Teoria da Literatura

Deus no Pasto: Pacto Autobiográfico, Intertextualidade e Estilística

(Esse texto é simples, apenas foi um esboço para uma discussão em sala de aula)

 

Há diversas maneiras de se olhar para uma obra literária; maneiras que não se excluem e que, quando bem utilizadas, podem unir-se em uma leitura mais ampla, que não reduz o livro à teoria aplicada. Para analisar três aspectos literários - o pacto autobiográfico, a intertextualidade e a estilística - escolhemos o romance Deus no Pasto de Hermilo Borba Filho, publicado em 1972. É certo que, nessas poucas linhas, muito do romance nos escapou, porém por ele ser o objeto de um trabalho maior - a dissertação - achamos conveniente analisá-lo.

Deus nos Pasto é o último livro de uma tetralogia, Um Cavalheiro da Segunda Decadência, da qual fazem partem os romances Margem de Lembranças (1966), A Porteira do Mundo (1967) e O Cavalo da Noite (1968). É importante ressaltar que os dois primeiros volumes foram reeditados nos anos noventa; o que nos faz pensar que os dois últimos não o foram por trazer ironicamente figuras políticas e da intelectualidade que ainda estão vivos.

O primeiro aspecto que iremos demonstrar é o mais forte na obra: a autobiografia. Porém, não será feita uma topicalização, os outros serão expostos no decorrer da explanação, quando for conveniente.

Última atualização ( Ter, 01 de Dezembro de 2009 14:23 )

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Mais Estranho que a Ficção (2006)

Este texto tem fins didáticos, para explanar alguns termos da Teoria da Literatura.

 

Lembro do meu "estranhamento" a primeira vez que assisti a este filme, dirigido por Marc Forster e tendo Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson e Dustin Hoffman como elenco principal. Uma comédia, sem dúvida, que não recai em piadas de humor fácil e de gosto duvidoso, mas o riso se dá pela situação inusitada em que o personagem principal se encontra: descobre que é um protagonista de um romance.

"Um personagem principal que se descobre personagem principal"? Vamos analisar o filme sob um ângulo da teoria da narrativa para entender o jogo diegético criado.

Comecemos, então, pelo conceito de diegese. Vamos entendê-la como "dimensão ficcional" da narrativa, ou seja, a realidade criada nos romances, nos filmes, nas peças - mais conhecida como "mundo ficcional". As narrativas mais simples e lineares têm apenas uma diegese, com o tempo e o espaço narrativos construídos de forma uniforme, sem mudanças de planos ficcionais. Entretanto, não é isso que acontece em Mais Estranho que a Ficção. Somos apresentados, no início do filme, a três dimensões:

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A banalidade da morte como móvel para o crime - Álisson da Hora

A banalidade da morte como móvel para o crime - Os Crimes Exemplares, de Max Aub

Álisson da Hora é mestrando em Teoria da Literatura, pelo PPGL/ UFPE.


A inocência parece algo que está ao mesmo tempo tão longe e tão perto nos relatos do francês naturalizado espanhol Max Aub. Os micro-contos que são encontrados no livro Crimes Exemplares (cuja primeira edição é de 1957, posteriormente ampliada em 1968) abordam o absurdo da confissão, ou um conjunto de confissões absurdas, "coletadas" ao longo de anos de pesquisas e de leituras diárias de jornalecos popularescos da Espanha, da França e do México. Relatos pretensamente reais (ou realmente reais, vá saber) de criminosos tão cínicos quanto sinceros que dão os seus relatos, suas culpas, de forma concisa, direta, crua. O próprio Aub esclarece as formas dos contos, no seu prefácio:

Tenho aqui material em primeira mão. Passado da boca para o papel roçando o ouvido. Confissões sem importância: claras, confusas, diretas, com o único propósito de explicar o arrebatamento. Recolhidas na Espanha, na França e no México, ao longo de vinte anos, eu não iria agora enfeitá-las, razão da sua vulgaridade. (Aub: 2003, 9)

 

Última atualização ( Ter, 08 de Setembro de 2009 13:35 )

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As ideias chegando ao seu lugar (Karine Rocha)


Karine Rocha é Mestre em Teoria da Literatura, pela Universidade Federal de Pernambuco.


Ao avistarem as caravelas que vinham de terras distantes, não sabia a população indígena, que aqui habitava, o mal que estava prestes a aportar em suas terras. Dois povos que não se conheciam, duas culturas adversas se olhavam de maneira estranha e provavelmente assustada. Deste encontro alguém teria que sair ferido. E este alguém foi o índio, que por não ter uma sociedade centralizada como a europeia, não conseguiu escapar do extermínio e da aculturação.

Iniciado o conflito entre as duas culturas, o homem europeu civilizado começa junto à população indígena o seu trabalho de massacre cultural. No Brasil, o mais célebre exemplo deste trabalho é o do Padre José de Anchieta, que por meio de seu teatro cria o que Alfredo Bosi chama de mitologia paralela, matando o que era sagrado para a população indígena. Anchieta usava a sintaxe e palavras do vocabulário tupi para impor a religião do homem branco. Por meio do teatro denunciou o que era tido como maus hábitos para os católicos e apontou o verdadeiro Deus, o verdadeiro modo de vida. Tudo isto mediante o uso da alegoria, que tinha o poder de persuadir com suas imagens que personificavam elementos abstratos.

