou embaixo da cômoda. Do mofo restante em prateleiras vazias. Vivo do silêncio de quem desaprendeu o toque das palavras. Eu apenas vivo das horas.
Última atualização ( Ter, 12 de Maio de 2009 21:44 )
Meu cabelo está servindo para arear panelas e perco um ônibus. Deixo outro passar, pois nesse eu precisaria descer na universidade e, sinceramente, não estou com saco algum de ver aquelas caras enjoadas, ou talvez a enjoada seja eu, mas no fim o que importa é que não quero ver ninguém conhecido, mesmo. Depois de vinte minutos, embarco finalmente e todo mundo do ônibus me cerca com os olhos, devem pensar que só mesmo uma louca para sair com o cabelo assim. E estão certos. A chuva que estava forte passa e me arrependo de ter trazido comigo a minha sombrinha, azul e excêntrica como eu, grande e pesada, mais cassetete que guarda-chuva. Mas como vou à Praça do Derby, pode ser útil. Sento-me ao lado de um senhor de bigode simpático e esqueço-me um pouco olhando pela janela. Crise de ausência. Normal. Crise esta interrompida quando o senhor vai embora e se senta em seu lugar uma mulher de perfume doce, fortemente doce, enjoado e, claro, barato, possivelmente comprado no Hiper. Nos entreolhamos sérias e me lembrei que meu cabelo não estava me dando moral necessária para reclamar do visual de ninguém. Minha rinite me lembrou que existia, mas como já estava perto de onde eu desceria resolvi não trocar de lugar.
Desço no Viaduto da Caxangá e espero mais uns dez minutos pelo outro ônibus. Como este vem da universidade, entro rezando para que não haja ninguém conhecido. Alívio. Há um lugar na sombra, mas ao lado está sentado um babaca que, não sei ao certo, ou está me paquerando ou se dizendo "nossa! Que cabelo horrível", hoje em dia ninguém sabe, né? Mas o fato é que decido sentar do outro lado, junto a um moço que tem uma cara séria de "minha namorada me mata se eu olhar do lado". Sento e, nas paradas seguintes, o ônibus não tarda a encher. Uma mulher gorda se coloca a meu lado, tapando qualquer possibilidade de ar, começo a suar horrores e são nessas horas que descobrimos que a propaganda do desodorante 24h era enganosa. O moço-de-namorada-ciumenta toma toda janela para si. Acho que vou morrer. Finalmente meu destino chega e desço uma parada antes do Hospital Português, vou à Rua Viscondessa do Livramento validar na sede do plano de saúde o exame que farei logo mais. Passo uns quinze minutos e acho que vou me atrasar para o exame. Saio, então, à toda velocidade, para o consultório. Corto caminho pelo pátio de um restaurante chique e, creio, o segurança fica me olhando, sério: com meu cabelo no estado em que está, realmente não é difícil me tomar por uma trombadinha. Chego à Praça do Derby e pergunto a um motorista de táxi onde fica o bar que me deram como referência para achar a clínica; ele responde, amigavelmente: ali, onde está aquela placa "Pitú". Ok. Mesmo que o signo Pitú não signifique nada para mim, era difícil não ver.
Chego ao local do exame e descubro que a hora marcada era conversa fiada! Nada de 3h05 como "meu horário". Era a partir das 3h05 para chegar, e já há um monte de pessoas-com-cabelo-de-arear-panelas na minha frente! Acho que vou matar a atendente. Mas prefiro ir ao Shopping Boa Vista, comer esfirra. Pego mais um ônibus e vou à Conde da Boa Vista, desço no Shopping e subo ao segundo andar, para o Banco do Brasil. As filas estão enormes e, quando estou quase chegando ao caixa, acabam-se as notas de R$10 e R$ 5! Puta que pariu. Vou para a outra fila, mais tempo em pé, mais cansaço, mais gente me olhando desconfiada, sem eu saber o porquê. Saio do banco e vou à praça de alimentação. Vou ao pastel. Peço de bacon com catupiry. Ao comer, percebo o quanto realmente estou louca: não gosto de catupiry nem de bacon. E eu fora ao shopping comer esfirra. E fui ao banco porque a lanchonete que vende esfirra não aceita débito automático. E lembro que as pessoas devem estar me olhando por conta do meu cabelo em pé, lógico. Estou com vontade de me internar. Desço as escadas rolantes que me dão um pouco de tontura e pego outro ônibus de volta ao consultório. Um cara esquisito fica me encarando e quando desço fica soltando gracinha (tive a "sorte" de o ônibus parar no engarrafamento, perto de faixa onde eu ia atravessar).
