Saudadinhas do soldadinho. Eita, voou!
B. Cortizo
Tem um soldadinho no quase jardim. Gostinho do tempo de criança no canto da boca, sabor graviola, por favor. O soldadinho foi embora... Não! Ainda está ali, na corda do balanço. Me balança? Não tão forte. Me segura agora, que eu vou cair. Mas até que o chão é macio até o Merthiolate chegar.
O soldadinho voou com o grito, mas o pé de laranja nem é tão longe assim. Ninguém brinca de gangorra sozinho e sozinha eu estava até esta manhã. Então este sol nasceu e nos convidou para vir aqui, mesmo com essa terra ainda molhada. E se sujarmos a roupa de barro, o castigo é certo.
Não toca no soldadinho! Já foi, agora uma de suas asas se desfez. Ele não pode mais voar, traz para árvore, talvez ele possa viver, afinal vivemos mesmo com a corda do balanço apodrecendo sob a chuva de todos esses anos e a gangorra se curvando sob o peso do tempo. Além do chão cheio de pedregulhos que ferem e dos remédios que nem ardem nem curam.
Então, eu brinco com palavras por isso: a verdade é o estar febril, de cama, quando o mundo poderia ser divertido. Com você e eu brincando de esconde-esconde até você, desajeitado, tropeçar na primeira pedra.
Última atualização ( Sex, 27 de Agosto de 2010 15:31 )
Foi por um segundo que existiu. Num tom ainda lívido, não de medo, mas de inexperiência, maravilhada. E existiu, assim, inexata entre lençóis e pensamentos, e habitava na palavra. Nada havia ainda eclodido, nada havia ainda de suspeito. Era toda em forma de som que eu me repetia até adormecer, sozinha.
Foi só por um segundo, mas eu a tive, corporificada. Estava um tanto fria, um tanto doce e molhada, porque era uma manhã aquosa e os tons cinza de agosto se dissolviam na chuva. Um segundo meu de inércia, não por espanto, mas por zelo. Era toda de poesia feita e a mim eu a recitava até me desfazer em lama.
A existência do segundo demorado, em que ela, paixão sensata, sabia-se viva e, então, à mercê da morte. Foi no fim desse instante que ela se pôs de ponta de pés à beirada da cama, e eu tinha olhos de paralisia, não por covardia, mas por destino. Ela era toda suicídio e já se vestia de mortalhas quando, finalmente, o segundo passou.
Última atualização ( Qui, 26 de Agosto de 2010 20:01 )
Nasceu à espera de um milagre, inseto verde na folha e um predador à espreita. Era a nossa imagem, inadvertida, mas pretensiosa: pétala de chuva na ânsia de um dilúvio. Inunda-me, eu até pensei, olhos fechados, e senti uma leve lágrima cair em minha pálpebra. Onde a chuva, meus deuses, onde? O milagre não veio e as montanhas continuaram a olhar-nos serenas, mas intransponíveis. Nem um passo, eu sei, apenas um pingo e um arrepio: o inseto é apenas uma esperança, eu disse meio confusa, e ninguém entendeu.
Agora, o predador se sacia.
São dias de teus olhos de navalha que me lembram de dias de outrora quando teu sêmen escorria por minha pele. E eu saía correndo louca sob a chuva. Eu, pastora dos ventos. Eu, que te assanhava o cabelo. Eu te arranhava a pele. Eu te fazia luas. E eras menino. Olhos de menino, talvez tolo, talvez ágil, sempre curioso, sempre eu.
São dias de reencontro, mesmo que perdido, para mim, ainda estejas. Porque és cego. Porque não vês. Porque sou outra, sendo a mesma, mas outra ainda inexata, inacabada, insone. Não preparada, me calo, me enterro, me esqueço. Não esqueço. Eu desenho estrelas no chão, até que elas brilham e entregam meu esconderijo. Não fujo. Sou eu.
São dias de medir palavras e a certeza do que fica interdito me consome. Primeiro os lábios que não se acasalam em palavras, murchos, estáticos; sem estalos; sem músculos. Depois as mãos que não sabem palavras, certamente analfabetas de ti, enrijecidas talvez. Eu apenas olho como quem canta; olho como quem poetiza. Eu apenas olho como quem quer.