A alegoria é o discurso do outro, daquele outro que fala e nos cala, faz tremer e obedecer, mesmo quando os fantoches grotescos da sua representação nos façam rir. A alegoria foi o primeiro instrumento de uma arte para as massas criadas pelos intelectuais orgânicos da aculturação. (BOSI, 1992, p. 81).

Última atualização ( Sáb, 05 de Setembro de 2009 14:00 )

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Religião, Sexo e Poder

 

Em 2007, cursei uma disciplina sobre Literatura e Pornografia, no Departamento de Pós-Graduação em Letras, da UFPE. A cada aula produzíamos pequenos textos acerca dos temas estudados. O texto a seguir foi concebido após a leitura do texto Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas), documento católico, publicado em 1487, ensinando ao juízes da Inquisição como reconhecer e punir as bruxas.

Decerto, Deus é construído de acordo com um momento específico da história das igrejas cristãs, à imagem e semelhança do Homem, contrariando aquele antigo ensinamento bíblico que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Mas o que é a Bíblia senão um amontoado de palavras que, como qualquer texto, possui um espaço vazio, pelo qual se pode interpretar o contrário, pervertendo-a? É isso que notamos em Malleus Malleficarum: um deus que, ao mesmo tempo, permite o pecado e o castiga, tão sádico quanto qualquer velho inquisidor, de pau duro por baixo da batina, enquanto punia santamente alguma jovem.

Quando digo "à imagem e semelhança do homem", dentro do contexto ocidente/ Idade Média, leia-se "sujeito do sexo masculino, conhecedor de peripécias retóricas e com algumas peças de ouro". É claro que essa mesma predisposição ocorre em outras culturas (e até hoje!), porém em nossa análise nos deteremos no horizonte cristão do texto.

É explícito o modo que o livro tenta mostrar como a mulher recai, sempre, na fraqueza de Eva ante o pecado: saboreia o fruto proibido e corrompe o digno e ingênuo Adão. Os demônios (sempre atentos e sem nada mais interessante para fazer) atormentam doces virgens até que estas deixem de frequentar a igreja (onde um padre, com certeza, salivava sobre seu decote) e passam a cultuar o obscuro; para tanto, os demônios utilizam-se de outras mulheres mais velhas, conhecedoras de práticas de bruxaria. E um dado importantíssimo é que os demônios não se interessam por "almas más", mas por aquelas pessoas que ainda são boas. Bem, como uma alma fica má sem o auxílio do demônio, isso eles não explicam.

Última atualização ( Ter, 01 de Setembro de 2009 22:35 )

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O General está Pintando: relações entre Literatura e Sociedade no conto de Hermilo Borba Filho

Pessoal,

 

Descobri que só tenho uma versão online do texto! segue o link (era meu antigo site)

http://literatura.thunderstorm.com.br/artigos/000001.pdf

boa leitura!

Última atualização ( Sex, 28 de Agosto de 2009 03:43 )

 

A Visão do Mar em Sophia de Mello Breyner

Texto lido no seminário
"Na véspera de não partir nunca": 70 anos sem Fernando Pessoa,
UFPE, 2007.

 

Não foi em sala de aula que conheci Sophia de Mello Breyner Andresen. A ela fui apresentada por uma amiga, quando discutíamos a existência, ou não, de uma "escrita feminina". Teria sexo, a escrita? Haveria peculiaridades na literatura produzida por mulheres? Embora não tenhamos chegado a uma conclusão, concordamos que a obra de Sophia de Mello nos causava o mesmo sentimento: um silêncio crítico. Não silêncio de desprezo ou indiferença, mas aquele que nos obriga a rever nossas bases teóricas; que revela o quanto a literatura é sempre mais ampla que o discurso crítico, isso porque, como disse Bachelard, "a palavra de um poeta, tocando o ponto exato, abala as camadas profundas de nosso ser" (2003, p. 32).

Ao pesquisar por ensaios sobre Sophia, encontrei um que tinha por tema "o mar" e seguia os pressupostos teóricos que eu pretendia trilhar. O ensaio Mar-Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen: Poética do espaço e da viagem, escrito por Helena Conceição Langrouva, publicado pela primeira vez na Revista Brotéria em 2002, serviu-me como orientação para minhas idéias esparsas. Por ele, soube que os críticos literários portugueses, até os anos setenta, partilhavam do meu silêncio, pois não havia como encaixar a poética de Sophia em uma corrente estética. Não era necessário recorrer a teorias para ali encontrar poesia, pois, segundo a autora do ensaio, Sophia está no mesmo patamar de Rilke, de Novalis, de Homero, dos líricos gregos e dos românticos ingleses e alemães.

Basta apenas conhecer os títulos eleitos pela autora para entender o motivo pelo qual escolhi falar sobre a imagem marinha: Dia do Mar (1947), Coral (1950), Mar Novo (1958), História da Terra e do Mar (1984), Mar-Poesia (2001). Em sua poesia, encontram-se os mais variados componentes do mar - sal, areia, sol, água, vento, coral, baía. E mesmo que não haja menção direta ao mar, podemos perceber que a luz, a claridade de seus versos lembram uma tarde na praia.