São quase 5h e agora o consultório está menos cheio e sei, pela atendente, que serei a próxima a entrar na sala da médica. Sento e uma menina começa a ler sobre Nietzsche a meu lado, quando nota que eu olhava a capa do livro, faz uma cara de intelectual e me olha com ar de superioridade. Ela deve ter 17 anos. Ela deveria ler Capricho. Mesmo. Sou chamada para o exame e a médica faz algumas perguntas. Menti em todas, não sei o porquê, mas menti, eu queria mesmo dizer a verdade, mas outras verdades saíam, e fiquei me perguntando o que era realidade naquilo tudo. Faço o exame e fico completamente tonta. O mundo gira e deixo de sentir minhas mãos e pés. A médica pede para eu sentar um pouco na maca, respirar fundo e, principalmente, para eu ter cuidado ao descer as escadas - escadas em caracol, diga-se de passagem.
Saio com o cabelo pior do que entrei: além de crespo, assanhado, grosso, sem cheirinho gostoso de creme de pentear, está com uma gosma branca, que endurece e fica caindo que nem caspa, está mais assanhado porque deitei na maca, está terrível, enfim. Vou embora, e decido pegar um ônibus apenas para casa: pode-se dizer que eu daria uma volta completa por toda zona sul do Recife. Outro ônibus lotado, de pessoas suadas, que se espremem, se apertam, se roçam. Boa Viagem que de boa não tem nada. O cara do amendoim, o cara da pipoca, o cara da pastilha, os muleques que entraram pela porta traseira para o desespero do motorista, as senhoras, os pais-de-família, os solteiros, as meninas do colégio estadual, as empregadas do shopping, todos, todos, todos, rindo do meu cabelo. E eu, nem aí.
Eu lhe digo que a capa do livro é uma grande vagina aberta, deixando-nos ver a força e a fragilidade de uma vulva em flores. Mas ele diz que não, que preciso de terapia. Deste pasto, não quero mais, foi o que tentei explicar, mas isso parece que lhe deixou mais preocupado, fazendo-lhe engolir um pouco de saliva e seus olhos não saiam de cima de mim, como dois padres, não, dois papas a me excomungarem e eu ficando nua, meu sexo também exposto e seios intumescidos pelo frio. Foi nesse instante que gritei pára!, e me tranquei no quarto, deixando-me cair sentada atrás da porta, como fazem as atrizes hollywoodianas, mas isto é a vida real, era o que ele diria e mesmo calado ressoou sua voz grossa em minha mente e me pus a chorar. Porque sim, isto é sim trágico. Um caleidoscópio, tipo de LSD, mas estou limpa hoje e ele sabe, mesmo assim bate na porta, pergunta se estou limpa, cê jogou minha última caixa de calmantes e não tem nada a ver com isso, é outra coisa. Ele não enxerga o outro lado que sempre há, inflamado, exigente, viscoso e ponho a me tremer e babar como um cachorro, mas estou só, ele está do outro lado da porta e não pode impedir que minha cabeça bata uma vez contra porta, ele escuta e se preocupa, eu sei, mesmo que eu não ouça e não sinta nada agora, sei que ele escuta do outro lado e grita qualquer coisa como amor, calma!, porém nunca estive tão calma, você que não vê que tudo me é vão, e vou ficando miudinha, miudinha, quase passo pela brecha da porta, quando acordo tossindo quase engasgada pela saliva que corre e levanto numa tontura daquele chão frio e abro a porta como se o quarto fosse uma sala tão apertada e me acometesse uma claustrofobia como a que nos acomete quando completamos nove meses e queremos sair a todo custo de um útero fétido, frio e pegajoso que nos acolheu, porém crescemos demais e queremos outros horizontes e depois teremos até que enterrar aquela carne da qual já fizemos parte e achamos tudo isso muito normal, até flores mortas de pessoas que você nem conhece temos que aturar, e servir um cafezinho, como se tudo fosse um samba, um samba de crioulo doido como diriam meus parentes descendentes de portugueses fracassados. Eu abro a porta, ele e os dois papas em seus olhos ainda estão lá, ao menos, agora, confusos, e não tão mais incisivos e gigantes e de pênis sempre excitados. Estão murchos agora, como caramujos doentes. Ele me abraça e diz que está tudo bem, e canta alguma canção dessas idiotas que falam de amor incondicional e eterno, sei que tudo isso é com carinho, que ele me quer ver bem, mas isso me deixa mais entediada, o amor não é assim capitalista, ainda ouso dizer, ao que ele retruca all I ever wanted, all I ever needed is here in my arms, words are very unnecessary They can only do harm, eu lhe digo que gosto dessa música, embora devamos falar e enxotar essa lama que o silêncio cria, atolando nossos pés, pernas, daqui a pouco chegando à cabeça e você morrerá mudo, eu me perguntei como consegui articular tal idéia se tudo era tão confuso, ele até concordou e me levou até a cama, onde se pôs a me ninar e eu voltei a dormir, sonhando com a grande vulva que consumirá a todos nós, vacas e bois nesse pasto de meu deus.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 18:30 )
Não me venha com esse papo de boa moça. Não ajudo mais idosos atravessarem a rua porque a última levantou a bolsa para me bater, alegando que podia se virar sozinha. Foi, ela disse assim mesmo, que se "vira". Vai entender esse mundo... Nem mulheres grávidas desde que tenha C-E-R-T-E-Z-A de seu estado: certa vez fui ceder meu lugar na fila e a jovem não estava grávida de 7 ou 8 meses de gêmeos. Era a sua barriga mesmo.