Última atualização ( Qua, 25 de Agosto de 2010 19:57 )
Uma lua minguava. Lembro-me das estrelas, ah, as estrelas perversas e brilhantes, com um riso sarcástico de quem esconde alguma verdade.
Rochas. Sua pele sobre a rocha nua era tão fria quanto à noite. Uma pele sem vida. Eu quis retornar, dei um passo para trás. Foi quando vi que as estrelas dançavam ao meu redor, no ritmo de uma oração entoada numa língua a mim estranha. Não estávamos a sós.
A lua, as estrelas, as rochas. Além destas, uma velha corcunda havia, dobrada pelo peso de seios fartos e de uma idade já sem números. Era ela que orava, numa voz compassada e firme, num ritmo intermitente, vertiginoso e determinado.
Foi então que fechei os olhos e a vi. Nua. Não mais fria; não mais morta. Contorcia-se como um felino que pede carinho. E sorria. E o brilho dos seus olhos apagou toda e qualquer estrela.
Dei passos. Acariciei e beijei seus pés. Estavam quentes. Ela sorriu mais alto, mas logo parou meio encabulada. Talvez porque a velha nos via. Olhei para trás: apenas escuro. Nenhuma velha, nenhuma luz, nenhuma lua, nada. Apenas nossos corpos e uma longínqua voz que eu não compreendia.
Ela sentou-se. Brincava com meus cabelos, enquanto, dedo por dedo, eu a beijava. Lembrei-me de como ela apareceu em minha vida: brisa leve me arrepiando os pelos da nuca, do peito; depois ganhando força, forma e cheiro. Levando-me a arrepios mais intensos.
Levantei meu rosto, no intuito de olhar em seus olhos, mas eram seus seios que me fitavam. Ela estava de queixo erguido, talvez seus olhos buscassem alguma estrela no céu, ou talvez seus olhos estivessem cerrados, não sei, mas o que recebi foram seus seios em meu rosto, em meus olhos. Olhei-os. Pequenos, firmes, róseos. Beijei-os, de início, de forma leve, um medo me acometia sempre de machucá-los, de feri-los, de mordê-los. Mas ela, ah, ela forçava meu rosto, e numa mistura de gemido e riso e pedia para ser mais forte, ser mais homem, ser mais nela.
Alcancei-lhe o pescoço com a ajuda de suas mãos que me puxavam o cabelo. Ela sem abaixar a vista, talvez por um pouco de vergonha, talvez por sentir mais prazer assim, talvez para encobrir pensamentos vadios que nos escapam. Enquanto minha língua percorria-lhe o pescoço, a nuca, o queixo, enquanto mil fios de seus cabelos aloirados adentravam em minha boca, enquanto eu tentava forçar-lhe a abaixar o rosto para eu ganhar sua boca, minhas mãos percorriam terrenos mais aquosos e férteis. Não, não seria vergonha o que lhe fazia levantar o rosto, pois era do modo mais lascivo possível como ela permitia que suas pernas me mostrassem a passagem, como ela se forçava em meu corpo, como ela se doava.
Era num estado de frenesi em que eu me encontrava. Não me lembro de despir-me. Mas meu corpo estava entregue, nu, tão quente quanto o dela, tão ávido, tão vivo. Não foi difícil ela puxar-me e deitar-me na rocha, colocando seu corpo sobre o meu. Seus cabelos chicotearam meu rosto e eu pude ver seu rosto radiante. Pareceu-me ser primeira vez que eu sentia aquele cheiro, aquela pele, aquela força, e temi que fosse a última, abracei-lhe na tentativa vã de prometer-me eternidade.
Ela forçou então seu corpo sobre o meu e eu a invadi e me senti completo. Ninguém precisaria ali de estrelas, nem de luas. Eu não precisaria do sol. Apenas daquele suor, apenas daquele sal, daquelas águas, daquele sangue que lhe corria sob a pele e que escorria um pouco da minha pele quando ela fincou docemente suas unhas em meu dorso e eu nem senti. Eu sentia apenas o tremer daquele corpo e um mover-se num ritmo igual da oração longínqua que eu ainda ouvia.