Última atualização ( Ter, 08 de Setembro de 2009 13:33 )

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A Reescritura dos Mitos Literários


Resumo: Nesse trabalho discutir-se-á o processo de reescritura dos mitos literários. Objetiva-se demonstrar como o movimento de reescrever mitos, antes de ser um indício de escassez, é a característica primeira da atividade literária. Para isso, procurar-se-á diversas acepções da palavra mito em teóricos como Aristóteles, Northrop Frye, Ian Watt e André Jolles, na busca de pontos em comum e para delinear um conceito que embase as idéias propostas neste ensaio. Após definir o mito, elucidar-se-á o processo pelo qual toda obra literária passa: a tríplice mimesis, apresentada por Paul Ricoeur. Nesse processo que perpassa os campos simbólicos sociais, a tessitura da intriga e a recepção de cada texto, a experiência humana ganha sua forma narrativa e se liga à tradição literária, à qual inova e sedimenta ao mesmo tempo.
Palavras-chave: mito, mimesis, narrativa, tempo, tradição literária.

 

1 Introdução

Reescrever histórias é o que impulsiona a literatura. Longe de ser um sintoma de escassez imaginativa, o processo de reescritura demonstra que o alimento primeiro do discurso literário é a própria literatura. Um movimento que lembra a figura mítica do Oroborus: a imagem de uma cobra que engole ou vomita seu próprio corpo, encontrada em culturas diversas e distantes. E, mesmo que busque elementos constitutivos em outros discursos, como o histórico, não consegue desvencilhar-se de uma tradição literária que, de certa forma, estabelece as regras de um jogo. Mesmo que seja para controvertê-la, é desta tradição que a nova literatura se erguerá.

Se pensarmos na literatura ocidental de forma diacrônica, e chegarmos à grega, perceberemos o quanto ela estava ligada aos Mitos organizadores da cultura helênica. A literatura, nesse momento, era uma espécie de redoma que asseguraria a conservação de determinados valores e moral. Entretanto essa redoma logo deixou de ser um estanque repositório que apenas catalogava mitos: ela crescia e as novas inserções reorganizavam sua estrutura. O mito literário, então, tornou-se complexo e se desvencilhou do mito religioso-cultural. Hoje, uma obra que retome Édipo nos fala menos do mito edipiano do que da peça escrita por Sófocles e das obras posteriores que a "reescreveram".

Decerto é importante não confundir a relação existente entre mitos análogos em culturas distintas - como o mito do dilúvio - e a relação entre mitos e textos literários - como Shakespeare que retoma a idéia do "desencontro amoroso" na peça Romeu e Julieta, já presente no mito grego de Píramo e Tisbe. Enquanto no primeiro caso temos uma questão antropológica - como culturas espacialmente distantes produzem mitos análogos -, no segundo não podemos negar certo grau de consciência por parte do escritor em retomar determinado mito. Não que uma arqueologia dos mitos não seja de certa importância para a compreensão dos estágios pelos quais a arte literária passou. Ao contrário, estudos sobre a estrutura do mito auxiliam a perceber de forma mais delineada as mudanças sintáticas e semânticas pelas quais ele passa. Entretanto, a reescritura é o cerne da própria atividade literária: livro algum nos traz a última palavra sobre determinado assunto; livros tornam-se, então, sementes de novas obras. Mostra-se, assim, imprescindível para os estudos literários averiguá-la. Quando falamos na reescritura como "em certo grau consciente", estamos admitindo que não seja possível mapear todas as influências diretas de um autor, visto que as leituras por ele feitas já são intertextuais. Nas linhas a seguir procuraremos discutir e delinear os processos da reescritura, destingi-la da formas simples e defender que o processo intertextual não é algo novo, embora ele aconteça por meio de processos que se modificaram ao longo do tempo.

Última atualização ( Ter, 08 de Setembro de 2009 13:34 )

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Entre dois séculos e duas percepções: a correspondência entre Joaquim Nabuco e Graça Aranha (1890-1910)

Cartas de Cícero: "A nossa superioridade presumida provém simplesmente de não sabermos mais o grego nem o latim" [1]

 

Essa frase citada por Joaquim Nabuco, em uma carta endereçada a Graça Aranha, no ano de 1905, foi retirada da correspondência de Marco Túlio Cícero, filósofo romano. Nabuco buscava, por intermédio dessa correspondência, resgatar valores da cultura e da sociedade romanas; partindo desse particular, como ele afirma em outra carta, datada de 1904, pode-se construir uma ideia clara da Antigüidade: sua vida íntima, suas ruas, suas cores. Ora, se Nabuco, ao ler a correspondência de Cícero, vê-se percorrendo as ruas de Pompeia, talvez possamos resgatar alguns traços da intelectualidade brasileira por meio das missivas trocadas entre Nabuco e Graça Aranha, no período de 1890 a 1910.

De maneira geral, temos como conteúdo dessas missivas vários fatos sócio-políticos que constituíram a História do Brasil e, de algum modo, contribuíram para a formação do Estado brasileiro. Nesse período, situado na Primeira República, não era estranho que os homens "de letras" fossem os mesmos empenhados na política; eles tomavam para si a tarefa de criar uma nação liberal e progressista, baseados na cultura europeia. Sendo assim, os pensamentos e obras destes, de certa maneira, espelhavam o pensamento de uma época que estava dividida entre ideais europeus e a necessidade de encontrar a própria identidade brasileira, como forma de sobrevivência do Estado. Nomeados por Nicolau Svecenko [2] como "mosqueteiros intelectuais", eles perseguiam uma atualização da sociedade brasileira de acordo com os padrões europeus; a modernização das estruturas da nação, com sua integração na "unidade internacional" e a elevação do nível cultural e material da população.