Não, não e não. Eu não sentarei de pernas cruzadas, afinal melhor lugar não existe: repouso a taça de champanhe entre minhas pernas e os machos me olham. Solto uma gargalhada escandalosa para a surpresa da minha amiguinha fofuxa que está do outro lado do salão, vermelha, fingindo não me conhecer. Quando fomos apresentadas, ela estendeu o tapete vermelho para mim, só para pisar um pouquinho nele ao meu lado e receber uns cliques. Claro que todas as lentes me procuravam e flashes faziam resplandecer mais meu sorriso branco de comercial de pasta de dente. Ela nunca imaginaria que a fama de aluna exemplar - aquela que consegue dez em todas as disciplinas, inclusive com o professor que dá aula de português sem saber português ("As meninos vai" ainda ecoa em minha mente) - seria de uma porra-louca como eu.
Isso é o que dá assistir muito a sessão da tarde, garotinha. Eu diria, se ela me pedisse um conselho. Cê fica assistindo a esses filmes, nos quais as melhores alunas são tímidas, mal vestidas e não dão pra ninguém e esperava que eu fosse assim? Faz-me rir. Nada de suéter: um jeans surrado para o dia e um micro vestido preto à noite. Não é tudo? Ah, cê não sabe andar de salto? Que pena. Quanto aos homens... olha, é sério, não se aprende a lidar com eles. Isto se nasce sabendo. E nem vá pensando que tem a ver com beleza: é claro que, ao chegarem à festa, olharão para a bunda maior que aparecer. Mas, para quê? Para eles darem um chute nela no dia seguinte ou até outra maior aparecer? Escute um conselho, embora não sirva para quem nasceu sem pegada, use sua bunda, seus peitos, sua barriga... e seu cérebro. Não, querida. Não digo apenas para fazer de cabeça o cálculo do barzinho antes que o garçom traga a conta sequer para fazer cara de conteúdo enquanto ele e os amigos discutem economia ou futebol, falo para criar artimanhas de sedução, pois se há uma coisa que um homem gosta é de ser surpreendido. Ai, não me diga que você tenta artimanhas da novela das 7?!
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.
Olha, é sério, não farei cara de quem concorda quando alguém soltar uma idiotice em meio à aula. Coloco meus óculos escuros e faço cara de paisagem mesmo, na boa, sem ressentimentos. E mais, levarei minhas idiotices até o fim, até que todos as aceitem, não que eu tenha a retórica de um advogado, mas o farei, assim, decidida. Alguns dirão que sou inflamável, outros autêntica, e outros metida. Já tanto faz. Não ligo nem um pouco! Há tempos decidi ser out. Um ser extra-planar caótico e neutro. Nego-me a tratar de assuntos acadêmicos em meios não-acadêmicos. Quero apenas falar da vida.
E viver. Rindo. Com uma dose de vodca. Um fora meticulosamente elaborado. Alguns raros amigos. Um pretinho básico. E sem você.
A noite está quente. Faz-me lembrar coisas. Uma desesperança cai, cerca-me. Recordo. Mão grossa, pêlos inúmeros, teu sexo a me pressentir a presença. Talvez, se pudesse escrever tudo, se palavras não fossem frágeis e obscuras, me sentiria mais leve ou menos tesa. Se não possuíssem outro lado, onde quem as lê pode rabiscar o contrário... Se pudesse escrever o que sinto sem entraves, ao menos me compreenderias. Se eu fosse escritora...
Mas não. Sou apenas um lápis e um papel vazio. Uma boca com gosto de ressaca. Talvez nem lembres, talvez puseste um quadro barato no local em que deixei pichada tua parede. Chegaste a notar? É, parece que em cada verbo de amor investido, escreveste no verso uma palavra de adeus. E olha que nem és escritor.
Apenas um papel vazio. Solto as folhas ao vento, queria pôr nelas toda ganância de meu ventre, todos os gemidos adormecidos à espera de ao menos um dedo teu deslizar sobre minha pele, sentindo pouco a pouco sua textura. Se pudesse garantir uma efêmera eternidade ao passado, em um caderno qualquer jogado em meu velho baú, poderia me sentir liberta, sem o peso do desejo, sem esse pecado latente impregnado em meus seios. Eles te chamam ainda. Gritam. Deixam um eco e, se atrevo a me entorpecer noutros vinhos, este vem mais sangüíneo, mais visceral. Como uma cimitarra, fere-me do coração à pele.