Esvaziou-me. Ela foi parando devagar e, devagar, foi que eu a coloquei embaixo de mim. Foi com muito pesar que desvencilhamos nossos corpos. Eu tinha medo de abrir os olhos. Eu tinha medo de ver a luz. A oração longínqua cessou, mas eu sentia o pulsar ainda acelerado e o calor que daquele corpo emanava. Não havia rocha ali. Não havia corpo.
E naquele momento eu não soube se ela estava viva ou se quem havia morrido tinha sido eu.
Eu não pedi amor, mas me trouxeram e puseram à mesa. Eu olhei por um momento e reconheci que era o prato de sempre. Eu ri.
Eu, definitivamente, não pedi amor, mas você veio. E como veio. Quando eu percebi, as cadeiras já estavam com as pernas para o ar, sobre as mesas, e as garçonetes já haviam fechado o café.
Eu, que não pedi amor, só pude argumentar para mim que era um engano. Levantei-me e caminhei até a porta, abri-a. Antes de sair, ainda olhei para trás em tempo de ver uma Tecedeira arrematar o ponto.
Eu não pedi amor, mas aquele para sempre seria o único prato da casa.
Última atualização ( Dom, 01 de Agosto de 2010 22:40 )
No mundo dos meus sonhos, você e eu teríamos um filho lindo. De cabelinho bem preto. E todos os fins de semana, você viria nos visitar. Sim, porque você e eu não moraríamos juntos. Eu seria uma mulher independente, dessas que moram num flat. Claro que quando nosso filho nasceu, tive que mudar para um dois-quartos. Mas é um ap tão clean quanto o flat. Você vem tão lindo para gente. Com esse sorriso lindo que você tem, tão perturbador. Você toma nosso filho nos braços e ficamos assim brincando durante toda tarde no sofá. Eu nem me importo quando uma taça de sorvete mancha o tapete ou que nosso filho coma todas as besteiras que eu o impedi durante a semana. É tão lindo ver vocês melados de sorvete. À noite, ficamos olhando por um tempo. A respiração calma, compassada. Ele dorme. Você e eu voltamos para sala. Enquanto isso, você me diz que estava com saudades. Eu acredito, porque eu também estava. Você meche em meus cabelos. Me pede para mestrar algo. Toca em minha nuca. Eu respondo que só se for uma cena de taverna. Com direito a live action. Eu olho para você e vejo o quanto ainda me perturba. Você me beija e eu beijo você. E este amor é o mais lindo do mundo no mundo dos meus sonhos.
Mas, fora dele, crianças vomitam e sujam as fraldas e eu, que tenho ânsia de vômito só em pensar no cheiro enjoativo de talco, eu, que tenho dores de cabeça só em pensar no choro de uma criança me tirando de um sonho bom, eu, que confabulo tragédias quando tu te atrasas um pouco no trabalho e que não admito ter saudades, eu, que te quero todos os dias, por necessidade e por ciúme doentio, calculo os juros do meu cartão de crédito que atrasou.
Última atualização ( Dom, 01 de Agosto de 2010 02:33 )
Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você.
B. Cortizo
Ele entrou de mãos vazias, vazias. E era uma tarde triste, eu perdida em meio a papeis e flores mortas. Mas ele veio, vazio e se mostrou a mim, inteiro. E eu queria que o tempo morresse aos poucos e calcificasse aquele sorriso já eternizado na memória. Porque era um sorriso alegre, que me falava de vidas que já foram e de vidas que virão. Acontece que eu estava preenchida, pesada, cheirando a tantas promessas, envolta no que deveria ter sido.
Estou aqui. Foi que ele me disse, olhando como se enxergasse meus pelos, minhas entranhas, minha alma e o que meus olhos veem. Você está aí. Foi o que eu consegui responder sem titubear, pois eu sabia que ele estava ali e era inútil achar uma borracha com nossa medida. Sabes quantos passos eu dei? Eram seus olhos que me pediam para dar um passo, apenas um, mas sentia cada vez mais a terra úmida sob os meus pés impedir-me, a terra a se abrir sob meu corpo. Eu ainda carregava uma pesada flor do passado em meu seio.
Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você. Não repita isso, foi o que eu tentei falar em vão. Não repi... Se for para Eu ser culpado... Ele repetiu de forma mais alta, mais árida até, mais rígida, e eu o contive com um dedo em seu lábio. Meu olhar recaiu sobre nossos pés juntos, unidos, havia eu dado um passo sem perceber? Eu quero ser culpado de você. Mas sem levantar a vista, descobri que sempre há um retorno, e regressando, vi a terra abrindo-se e eu caindo, naquele mar de rosas murchas.
Última atualização ( Ter, 23 de Março de 2010 17:03 )
Passos lentos, deliberados, como uma valsa, levavam-lhe adiante.
Mas talvez, só talvez, fosse um tango. (B. Cortizo)
Amor? Não... Amor! Isso não é amor, é feeling. Foi o que eu tentei explicar-lhe com minhas metáforas, e nada do mundo se mostrou tão difícil, era-lhe impossível imaginar algum sonho no qual eu lhe dissesse algo a mais que literatura, daí na vida real tudo seria sempre encarado como ficção. Mas ele me sorriu como sempre e eu lembrei que a vida poética pode ser mais, não, não, ela é mais real que tudo, e me senti feliz, e lhe sorri também.
Não, meu amor, não é amor... é feeling. É a pele sobre a pele, mas ainda e sempre é a pele-palavra, pele ferida, pele maculada, ainda que apenas palavra. Ele me sorriu com ar de bobo. É ficção? É, é ficção. E verdades. Gargalhei sozinha, repetindo para mim todas as verdades, de maneira mais metonímica, a qual me permito quando falo só. Porque sempre lhe penso, sozinha. Sempre... se a palavra é carne, nosso discurso é sexo, e não posso colocar as coisas de outra forma...
É amor? Não, amor. Amar é largar nossa vida pequeno burguesa e lavar feridas de leprosos ou sair pichando muros contra nossa vidinha capitalista de merda. Isso é feeling. Eu lhe disse mais uma vez, na atitude vã de uma metáfora. Mas seu sorriso pós-moderno me dizia que meu discurso era obsoleto, moderno demais. Daí defini as coisas assim: amor é sempre valsa, e nós seremos sempre tango. Ele sorriu sério até seu lábio se enrijecer. Pôs seu casaco e, sem olhar para trás, fechou a porta atrás de si.
Eu cortaria os pulsos com você. Penso nisso ao estarmos nós dois sentados no chão frio e empoeirado, deprimidos e entediados. Também penso que o amor assim assexuado é mais racional e, de certa forma, mais prazeroso: você não me pedirá, com uma cara estúpida, para gozar nos meus lábios; e eu não terei que fingir prazer com tudo isso - fingir até sair correndo para o banheiro vomitar a porra e o jantar.
Eu cortaria... E beijaria uma puta. Veja: todos da plateia estão meio anestesiados, meio enojados com o filme, mas nós o olhamos e nos vemos ali. Mais uma boate cheirando a sêmen e vinho barato; mais uma drag e nós lá, imortalizados de preto, felizes com o anonimato, totalmente bêbados e achando legal um casalzinho gay se beijar. Como já disse, beijaria uma puta só pra saber que prazer você sente nisso; tem realmente gosto de pêssego os lábios dela? Não sei, mas sei que se um dia você ficar de quatro, como eu fico, dificilmente não gostará.
Você ficaria? Não? Eu não beijaria uma puta também, estava apenas nos testando. Devolve meu chocolate. Nós aqui no chão somos dois vermes sem nome, as coisas são assim mesmo, mas ela saberá nossos nomes na hora certa e nos chamará. A ela sim eu beijaria, pois é apenas uma garota gótica, "com um chapéu idiota e um sorrisinho todo exibido". Ela virá hoje? Não, você não sabe. Acho que esta é a única pergunta para qual você não tem resposta, pois não vamos cortar nossos pulsos hoje, mesmo com todo esse nó e esse eco de inutilidade.