Nesse contexto de transformações políticas, como fica a literatura e a crítica literária? O objetivo específico deste trabalho é delinear o parecer desses intelectuais sobre a literatura de sua época; tentando verificar como esses comentários se relacionam com o que já foi dito sobre o pensamento de ambos e da época em questão.

Embora comentários sobre diplomacia e o corpo político brasileiro configurem a maior parte da correspondência trocada entre Joaquim Nabuco e Graça Aranha, encontramos comentários críticos desses intelectuais sobre os lançamentos ocorridos na literatura, como o tão bem recebido "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Assim, como Aranha parece sempre manter Nabuco informado sobre a "dança das cadeiras" na diplomacia brasileira, ele também informa seu interlocutor acerca das eleições na Academia Brasileira de Letras: impressões sobre o papel que um imortal precisa desempenhar na instituição, as expectativas em torno dos candidatos a uma vaga e seus "padrinhos".

O Sr. sabe muito bem a importância que dou à Academia, dentro do espírito desta penso que o meu voto exprime uma consagração ou pelo menos um reconhecimento e nunca um prêmio de animação ou de condescendência. Ora o Amaral não tem individualidade ainda, é provável que o estudo faça dele alguma coisa. [...] não se trata de dar o voto ao Amaral (por quem tenho vivo interesse), mas de não dar ao Euclides Cunha (que não conheço pessoalmente), cujo livro, com todos os seus defeitos de afetação científica, vem colocá-lo entre os grandes e vigorosos dos jovens pensadores e escritores brasileiros. [3]

Verificamos também - e isto talvez por ser mais raro, seja o mais importante - os escritores que dialogam sobre o ato da escrita, revelando as expectativas e as experiências da produção de seus diversos livros. Com nossa pesquisa, esperamos acompanhar, mesmo em nosso século, a transição de um século, que trouxe em si transformações estéticas e de gosto nas concepções sobre arte, literatura, teatro; esperamos, então, apreender um momento crucial para a afirmação da cultura brasileira.

Ora, Joaquim Nabuco sempre mostrou um senso estético raro, fazendo com que uma linguagem nítida e harmoniosa se sobrepusesse ao português castiço, revelando e sempre assinalando que seu conhecimento parte da Antiguidade, advindo de Platão e Cícero; encontrando em Montaigne, Spinoza e Renan outras fontes de conhecimento. Graça Aranha observou certa vez: "desdenhou a correção portuguesa e escreveu esplendidamente em uma feliz linguagem incorreta" [4]  . Essa concepção de linguagem literária foi talvez responsável por essas impressões acerca do livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha:

Vou ler o Japão [5]. Quanto a Os Sertões não pude. Não é o caso somente de empregar a expressão tão expressiva [...]; é o caso de dizer que a floresta impede de ver as árvores. É um imenso cipoal. [6]

Graça Aranha responde:

É muito verdadeira a sua observação sobre cipoal dos "Sertões." Ainda assim naquela coivara há fogo brilhante e forte, faíscas transmissoras de incêndio. O que há no livro é o traço vigoroso, incisivo; e muito desassombro e sinceridade. Há também o sentimento do cal, da raça e da tragédia. Sob muitos aspectos há uma criação literária do Brasil. Contudo a forma também não me é agradável, mas talvez seja um preconceito e uma injustificada antipatia estética, antipatia que eu compreendo ainda mais num espírito feito de harmonia como o seu, cujas raízes eu descubro em Platão, Cícero e Renan. [7]

Para ele, o artista é aquele que se utiliza da mesma argila que o "autor do Gênesis faz o Criador tocar, a única que não mancha as mãos do artista" [8] . E Graça Aranha, ao conceber Canaã, utilizou-se dessa mesma argila, pois, para Nabuco, não havia página na literatura brasileira com tanto simbolismo quanto a passagem do sono de Maria - personagem do citado livro. Além da apreciação formal, Nabuco preocupava-se com a vida que as personagens adquiriam na fantasia e isso Aranha conseguira dar às suas em Canaã. Porém, apesar da obra Canaã trazer "uma nova aurora para as letras brasileiras", Nabuco, com sua concepção universalista da obra de arte, ainda a vê muito ligada à cor local:

o sentimentalismo nacional ou local, - e emprego a palavra sentimentalismo no sentido mais elevado - ainda que seja quase sempre a origem da inspiração, não basta por si só para produzir a verdadeira obra d´arte; esta tem que ser universal, todos os corações devem poder entendê-la, todos os espíritos interpretá-las, para ela achar lugar na galeria da humanidade. [9]

Na época em questão, a consciência nacionalista se desenvolveu em todo o ocidente, pois os Estados-nação modernos estavam se consolidando e se definiam em oposição aos demais. Até mesmo as ditas ciências humanas - história, filologia, antropologia, geografia, etc. - eram, como nos mostra Sevcenko [10] , financiadas pelos próprios Estados "para justificar a organização uniforme de uma ampla área geográfica com seu respectivo agrupamento humano". Joaquim Nabuco cria que tal consciência ofuscava o brio de obras que ultrapassavam o plano local e dialogavam com aquilo que ele tinha por universal: a esquecida tradição clássica; esse esquecimento permitia que os homens se julgassem "presumidamente superiores". Tal convicção era tão latente em Nabuco que, ao desejar publicar um drama em 1909, comenta a Aranha:

Sabe que escrevi há trinta e três anos um drama sobre a Alsácia. Não quero que ele seja obra póstuma. Não o compus para representações pagas tão pouco. Desejava fazer dele uma edição anônima (o nome sempre prejudica a obra) (sobretudo em França um nome estrangeiro)[...] Julgue o meu drama o único tributo desse gênero, da raça Latina à França pelo seu sacrifício. Tenho orgulho dele, ainda que meu espírito esteja hoje em esfera superior a dos conflitos e paixões humanas. [11]

As reservas quanto ao espírito de nacionalidade que pairava na literatura não cessavam, mesmo quando seu drama foi elogiado - possivelmente elogiado, pois Nabuco não especifica qual obra foi elogiada - pelo crítico francês Émile Faguet (1847-1916), tem suas reservas:

Sou muito grato ao Faguet. Não creio que ele tivesse escrito assim, se suspeitasse que eu não era Francês. O preconceito, ou pelo menos a prevenção, se interporia. [12]

Quando se refere a críticos literários brasileiros, como José Veríssimo e Oliveira Lima, Nabuco percebe que a febre do nacionalismo e o historicismo afetavam a recepção de suas obras:

Vejo que o Veríssimo me persegue, como o Oliveira Lima, que ofereceu o livro ao Rio Branco! Para que lhe está servindo o Jornal do Rodrigues! Do meu livro disse que fora melhor eu não o ter publicado; agora dá-me como trabalhando em destruir a nossa nacionalidade. [13]

No Brasil, já se buscava um modelo europeu, no qual crítico era visto não apenas como um intérprete das obras, mas aquele que lhe situava, quase sempre de modo didático, em relação a seu espaço sócio-cultural. "A ficção, para José Veríssimo, era pensada como um instrumento de apreensão cultural" [14]  . Nabuco sempre discordou das críticas de José Veríssimo, que se galgavam nas ideias etnológicas. Discordância aparentemente partilhada por Graça Aranha, já que a este:

Não me agradou o segundo artigo do Veríssimo sobre o Sr. Achei-o mal feito; não é a exposição que ele devia fazer de suas ideias estética, artística, moral e filosófica. Veríssimo não se concentrou bastante para nos dar uma síntese. Limitou-se a transcrever. O primeiro artigo, mesmo no ponto de vista em que se colocou, é muito superior. Para ambos ele precisava de mais filosofia e para o último mais cultura. Veríssimo precisa evidentemente ler os filósofos, e não se pode discutir o pensador Nabuco sem se conhecer Platão, Anaxágoras, e os gregos e Spinoza. [15]

A resposta que Nabuco dá a Aranha,

Vi o segundo artigo do Veríssimo, continua a traduzir-me, isto é, a caricaturar o meu livro. O melhor é não me ocupar dele. Os críticos não podem existir para nós. E Dante não os imaginou! [..] Uma boa página de Cícero basta para elevar-me a outras regiões, [16]

vem nos mostrar uma outra discrepância existente entre o pensamento de Nabuco e Veríssimo: para este - no período que João Alexandre Barbosa chamaria de segunda fase - "havia uma preocupação com a especificação da literatura enquanto arte literária; também com a profissionalização do trabalho do crítico e com o rigor editorial" [17] . Já para aquele, o trabalho da crítica literária, ao menos o da sua época, poderia ser extinto; melhor dizendo, poderia se substituído por pensadores que estivessem imbuídos de um idealismo moral e espiritual, que não estivessem despidos de um cunho filosófico. Sobre o Oliveira Lima, ele diria:

Quando ficar livre do Tacutu e solto na literatura, hei de ser um outro Oliveira Lima. É verdade que as tarefas deste me parecem hoje liliputianas. [18]

Aranha responde:

Sempre tive em grande conta o talento do O. Lima pela claridade, pela permeabilidade de sua retina tão transparente e pelo seu grande poder de assimilação. O Sr. acrescenta com razão o poder de expressão. O erro do Lima é persistir na História. Faltam-lhe inteiramente a sensibilidade do passado e essa força de ressurreição do que não vive mais em seu espírito. Ele é um homem moderno_ nos seus mais profundos e íntimos instintos e na cultura. Daí a vantagem com que ele trata dos Estados Unidos e do Japão, e a incapacidade de nos interessar pelo descobrimento do Brasil. [19]

Para terminarmos essa explanação, é interessante ressaltarmos outro aspecto marcante, não só dessa correspondência em questão, mas das correspondências da época, são longas passagens sobre o estado de saúde dos amigos e familiares. E, um fato emocionante para os leitores dessas missivas é, sem duvida, a morte de Machado de Assis. A maestria com que Aranha descreve a decadência e morte do nosso grande escritor faz-nos reviver o passado e receber a notícia como se não soubéssemos de nada, já que sua obra continua viva. É interessante acompanharmos essa decadência desde o que parece ser seu princípio, com a viuvez de Machado em 1904:

Encontrei o Machado de Assis viúvo. E nada me comoveu tanto como vê-lo acabrunhado, esmagado e ir ao meu encontro logo a minha chegada [...]. Anteontem estive naquela melancólica solidão do Cosme Velho, que procurei animar com a lembrança das coisas vistas. Saí muito tarde, e Machado acompanhou-me um pouco e com dificuldade nos separamos; à entrada havia um grande luar, e ele foi desaparecendo na luz... [20]