O papel branco contrasta com a noite. Recordo a música, as mãos; as luzes, os olhos. Teus lábios sedentos, quentes, eu desejando esfriá-los em minha saliva! O recinto cheirava a sexo, nossos corpos pediam, outros casais saíam - escandalosos ou em silêncio - para o sexo. A noite, o amor e o sexo. O amor meu. O que era teu? Talvez uma passagem, um desejo insano. Eu uma porta, pela qual entraste e saíste - entravas e saías, a música, o compasso. Teus olhos fechados, os meus abertos. Em que pensavas? O que sentias, além de minhas unhas encravadas em teu pescoço? Senti o tudo e o nada: tua carne trêmula, por dentro, por cima. Teu suor em excesso, meus cheiros em excesso. O gemido, uma lágrima. O compasso. O sexo. O que sentias, além de minhas formas dançando, embora teu corpo pesasse sobre mim? O compasso de meus quadris - tuas mãos enérgicas, sóbrias, reclamavam trono, minhas carnes.
Mais uma dose de uísque. Duplo, para sanar a ressaca. Acabou o gelo. Apago a luz para aliviar a tensão nos olhos, para me entregar sem receios à noite. Se tivesse o receio de entregar-me a ti, talvez a noite agora não fosse tão longínqua como uma decotada carrasca. Mas apenas talvez. Não saberia que o amor é palpável, tangível como minhas pernas que prendiam tua matéria à minha. Apenas outro talvez. Quero, agora, concentrar-me no ardor do uísque sem gelo, no entorpecer de cada músculo - sinto minhas pernas sucumbirem ao álcool, não conseguirei levantar deste chão, chegar à cama. Sinto minhas mãos dormentes, o tato inerte. Conseguirei extrair prazer de meu sexo numa forçada tentativa de sonhar que é tu que me tocas?
Alcanço a rede da varanda. Deito-me nua e a brisa marítima arrepia-me. De uma só vez, bebo o que resta no copo. Tento não pensar em nada, a brisa me abraça e por um momento sinto-me voar, dançar com ela... Pequenas nuvens agrupam-se, formando um corpo ao mesmo tempo etéreo e tangível, ele tem tua forma, tua cor morena. Sinto até teu perfume e posso ver no fundo de teus castanhos olhos, meu reflexo. Tu me tomas pela cintura, me pões nos braços e me trazes de volta à rede. Nela, começa tudo outra vez.
Desperto. Meus próprios dedos me penetram e consigo até sentir prazer. Mas o teu sexo não lateja quente, ainda vibrante, como quando deixaste em mim resíduos de tua vida. Não, nada recomeçou. Repudio os meus dedos que violentaram meu sonho. O meu sexo, arrependido, torna a secar, querendo fechar seus caminhos a qualquer possibilidade a ti estranha.
Numa tontura, vomito o uísque e a culpa. Tento não pensar em nada e sentir a brisa. No entanto, recordo a música que nos uniu nossos corpos; as tuas mãos que me apertavam contra teu corpo; as luzes frenéticas, oscilantes, a sensualidade de tocar sem ver. E teus olhos, dois pontos incandescentes, inebriantes. Volto a sentir teus lábios sedentos, próximos aos meus, maculando meu hálito. Não, não me beijaste. Me seduzias com teu hálito que acariciava minha boca; eu a entreabria, mordia-lhe em tentativas fracassadas de não ceder ao desejo. Fracasso. Entreguei meus lábios, devorei os teus. O recinto cheirava a sexo... O amor meu. O que era teu? Talvez um desejo, um divertimento. Eu uma, duas, três portas, e entravas e saías, e entravas, saías, o ritmo, o suor - a gota rolando de tua testa, caindo em meu colo, resfriando alguns poros de meus seios. Teus olhos abertos, os meus cerrados. Em que eu pensava? O que eu sentia, além do atrito de minhas unhas em tua carne, deixando um caminho avermelhado em teu pescoço? Senti o tudo e o nada: nossos tremores, por dentro, por baixo, por cima. Nossos suores, mais atritos, os cheiros, o excesso. Nossos gemidos, minhas lágrimas. O sexo. O espaço todo em minha mente; o universo naquela cama. O que senti, além de teu corpo mais se impor com o dançar de minhas ancas?
Senti o tudo e o nada. Equilíbrio.
Agora só a ressaca. Agora, o vômito. Agora, nada.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:23 )
É tempo de se desvencilhar da casca: a pele antiga cai e eu sigo.
Não quero pensar muito e sentir saudades. Quero ser sincera comigo e deixar muito de mim para trás. A começar pelas pessoas que eu tanto fui - ou nem tanto - sem que elas me tenham sido: amigos, conhecidos e sombras. De tudo que eu era, vestígio algum se percebe. E tudo que agora sou, me transborda.
Até palavras, deixadas na mesinha de cabeceira, esvaíram-se pelo quintal quando abri a janela do quarto. Não as persegui. Vi cada uma desmanchar-se na lama e me senti mais leve.