Acho que vou vomitar o vinho não bebido. Acho que já cortei os pulsos e nem senti.
Apenas acho. A única certeza é que somos dois idiotas de egos grandes e só.
Virgínia Celeste Carvalho
Não venha a mim, como se eu fosse espelho. Não tentes me explicar sob sua ótica: eu não acendo um cigarro, muito menos no que estou terminando de fumar, numa tentativa frustrada de aplacar qualquer vazio, seja por falta de amor seja por falta de sexo. Nem puxo baseado. Nem bebo também para apagar qualquer nódoa em mim. Tomo uma dose de vodca para sentir faltarem-me as pernas e permitir-me falar algumas besteiras, e isso é bom. Mas não fico com essa cara de puta arrependida: olhos inchados, hálito fétido e processador lento.
Também não acho relacionamentos difíceis. Não que os ache fáceis. Eles apenas são. Assim, intrasitivamente, como eu costumo dizer. Não gosto de mulheres que rebaixam os homens na tentativa de se afirmar; afinal não era essa, inversamente, a fortaleza masculina? Muito menos aprecio o lema da "mulher edificadora do lar"; essa coisa de ter apreensão nos olhos para garantir o amor nos olhos do homem... dessa mulher forte que fingi suportar marido, filhos, trabalho e, no fim da noite, ou corneia um, ou espaça os outros, ou se entope de remédios, ou, no fim do mês, aluga o ouvido de um bundão psicólogo que sequer sabe cuidar de sua própria vida. Se há duas coisas que aprendi com a literatura são: que somos máscaras e por baixo dessas há feridas imensuráveis, com secreções amarelas e fétidas; e que podemos fazer a realidade de tudo sem fazer a realidade de nada. E mesmo assim, te juro, ser feliz.
E quando toda essa merda terminar, não me converterei ao protestantismo, no intuito de que alguém me perdoe por superpopularizar o planeta. Não usarei saias cafonas nem me esquecerei das gramas que cheirei. Lembro-me que nunca cheirei nada, além de flores, frutas, terra molhada na qual eu pisava descalça e aquele perfume que fica no peito de um homem, após seu orgasmo. E isso sempre me foi o bastante. E como foi...
Última atualização ( Sex, 02 de Outubro de 2009 14:47 )
À Morte, porque ela é o tudo sempre; A meu pai, pelos seus olhos que tudo me diziam pela janela; A Kirlian Silvestre, por ser sempre terra; A Álisson da Hora, porque lembrei dele à meia-noite de uma noite triste; A Bernardo Cortizo, que sempre me causa um sorriso; A Karolinne Serpa, a primeira leitora dessas palavras tortas, e, é claro, a Sylvia Plath, a quem só compreendo em noites como esta.
... e ela precisou levantar, para escrever e expurgar tudo aquilo que lhe impedia de dormir. Porque os olhos dele eram como duas setas fincadas há muito tempo, tanto tempo que nem podia mais medir em anos. Porque era o tempo da falta e do que não fazia mais sentido. E eram esses olhos que apareciam vertiginosamente, em lampejos que traziam uma sensação de dormência a seu cérebro... e ela se sentia caindo, caindo no sono, serena, mas acordava tonta, sentindo suas veias pulsando. Estava lisérgica.
Engraçado... essas coisas sobre a Morte. O silêncio que há no minuto anterior do verbo morrer conjugado. A atmosfera... os olhos... a atmosfera dos olhos. Eram esses olhos pestilentos que me olhavam e me diziam sobre o fim. Eram olhos turvos, taciturnos, de um brilho apagado, como tocha de fogo negro, e eram eles que eu fitava entre as frestas da janela.