Em 1908, com sua doença, ao passo que surge uma preocupação que incomoda Aranha, surge também um reconhecimento de grandeza intelectual que a sociedade da época deixava se esvair, sem a devida importância:

O nosso Machado de Assis está muito doente. Temo que não resista e é com imensa melancolia que vejo se ir finando o nosso querido amigo, a Glória mais pura deste país. É uma corrente límpida e maravilhosa de um jardim secreto que vai se perder para sempre. E nós mesmos, que somos esse jardim de mistério, como guardaremos a lembrança do fio d' água que nos alimentava? [21]

Em outubro do mesmo ano, Nabuco tece sua tristeza nas linhas a seguir, negando a validade de uma estátua como prova de reconhecimento a tão grande talento:

Lá se foi o nosso Machado! A vida nas condições em que ele vivia devia se cruel, mas para a inteligência o existir compensa todos os sofrimentos, e isto tanto mais quanto mais alta ele é. Agora é que vemos a nossa pobreza. Eu sou muito contrário à ideia de estátua. A estátua para ser digna dele teria que ser uma grande obra. A melhor ideia, grande demais para nós, seria comprar a casa e conservar tudo tal qual. Essa é a maior prova de veneração da posteridade. [22]

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[1] As cartas citadas nesse artigo pertencem à Fundação Joaquim Nabuco, Recife-PE. Para a referenciação de tais cartas, utilizaremos o código estabelecido pela mesma fundação. O trecho citado pertence ao documento JN CAp 29 doc.567.
[2] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão - tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

[3] JN CPp 117 doc. 2469

[4] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil - Era Realista, Era de Transição. 7ª ed. São Paulo: Global, 2004.
[5] "No Japão", livro de Oliveira Lima, publicado em 1903, sendo o primeiro no Brasil a tratar do Japão.
[6] NABUCO, Carolina. A Vida de Joaquim Nabuco. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1979.
[7] JN CPp 119 doc.2493
[8] JN CAp 23 doc.446
[9] JN CAp 26 doc.514
[10] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão - tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
[11] JN CAp 74 doc. 1465
[12] JN CAp 78 doc. 1542
[13] JN CAp 53 doc. 1056
[14] BARBOSA, João Alexandre. Teoria, Crítica e História Literária em José Veríssimo. São Paulo: LTC/Edusp, 1978
[15] CPp 213 doc. 4390
[16] JN CAp 41 doc. 819
[17] BARBOSA, João Alexandre. Teoria, Crítica e História Literária em José Veríssimo. São Paulo: LTC/Edusp, 1978.
[18] JN CAp 22 doc.426
[19] JN CPp 118 doc.2483
[20] JN CPp 147 doc. 3062
[21] JN CPp 254 doc. 5193
[22] JN CAp 60 doc. 1198

 

 

 

Última atualização ( Seg, 01 de Junho de 2009 20:18 )

 

O Tempo no Discurso Narrativo

"O tempo torna-se tempo humano na medida em que está articulado de modo narrativo: em compensação, a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal."
Paul Ricoeur

Que somos tempo e espaço é um aforismo. Como somos tais entidades continua a ser uma questão filosófica que, quanto mais perseguida, mais longínqua parece, visto que cada resposta torna-se uma aporia e a reflexão torna-se cíclica: regressa-se à questão inicial - "o que é o tempo?". Porque inesgotável, a questão produziu ao longo dos séculos reflexões primorosas - ora belas, como as de tom teológico-filosófico de Santo Agostinho; ora sistemáticas, como as de cunho teórico-literário da semiologia, que evidenciaram a importância do tempo na construção narrativa (esta já pressentida por Aristóteles e posteriormente trabalhada pela teoria dos gêneros). É neste último caminho reflexivo que este ensaio deter-se-á, embora tal escolha não exclua pressupostos filosóficos exigidos pelo próprio tema: o tempo é, decerto e a fortiori, uma criação e uma experiência humana. Entretanto, seguir-se-á o primeiro caminho porque este ensaio não estacionará na criação e na experiência temporais descontextualizadas, contudo se preocupará como tais apresentam-se nas narrativas literárias: o tempo é um aspecto narrativo por vezes tão imbricado em outros que difícil se torna demarcá-lo. É para essa demarcação que os estudos semiológicos tornam-se necessários.

Para responder a primeira questão levantada - "o que é o tempo?" - faz-se necessário relativizá-lo; uma busca por entendê-lo em suas várias nuances funcionais tanto na vida "real" quanto na discursivo-literária. É com essa relativização do tempo que Benedito Nunes dá seus primeiros passos em seu livro O Tempo na Narrativa; um estudo introdutório dessa questão e que será tomado como eixo norteador deste ensaio. Tem-se, então, a primeira "categoria temporal": o tempo físico. Desde as civilizações mais remotas, os movimentos físicos pelos quais passam a Terra são responsáveis pela demarcação temporal humana, assim há o dia e a noite em vinte quatro horas e as quatro estações, por exemplo. O tempo físico é o tempo do movimento, da ação per se; visto anteriormente como absoluto e, depois das teorias de Albert Einstein (1905), entendido em uma relação estreita à determinada porção de espaço no qual a ação ocorre. Esse tempo é cíclico: quando uma etapa se cumpre, retorna-se à primeira; não há mudança visível no tempo, mas vê-se a mudança do espaço ocasionada por ele.