É hora de se perceber livre: um vazio incomensurável sempre crescente. É hora de sentir um novo frio na barriga, um medo inominável do que há porvir. Não quero mais amarras tolas ou destinos há muito traçados. Embora o sol de sempre se anuncie, a manhã ficou mais minha e eu me senti melhor. E olha que nem precisei me tornar legal.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 18:59 )
a Kirlian Vellarins, a mão que protege
Ela, na rede.
Entrei tentando desviar o olhar enquanto vinham-me à boca apenas cantadas baratas, dessas de esquinas. Mas ela não era garota de esquinas: não me esperava com a face temerosa - seu acaso eu não viesse, ela continuaria calma, sabia de seu poder, de meu frenesi. A sala vazia pesava como seus olhos vazios pesaram, no dia em que nos conhecemos. Vazio: a fonte do mistério, como meu violão que, vazio, faz ecoar em mim o que sou, o que tenho - deveria cantar-lhe uma canção triste e bela, como seu sorriso. Ela não era de esquinas: curvas perfeitas moldavam a rede, seu peso deveria ser de plumas... ela, a pluma.
Conheci-a na noite. Pluma Negra de sangre vermelho, de vinho entornado na calçada, de pernas lisas e brancas à venda. Ela, o vento curvo, o tempo curvo fazendo-me curvar sobre minha carapaça. Eu, a mão noctâmbula, inerte, água de represa. Suas ancas bailavam, plumas hipnotizantes, o corte de seu vestido deixando ver suas formas suaves e tensas, tesas. Epifania. A reconheci de imediato: o amor nunca trafegado saltara a meus olhos; o destino nunca crido fizera ondulações, mostrara-se ali num canto de olho borrado... O suor, nossas maquilagens cederam, seus olhos negros, mais negros pelo lápis que os retocava, os excedia.
Um toque no ombro. Sua amiga acordara-me das lembranças do sábado anterior. Voltei à sala vazia, de onde até então apenas vislumbrava aquelas formas, pele proposta a ser mola da transcendência. Minhas mãos ao tocá-la, ao tecê-la, ao senti-la, tornaram-se almas fugidias, de cor sem reflexo, de textura sem peso. O afago guarda horizontes inapreensíveis aos que o vêem. Quem o sente, entretanto, desiste da morbidez sem nexo, sem tato. O véu do tédio cobria-nos, decerto, contudo nossas mãos minuciosas, precisas, mãos de anjos, descobriam nossos corpos à meia luz de um sábado. E olha que não era raro mãos cederem a nossas entregas sem jeito, sem grado, sem balança: por vezes o afago é gratuito, desatento, corpóreo num tom extremo, tão externo, sem gosto de algodão-doce que nossa alma tem. Isso! Era preciso ir a seu ouvido e dizer isso. Ela, na rede, dormia. A varanda, o vento intenso, a respiração compassada de um ser tão fragilmente revelado, entregue ao mundo. Eram minhas mãos necessárias à sua proteção, era preciso pô-la entre meus dedos, aconchegando suas formas exatas, aquecendo seu tecido vivo! Sim, ela nua entre minhas mãos.
Por enquanto era na rede, coberta, que velava. Aproximei-me e não pude conter minhas mãos que se embrearam entre seus cabelos de seda feitos, cada cacho sendo um complexo de raízes profundas numa nuca-mundo. Acordaram seus olhos, duas rosas castanhas despertas, nascendo para mim naquele sorriso incerto, imergindo em mim. É preciso mesmo protegê-la? Dela, nada me protege. Eu aberto, recebendo aquele olhar triste e belo, aquele sorriso triste e belo. O peso de sua vida acomodando-se em meu ombro, eu recebendo a pluma. Nossas mãos entrelaçaram-se, nossas bocas se acasalaram febrilmente. O sábado passado estava prolongado, predestinado a um eterno afago. Nós, não mais homem e mulher; nós, não mais nós como antes. Nós, o agora. Nós, o momento despido de sua efemeridade.
Ela, da rede, enquanto escrevo, me sorri tristemente.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:23 )
Era um pedido atrasado. Perdão. A menina de 17 anos morreu. Eu quis dizer isso, eufemicamente, tentei, mas o príncipe se jogava aos meus pés, surdo. Por um momento, só por um, tive pena e me odiei. Pena é um sentimento fraco e injusto. Impuro. No momento seguinte, quis levantar aquele corpo caído, beijá-lo, lavar seus pés, tratar suas feridas, entretanto seria irreal, apenas um fantasma. Ou uma marionete. E até quis ser um títere. Mas este é apenas um burguês que entra pela porta da cozinha, recitei pra mim mesma.
E o príncipe, agora curvado aos meus pés, não conseguia encarar meu rosto de tantas cicatrizes, meu cabelo crespo, minha pele suja de carvão, meus dedos calejados e unhas roídas. É, era eu. Outro eu, meio dissipado, vertiginoso. Ele não sabia da morte da menina, que pena. Teria chorado por todos esses anos? Quem sabe, nem ele.