Última atualização ( Ter, 29 de Setembro de 2009 04:40 )
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Não sei como você é tão burra. Era isso que eu queria dizer, assim, na cara, sem alterar a voz, no tom de sempre, confiante. Mas disse, agitando-me, noooossa, que legal! Intuitivo, inovador. Ri-me por dentro, pois sabia que não adiantava travar uma discussão teórica a respeito do que conversávamos. Ela riu, serena, concordando com minha falsa opinião. Irônica, falei do quanto Bakhtin estava errado e de quanto não ia com a cara do Benjamin. Ela ficou surpresa e me alertou para não falar coisas desse tipo na frente dos professores.
Da além-vida, Bakhtin sorriu. Sabia de meu respeito por suas ideias, embora eu sempre as unisse com outras, as mais diversas possíveis. Monogamia de ideias, não! O bom é quando fazemos uma suruba e não se sabe mais de quem é aquele falo..., ô, quero dizer, aquela ideia bacana. Como se eu engravidasse de trigêmeos e cada um fosse filho de um pai diferente. Sacana. Gostoso. Imoral.
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"Vou fazer de minhas mãos manjedoura e haverá de, nelas, nascer o acaso..."
É o que consigo escrever, antes que teu sorriso me venha à mente e me passe pela cabeça a ideia louca de ir te encontrar, mesmo que isso fosse loucura, mas preciso terminar esse texto ainda hoje, e a noite já consome tudo e o bairro onde moro já descansa. Amanhã voltará tudo: lavadeiras, mecânicos, professores, manicures, cabeleireiros, padeiros, motoristas, estudantes, domésticas, donas-de-casa, atendentes, vendedores ambulantes, feirantes, faxineiros, seguranças, tudo e todos num barulho imenso, numa procissão de tamanho alarido que me desperta todos os dias quando o sol começa a esquentar o quarto. Fico tão curiosa por saber o que estás fazendo. Assim, curiosa pelas pequenas coisas, como no que estás tocando agora. As pontas de teus dedos, o que percorrem? Talvez estejas limpando teus dentes com fio-dental ou limpando delicadamente as lentes de teus óculos em movimentos suavemente circulares. Te imagino até se aconchegando na cama para dormir, colocando o travesseiro em uma posição confortável e colocando o lençol até a altura do ombro, mesmo em dias quentes. Sei que sentes tua cama pequena, apertada, mal mexes uma de tuas grossas coxas e esta já pende para o lado. Inquieto como és, acordas diversas vezes durante a noite. Sei que desejas outra cama, mesmo que tenhas que dividi-la com alguém. Pena que esta não seja eu. Tu nem sabes se ela quer isto, quer dizer, eu acho que no fundo tu sabes sim, um fantasma já espreita no corredor quando olhas antes de fechar a porta do teu quarto, mas queres calá-lo a todo custo e te enganas que é apenas um pensamento inútil, fruto da distância. "Mas, mais distante você está", é o que me dirias, e eu responderia que sim, realmente estou, além de milhas de voo, estou numa camisa de força, a qual eu mesma me prescrevi. Não tenho o direito de acusá-la de omissa, quando eu sequer presente um dia fui. Mas o teu sorriso
Ela para abruptamente, sem ponto-final mesmo. Sua mesa está tão desorganizada que poderia esconder-se nela, atrás de uma pilha de livros ou de cd´s. Há poeira, fios e um grampeador sem muita utilidade, com grampos já enferrujados. Ela está com um pouco de frio e se sente um pouco sozinha. Seu marido ainda não chegou. Está sem inspiração e, como a personagem a quem acabara de dar vida, precisa terminar um texto. Estamos falando de Mônica. Não que este seja seu verdadeiro nome, porém vamos adotá-lo, pois ela é tão pura quando a Mônica, amante de Santo Agostinho quando este não era santo.
Mônica faz textos para uma revista feminina. E se questiona se não é tão feminina, já que nunca compraria essa revista; embora goste de escrever seus textos e os faça com toda verdade, não se sente mais tão confortável. Ela pula para outra janela do Word.