Entretanto tais etapas ganham, dentro das relações sociais, um conteúdo semântico estruturador das mais diversas ações culturais e o tempo passaa ser visto, desde Santo Agostinho (por volta do ano 397), de forma linear (porém houve historiadores como Vico, século XVII, que retomaram a ideia de tempo como cíclico, com períodos recorrentes). Semanticamente, o tempo passa a ser não apenas uma volta da Terra em torno do Sol, mas, metaforicamente, tempo de plantio e tempo de colheita (no passado apenas com agricultores, hoje com máquinas). Assim, cada sociedade busca em sua história fatos importantes, para deles ser feito um eixo norteador, como, por exemplo, o nascimento de Cristo no qual se baseia o calendário ocidental. Dentro dessa perspectiva cronológica do tempo, divide-se a história humana baseando-se nas grandes revoluções, mudanças políticas e avanços tecnológicos; tal divisão também é vista em estudos historicistas da literatura: demarcação de períodos literários de acordo com o momento social de sua existência e das características em comum que este possibilitou. Essa divisão teve seu ápice no século XIX, com a crítica de base positivista que, embora falha, continua sendo a base do ensino de literatura. Hoje, de um ponto de vista mais apurado, a importância do tempo cronológico para os estudos literários está em definir cronotropicamente o ato da leitura para se observar a recepção das obras ao longo das épocas.

Contudo o tempo cronológico é uniforme apenas em sua forma "física"; quando ele é internalizado pelo sujeito, sua dimensão e seu encadeamento tornam-se flexíveis às condições de quem o vive ou o relata. Embora medidos no mesmo relógio, momentos de tédio e momentos de felicidade "parecem" durar distintamente, sobre isso Hans Meyerhoff (1976, p. 12) diz:

A mensuração, ou métrica do tempo, envolve considerações comparativamente simples. Todos sabemos que nossas próprias experiências são uma base pobre para medir objetivamente o tempo. Neste instante ele se escoa rápido; naquele, transcorre lentamente; agora, estamos agudamente conscientes de cada segundo que se escoa; no momento seguinte parecemos completamente alheios ou inconscientes da passagem do tempo.

Assim se no tempo físico o "efeito" nunca virá após a "causa", no psicológico essa ordem submete-se a certas escolhas do sujeito que o narra. Por isso, tal incompatibilidade entre os citados tempos é, de certa forma, análoga à relação tempo da história/ tempo do discurso presentes nas narrativas, sejam elas literárias ou não. Pode-se dizer que esse abismo entre o "real" e o "contar", em narrativas não-literárias, e entre o "fato" e a "fábula", na literatura, é explicado por dois vieses: um de cunho lingüístico e outro fenomenológico.

Se entendido este último viés, mais clara torna-se a questão lingüística: após compreender como se dá a experiência humana ante as três instâncias temporais (passado, presente, futuro), fica mais fácil observar como estas se cumprem no discurso. Em um trabalho muito audaz, Paul Ricoeur apresenta a tese de que tempo e narrativa se encontram numa relação circular, na qual há uma mútua necessidade de existência: o tempo é, necessariamente, articulado de modo narrativo; já a narração só é possível enquanto estruturada por experiências temporais (1994, p. 15). Ele toma como pressupostos duas teorias de universos culturais distintos: os paradoxos do tempo de Santo Agostinho (Confissões) - de certo modo desvinculando tais paradoxos de seu contexto religioso (meditação sobre a eternidade e o tempo suscitada por versículos bíblicos) - e a teoria da intriga de Aristóteles (A Poética). Dessa tese, o que importará para o entendimento do abismo existente entre "fato" e "linguagem" é o desenvolvimento que Ricoeur faz das aporias presentes nas Confissões de Santo Agostinho; de forma sucinta, mostradas na célebre frase de Santo Agostino: "Por conseguinte, o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei" (AGOSTINHO, 2004, p. 342). Mais precisamente, serão interessantes aquelas que dizem respeito à medida temporal.

Há três instâncias às quais se recorre quando se tenta demarcar o tempo: passado, presente, futuro. O paradoxo instaura-se, então, no argumento de que "o futuro ainda não é, que o passado não é mais e que o presente não permanece" (RICOEUR, 1994, p. 22). A resposta à questão vem com a ideia de um tríplice presente; um presente dialetizado, no qual se encontram passado (narração, memória) e futuro (previsão, espera). Essa resposta, nas Confissões, torna-se mais uma aporia, porém traz as primeiras luzes à tese de Ricoeur: o tempo se articula de modo narrativo.

As considerações acima aclaram a anteriormente citada questão do tempo discursivo porque o tempo da enunciação é o presente e é dele que se fala do passado ou do futuro. São os dêiticos, na narração, que situam os interlocutores na cronologia da narrativa. E, dentro da literatura, o tempo linguístico sempre está subordinado ao ponto de vista adotado pelo narrador. Uma obra, por exemplo, cujo narrador relata sua infância, trará o peso da memória desse narrador: serão tidas imagens que, além da mimetização própria da literatura, sofreram uma deformação resultante "da impressão deixada pelos acontecimentos e que permanece fixada no espírito" (RICOEUR, 1994, p. 27). Meyerhoff (1976, p. 50), baseado na teoria psicanalítica de Freud, defende que nada da experiência humana é esquecido, apenas deixado de lado ou reprimido. Ele retoma a ideia freudiana de uma dimensão intemporal do "Id" e faz uma analogia entre a reconstrução da personalidade psicanalítica e a construção de um eu-ficcional. Por serem datadas, de certo modo, as ideias do autor não se sustentam em nossos dias tanto porque a psicanálise já encontrou outros conceitos de experiência e memória, quanto porque a teoria literária não mais vê essa correlação entre o "divã" e a escrita.