O fato é que esse príncipe queria lhe pedir perdão, por não lhe ter feito princesa há oito anos. Que pena! Ela morrera dias depois, depois do natal, em prantos. Fazer o quê? Meninas morrem e não apenas velhas verruguentas como eu, meu bem. Quando não são maçãs envenenadas, quando não são vinhos alterados ou feitiço de madrinha mal amada, são a indiferença e a covardia do príncipe, que preferiu ficar em seu castelinho de cristal, casar-se com a filha de um rei distante a se aventurar contra um dragão para casar-se com a plebéia de pele alva como algodão.
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Tragicômico! Mais não poderia ser, meu amor. Daqui me vejo plenamente mulher, aos 25, e talvez aos 40, ao olhar para trás, eu pense: como eu era infantil! Aos 17, nos pensamos mulheres firmes da mesma forma. Até mais. Pensamos que nosso ventre há pouco iniciado nos caminhos do prazer sabe muito, mas eram apenas as primeiras trepadas e não entendíamos isso muito bem, não havia "caído a ficha", como dizem por aqui. Aos 17, o amor é tão frutífero: sonhamos, até nos vemos entrando de branco numa igreja se o cavalheiro assim desejar, porque é nessa época que pensamos que podemos e precisamos fazer o desejo do outro. Depois tudo se torna um "foda-se" de alta categoria. Entende? Nem queira. É mais bonito assim mesmo: um quadro, com uma jovem ao centro, segurando sua cestinha de flores celestes, numa manhã celeste e nada mais.
Aos 25, tudo, apesar de menos colorido, é mais palpável. Você pode até jogar seu marido fora, não vai sofrer, não mesmo. Mas você não joga. É incrível. E fica assim, com uma gastrite absurda e uma paixão que nem queima nem apaga, entretanto você tem certeza e gosta disso. Não há mais aquela coisa de "ó, meu menino", e você não olha com os olhinhos brilhando com lágrimas determinadas a transbordar porque seu menino preferiu outra. Não mais. Você e ele, na verdade, têm tantas contas em conjunto, tantos papéis, tantos cd´s e lençóis que parece que nenhuma matemática resolverá justamente a divisão de bens. E olha que você e ele nem compraram o apartamento ainda. É foda, ou não. Afinal, depois que se casa, ele sempre pensa que pode deixar para amanhã.
Só que aos 25 também você não tem mais vergonha de admitir que bateu uma siririca, hahahahaha, bate mesmo e até pensa no gostosão da novela que você acompanha pelos comerciais e pelos comentários de seus amigos. Porque sentar para assistir, nunca. Você tem coisa melhor para fazer, como falar mal do mundo todo com sua amiga. Não, não por telefone, isso já era. Agora, o negócio é MSN. Você tem até uma coleção de carinhas divertidas, para demonstrar todas suas emoções. São tantas, que, às vezes, você fica em dúvida que "beijo" mandar para se despedir.
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O príncipe se vai a cavalo. Fará o mesmo caminho que percorreu há 8 anos, dessa vez até mais tristemente sincero. Sua estória com a menina fora muito triste, e sempre a conto às jovens de agora. Precisamos aprender com os enganos alheios; ouvir para depois falar; ter nas mãos para depois sonhar com. Ela era apenas uma jovem que, como as jovens de hoje, preocupava-se em se perfumar à noite, e ficar à janela, à vista dos rapazes. E ele para ela sorriu. Para que, perguntou-se ela depois. Mas no exato do momento do sorriso, isso não importava. O que valia é o brilho que escorre da lua até os olhos dele, assim, resplandecentes.
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("Ontem à noite, eu conheci uma guria, já era tarde, era quase dia, era o princípio do precipício, era o meu corpo que caia. Ontem à noite, a noite estava fria, tudo queimava, nada aquecia, ela apareceu, parecia tão sozinha, e parecia ser tão minha aquela solidão.")
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E conversas se arrastaram por noites. Promessas ditas. Palavras de amor semeadas, sussurros de paixão eterna. A pobre cortesã sabia-lhe comprometido, contudo nada poderia ser maior que o compromisso que eles se juravam ali, nas mãos que se tocavam infantilmente quando outros não olhavam; nas frases de duplo sentido, que os outros não acompanhavam; em um único beijo, que lhe pareceu eterno, que, se estivesse viva, sentiria a doçura ainda.
O príncipe chegou a romper o compromisso com a princesa de terras distantes. O coração da nossa pequena plebéia acreditou em contos de fada. Pobre moça. Ele se arrependeria dessa decisão. Reatou os compromissos oficiais, afinal nobres se casam com nobres. E nossa menina chorou. Murchou. Palavra alguma a traria de volta. Assim, ela morreu.
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(Ele disse:
- Nossa música será: "És parte ainda do que me faz forte, pra ser sincero só um pouquinho infeliz."
No que ela respondeu:
- Não mesmo. Será: "Sei que ela terminou, o que eu não comecei!"
E o telefone:
- Tum, Tum, Tum...)