Agora tenho a certeza de que não quero ser escritora, afinal nem sei por que continuo a visitar continuamente blogs de escritores. Até porque alguém pode achar que há um tanto de inveja em minhas observações, pois não tenho blog nem amigos para ficar me bajulando em scraps, dizendo que o que escrevi era legal. Mas como, leitor, posso criticar se não ler? Como, ainda, posso falar mal - pois é isso que farei adiante - se não percorrer sob minha pele uma amargura de meus textinhos tão graciosos não estarem tão na moda como esses metaficcionais, metacríticos, cults? Gosto apenas de falar de amor, de sonhos, de pessoas distantes, de pessoas próximas, de pessoas, intransitivamente. Dizem que minha literatura é para donas-de-casa e até gosto de lençóis dependurados em varais, quanto mais coloridos melhor e de prendedores coloridos também, transformando-os em verdadeiros estandartes da família que os tem. Isso me traz um pouco de memória do quintal barrento, um cheiro de amaciante e de graviolas, os galhos de um cajueiro que tomava os recantos vazios e pés de alface descansando até a colheita sob a sombra dos cajus.
Eu dizia que não quero ser escritora. E há querer? Ao ato, ninguém pode fugir porque palavra e memória cercam como lobos atrozes e devoram, a partir de dentro, do útero, e sugam das veias, da medula. Não há como fugir da lembrança daquele morangozinho que estava nascendo e um fungo corroeu, meus olhos perdidos em lágrimas e meu pai explicando técnicas de como envolver o frutinho - logo que a flor cai - em uma pequena bolsa plástica, isso garantindo toda uma produção de morangos, resultando de um apelido a mim dado: moranguinho. Como enxotar esses fantasmas em vida, minha vida, senão transformá-los em palavras que nada dizem, ou pouco dizem, ou dizem às donas-de-casa?
E por que ousar o que não quero? Advirto-me.
Por que escrever algo a mais que estes pensamentos fugidios?
Por que pensar que devo escrever algo como o último texto que li, de um escritor famoso, no qual ele representava um diálogo idiota de um pai e filho, com grandes questionamentos sobre TV, educação, papéis sociais, cobradores de ônibus e dançarinas que sobrevivem do tamanho da bunda?
Para que sentir as dores do mundo, se as minhas já fazem meu corpo pender para o lado, uma corcunda de existência, tecida por laçadeiras invisíveis, eu, todo um aglomerado de cânceres de mim mesma, com unhas crescidas e cabelos despenteados por todo o tempo?
Por que tentar questionar condutas, pessoas, idiotas, ladrões, mulheres-objeto, se o que mais me causa náuseas são os escritores? Não o ato da escrita - esse sempre acima, um deus, um grande coelho branco caçando as onças - mas esse status perseguido, um privilégio de poucos para poucos, que sequer as pessoas entendem, sequer lêem, apenas, algumas, amontoam um monte de livros em suas estantes, na busca de um status, também tão vazio, de leitor. Já percebi que escritores não se dizem escritores, ou não se diziam até isso se tornar um clichê. Mas, entre alguns que não se dizem, alguns são. Eles não perseguem o status nem dizem "não sou escritor", no intuito que você lhe diga "é, sim". A despeito do que falem - seios, anjos, ancas, ladrões, dinossauros, libélulas, corredores, espíritos, vampiros, famílias húngaras, países maravilhosos, países extintos, mentiras verdadeiras, verdades falaciosas, memórias, caos e objetos - se percebem que suas palavras são unas, nasceram ali, naquele instante, e só são ali, com outras, como crianças em um parque, alegres, mesmo que ao lado repouse mortos em um cemitério, embora encubram verdades doentes, como um pai que toca sempre em seu sexo na hora de niná-lo.