Em uma perspectiva semiológica, discurso e história são dois planos distintos, cada um com seu tempo próprio. Sobre isso, Tzvetan Todorov (apud NUNES, 2003, p. 27) argumenta:

O tempo do discurso é, num certo sentido, um tempo linear, enquanto que o tempo da história é pluridimensional. Na história muitos eventos podem desenrolar-se ao mesmo tempo. Mas o discurso deve obrigatoriamente colocá-los um em seguida a outro; uma figura complexa se encontra projetada sobre uma linha reta.

Esse caráter sintagmático da linguagem exige uma escolha no tempo discursivo: como fatos que ocorrem ao mesmo tempo serão dispostos na narração; porém tal escolha em literatura não pode ser aleatória, e sim como artifício. É para causar determinados efeitos que são utilizadas as anacronias (analepses e prolepses). Mas não é apenas a ordem dos acontecimentos que geram efeitos narrativos, também a duração que o narrador estabelece a cada fato. Ora têm-se acontecimentos narrados de forma abreviada, com uma duração muito menor que sua suposta duração (sumário, tempo da narração menor que o da história); ora têm-se os acontecimentos prolongados, nos quais, muitas vezes, o tempo da história para e o da narração prossegue com descrições do cenário, das personagens ou monólogos destas. Outro efeito de narração é a elipse, nesta o narrador omite algum fato importante ao longo de seu discurso, para dizê-lo apenas no fim, arrematando o enredo.

Ainda no âmbito do tempo da narração, Benedito Nunes (2003, p. 38) traz outra questão que envolve a relação narrativas/ narrativas ficcionais. Decerto, quando se narra uma experiência pessoal, narra-se no pretérito, situa-se o fato em seu tempo e espaço próprios. Porém quando se trata de ficção, para Kate Hamburger (apud NUNES, 2003, p. 38), fala-se de personagens que existem originalmente em um plano estético, logo o pretérito serviria como um desligamento da ficção com o real; "anular-se-ia a experiência do passado, própria de sujeitos reais, sem ser substituída por uma outra experiência do presente. Nenhuma fase temporal entra na vivência do enredo" (NUNES, 2003, p. 39). Já para Weinrich, os verbos no pretérito indicam que há narração, mas esta não segue a concepção gramatical que equipara o presente, o pretérito e o futuro com o discorrer natural das coisas. Se fosse o contrário, não haveria, por exemplo, livros de ficção científica. Em outra passagem, Benedito Nunes (1994, p. 44) cita Paul Ricoeur para intensificar o conceito de que o passado é o tempo narrativo por excelência:

O pretérito guardaria esse privilégio devido à voz narrativa, "disfarce fictício do autor real. Uma voz fala contando aquilo que se realizou para ela. Ingressar na leitura é incluir no pacto entre leitor e autor a crença de que os acontecimentos reportados pela voz narrativa pertencem ao passado dessa voz.

Com essa citação, Benedito Nunes conclui que o tempo da narrativa é instituído a partir tanto das relações autor fictício/ texto, quanto das relações entre texto/ leitor. Paul Ricoeur (1994, p. 21) ainda diz que a especulação sobre o tempo é uma ruminação inconclusiva e, mesmo que a narrativa não resolva as aporias, é por meio da tessitura da intriga que a esclarece. Pode-se tomar como exemplo o estudo que Mikhail Bakhtin (2003) fez sobre Goethe, no qual ele afirma que a obra goethiana é um dos pontos culminantes da cronotopia literária. Goethe conseguiria "ler o tempo no todo espacial do mundo", numa tentativa de ver "os laços necessários desse passado com o presente vivo, compreender o lugar necessário desse passado na série contínua do desenvolvimento histórico" (BAKHTIN, 2003, p. 225). Tal visão, de certa maneira, é análoga à noção agostiniana de um tríplice presente.

Porque o tempo apenas pode ser medido por convenções, e só entendido pela experiência, e esta só tem como suporte a linguagem, é que apenas narrativamente se pode compreender o tempo: o "agora" que contém em si tanto a imensidão do passado - que, de certa forma, vai se deteriorando -, quanto a crescente imensidão da espera.

 

BIBLIOGRAFIA
AGOSTINHO. Confissões. 3ª ed., Trad.: Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 2004.
BAKHTIN, B. O Tempo e o Espaço nas Obras de Goethe. In: ______. Estética da Criação Verbal. 4ª ed. Trad.: Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 225-258.
MEYERHOFF, H. O Tempo na Literatura. Trad.: Myriam Campello. Recife: Ed. McGraw-Hill do Brasil, LTDA, 1976.
NUNES, B. O Tempo na Narrativa. 2ª ed., 4ª impressão, Série Fundamentos. São Paulo: Ática, 2003.
RICOEUR, P. Tempo e Narrativa. Tomo I. Trad.: Constança Marcondes Cesar. São Paulo: Papirus Editora, 1994.

 



Última atualização ( Seg, 25 de Maio de 2009 14:59 )

 
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