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Se você joga seu marido pela janela, terá uma lista enorme de otários, veados enrustidos e de amigas lésbicas para lhe fazer gozar. Mas você não quer, não mesmo. Você gosta quando ele finalmente chega, até fica com medo quando ele demora mais de dez minutos da hora de sempre. Começa pensando se ele não estará com outra (inclusive sempre cheira a camisa dele, para se certificar que não há outro perfume), em seguida pensa se ele não foi vítima de um assassinato cruel em plena avenida movimentada e os bandidos se jogaram no rio mais próximo, com os policiais atirando e ferindo outros cidadãos que iam passando. Você se assusta com sua imaginação e até chora desesperadamente quando essa espera passa dos vinte minutos e, coincidentemente, passa na TV, em primeira mão, uma notícia bombástica de um assassinato em uma avenida. Ainda não sabem o nome da vítima.
Seu marido finalmente chega e você pula em seu pescoço. Abraça-o. Sente que não há outro cheiro na camisa senão o dele. Percebe que ele está vivo, apenas cansado. Ele pergunta o porquê das lágrimas e você diz, sinceramente, que o ama. Desse ângulo, você percebe que não mudou muito desde os 17.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:17 )
a Karine, pela infelicidade
de não termos nos conhecido na adolescência.
Desejava, quando não lhe era palpável. Traz sempre quatro adagas nos olhos, mas nem sabe atar os cadarços do tênis (que não usa). Deixara de usar ainda quando era uma "mocinha" - disso não quer saber mais; não porque já soe longínquo, é que fora uma dessas mocinhas sem jeito algum de mocinha, para o desespero de sua mãe. Fora desengonçada mesmo, e hoje faz tudo para esquecer-se desse tempo: rasga fotos, rasgou roupas, quisera rasgar a garganta de um primo que tem a recordação como passatempo. Nada como a maturidade! Pensa e relaxa, ajeitando-se na cadeira de um café (ao escrever "ajeitando", recordo de uma certa vez que minha tia carioca viera a Pernambuco. Eu disse: vou ajeitar o quarto. Ela: não se diz "ajeitar", diz-se "arrumar". Usei minhas adagas - sei atar meus cadarços! - falei: não vou dar "rumo" a meu quarto, visto que, infelizmente, este nunca se moveu...). Ajeitada ou arrumada, melhor: acomodada, a jovem com seus vinte e poucos anos e alguns dias não mais vê seu namorado como um ursinho de pelúcia; e se assusta. Um dia, não pensarei mais nessas coisas de não saber o que fazer com minha vida, porque haverá um quadro pós-moderno instalado na sala de jantar. Esse pensamento a consola e, por um instante, saboreia seu pudim sem se interessar pela morte do Papa. Milhões de pessoas fizeram de Roma um formigueiro; outras milhões, menos avisadas, morrem de fome. Não que se importe com estas ou aquelas, cansara de ser a boazinha que nunca fora e, diferentemente de Campos, tenta despir o dominó errado antes que seja tarde.
Desejava quando estava perto, parecendo longe. Desculpe. Esse pedido a trouxe de volta, mundo real: um belo moço, de cabelos num tom acastanhado tão puro e sincero (desejou sentir o roçar daqueles fios de espessura inexpressível, entre seus dedos; de tão finos, serviriam como lâmina e os cortariam de leve, sem dor; o prazer lhe envolveria vendo seu sangue manchar a pureza cálida daquele jovem. Pensou naquele rosto, de formas tão sutis, transformar-se com expressões tesas) tropeçara, derramando café em seu colo - o líquido ofegante transpassa a barreira do jeans, o mundo parece desabar e suas ancas o sentem como se fossem desabar também. Calma - pensa. Calma é o que lhe aconselharia uma amiga que só sabe aconselhar-lhe "Calma". Mas o que aquela mimada sabe da vida? Chega a resmungar para o espanto do jovem acastanhado, à espera de um "desculpado". Ao contrário, ela quer brigar, pois sabe: briga sempre acaba em cama - deveriam trocar insultos, depois gritos, depois se atracariam e, inevitavelmente, passado o balburdio, ele pediria o número de seu celular e tudo feito. Ao levantar-se, pronta para acusá-lo de irresponsável e de gay (para excitá-lo a provar a masculinidade depois), lembra que seu namorado não é aquele velho ursinho, caolho e com algumas costuras para não fugir o enchimento. Desculpado.
E, não é que desejava por não saber bem o que era?! A realidade parece mais ficcional que o mundo, por nós, inventado. Eu deveria ser escritora, delimitar meu espaço perfeito e alocar-me nele até quando, um dia, minha vida transformar-se um livro. Não a julguem covarde, não é - optar pelo não-lugar é heróico, mas não a construirei como princesa élfica da terra média, pois ela não gosta. Seu não-lugar é outro, mais nórdico, mais vivo e sangüíneo. Sensual, até. Sensual sim, pois enquanto pensa em seu lugar (eu já aluguei o meu), o rapaz do café não pára de sorrir-lhe, convidando-lhe a sentar-se junto a ele; ela simplesmente não vê, nem aceitaria - realmente Arthur está onipresente hoje. Se cometesse o suicídio, levaria para a eternidade aquele olhar verde que tudo vê, tudo pode, tudo confina; se suportá-lo hoje parece insuportável, o que me diz eternamente?! Não, jamais.
(Sentiu, na ponta do indicador, cubículos de açúcar; em movimentos circulares, faz deslizar seus dedos por sobre a mesa. Tenta não desperdiçar nenhum toque. É preciso esquentar, derreter, a glicose penetrará por meus poros, far-me-á livre pois libertarei, em cada dose, sentimentos reprimidos por desejos inexatos... A calda do pudim parece-lhe um mar doce, cujas ondas lhe presenteiam com o paraíso perpétuo dos escolhidos. Irei pro céu? Não, não irás porque sempre foste uma menina má, sempre doaste teus tênis apenas para não usá-los. Agora sou mulher! Grita a si mesma, repreendendo sua voz para que esta não se abrigue em outros ouvidos. Sou mulher e tenho braços que me abraçam tão generosos, tão confortáveis, quentes... Que importa? A estrada importa por cada curva atravessada, e a cada curva ultrapassada, haveremos de deixar para trás braços, pernas, sexos e olhos. Lábios se desenharão no céu num toque de adeus arrependido, mas real; porque quem quis ficar não foi, mesmo vendo a imagem do outro dissipar-se com a neblina. E é tão irônico o sol nascer tão rápido. O Amor é tão exato quando nasce - estátua grega de bronze -, mas, bárbaros que somos, alienamos a forma: transformamos corpos em armas e nos ferimos).
Desejava? O colorido perde o poder sedutor ao descobrirmos a superficialidade que o cerca. O amor perde sua altivez no balanço de tantos pormenores. A pele já parara de arder; a auto-hipnose, com circulares passeios de seus dedos sobre açúcares, extinguia-se de leve - anestesia. Olha agora para o pobre rapaz que já cansou de acenar-lhe, retorcer-se, contorcer-se na mesa para chamar-lhe a atenção. Sente medo porque não se vê mais sua; perdi meu espaço? Não sente forças para ir àquela mesa, àquele rapaz, ficar mais um pouco, beijar-lhe o lábio tão pêssego que deve ser. Agora não mais acomodada - atada. Agora percebe que nem mais o não-lugar é seu - fora desapropriado. Está no nome de Arthur agora? No nome do Amor? Seu alfabeto fora reordenado e só agora se dera conta. Quis voltar a ser a "mocinha" que não fora, beijar o dobro de rapazes que beijou, encontrar-se (perder-se para o moralismo ainda em voga) pelo menos cinco anos antes, beber mais para não se lembrar de nada, assim não remoer o passado. Suas mãos tomaram força sobre a mesa para dar impulso ao resto do corpo; tentou respirar mais leve, corrigir a postura e tomar a iniciativa. Sua mente visualizava a quebra das correntes imaginárias que lhe prendiam; o abrir dos cadeados; o ruflar das asas que desaprenderam, tão rapidamente, a voar...
Incrível. Parou de desejar.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:13 )
De súbito, levanto. Uma tontura acomete-me e quase esmoreço entre cores perturbadoras; aquelas cujo teor faz, de nossa coerência, surgir orquídeas espinhosas, um tanto sagazes e de orgulho próprio. Respiro, contenho-me. Ao meu lado, ele dorme; inocente, sem pensamentos fugidios que permanecem noite adentro. A cama estreita faz com que ultrapassemos nossas fronteiras, e o espaço de ambos se condensa em um só; até a morte, deste ângulo, parece vir como evento único, sem chances para que reergamos nossas muralhas ou cavemos nosso fosso. Mas ele, exausto como quem passeou por todo o subúrbio de seu próprio ser, dorme e não sabe. Eu, entretida com estas estrelas persistentes que só se desmancham no alvorecer, finjo saber, ou - e é mais correto pensar assim - pressinto o oculto.
"Os amantes, se soubessem como, diriam coisas estranhas/ no ar noturno. Pois parece que tudo se/ esconde de nós." Entendo bem - nessas horas estranhas, de energias caóticas e incandescentes - o que Rilke nos fala. Todo simbolismo se dissolve em um estar deitado, numa cama estreita, ao lado daquilo que não podemos reter para sempre: pedaço de nós nascido noutro corpo. A vida, como a morte, apenas parece vir como evento único. E a noite, meu caro poeta, ainda é mais penosa para os amantes: quando acordamos -mesmo que exaustos - o medo de um futuro, quando o lençol permanecerá alinhado, cerca-nos qual abutres que apenas cercam a vítima, ainda viva. Então, temos que esconder um do outro essa náusea, fazendo o outro crer que cremos.
Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:08 )
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