Os outros, que se dizem e os que não se dizem para outros dizê-los, não são escritores. Falam da vida, mas a linearidade ou a ruptura tão socialmente esperada não fazem parte da vida. Ser humano é ser cruel e ser cruel, de fato, não é explicitar nomes de pessoas que estão por trás de uma grande máquina - máquina e homem se tornando um todo amorfo, doentio, mas, enfim, fértil, mesmo que de uma fertilidade doentia - chamada ideologia. Ser cruel, ainda, não é enfileirar as chagas humanas e se pôr acima - um deus a tudo e a todos julgando, quando ele se sabe que não passa de nosso títere - em forma de deboche, de inteligência e se consagrar aquele que condenava as mazelas de seu tempo e alertava ao povo, em uma mensagem que pairava entre o muthos e o logos, as coisas que todo mundo já sabe. Ser cruel é ser, por fim, o ditador das coisas que ninguém quer ver ou provar ou imaginar sequer que existem, latentes, por baixo de tapetes de aceitação, sociabilidade e bom comportamento. Existe perversão no olhar de um pai de família, gritando socorro por seu filho, talvez não para com seu filho, mas para com a adolescente que transita pela esquina com a mini-saia da moda, ou para com uma senhorita protestante que, de tanto esconder seu corpo, cria uma expectativa monstruosa, um pastor se deliciando à noite, num vai e vem de suas mãos em seu falo, lembrando daquela blusa que cobria os cotovelos e da saia que cobria os joelhos e imaginando todo o resto escondido. Quem escreveu sobre a perversão não fui eu, foi um escritor, esse sim escritor, pois conseguiu não representar um cotidiano televisesco, mas criá-lo, enquanto os intelectuais não o entendiam ou não queriam dar-lhe o contorno de todo merecido, ele também não querendo fogos de artifício, afinal são de artifício, não de conteúdo.
Para quem estava sem palavras, Mônica sente que escreveu demais e coisas que não devia, coisas que não seriam publicadas pela revista. Ela abre a porta de sua sala e vê que seu marido chegou e, cuidadosamente, tentava jantar sem fazer barulho; ela não se lembra de ter ouvido barulho de porta, sabe apenas que se concentrava nas palavras quando, na verdade, elas pediam pouca concentração. Ele sorri da sala de jantar, ela retribui com um beijo à distância, desses que vão voando pelo ar e até, se você escutar atentamente, ouve-se o estalo. Mas, naquela noite, ela nada ouvira. Sem mais, volta a fechar a porta de seu pequeno escritório, na certeza de que tem pouco tempo e textos que se escrevem deixando a mão liberta não são de bom agrado. Há de continuar seu texto.
Mas o teu sorriso é um ídolo de carne e nos teus lábios pulsam tanto desejo. Não creio que ela, como eu, consiga distinguir essa verdade única que és e, caso eu soubesse que me vês como te vejo, o que eu faria? Gotejaria em meus olhos águas do Lete e iria te ver. Assim, serias tu meu primeiro amado,
Mônica sabe muito bem que o trecho de agora destoa totalmente do que começara. Antes a personagem tinha uma incredulidade e lhe bastava imaginar formas e cores, não os viver. Era um texto sobre a dicotomia: mundo real e mundo ideal. E agora, onde a realidade? O mito se apoderou e o trecho que agora concebera parece retirado de um romance de um século distante, com uma devoção feminina, bem distante do público mulheres-modernas ao qual destinaria o texto. Ela não apaga o texto. Copia e cola em outra janela do Word. Salva, ironicamente, como "poema perdido". E retoma sua verve mulher bipolarizada, cidadã ativa, que enxerga o submundo citadino e as distâncias intransponíveis, como o casamento, o trabalho, o morar em outro país:
Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para
Estou lendo e relendo, lendo e relendo essa história, até mesmo estou vivendo, como se ela fosse a minha, até que sua mão fria de morto toca em meu ombro, me dizendo que é tempo de fazer outra coisa, como alongar o pescoço ou caminhar à sala e pôr comida para o gato. Mas sua mão, fria, não é assim terrível, história de horror com mortos-vivos, fantasmas e anjos perambulando em desgoverno pela Terra. Não. Essa história é particularmente de amor, de respeito: ele me enxerga, por entre espelhos, teclar e teclar e fica se perguntando o que danado tanto fala sobre ele, até que não suporta mais tal angústia curiosa e vem, de espelho a espelho, a mim. É nesse instante que ele recorda que mortos não lêem, desaprenderam o contorno das letras e os sons das sílabas; não conseguem unir signo a signo, até tudo relacionar-se em um compreender. Não tenho porque ter medo, embora no primeiro contanto um frio tão intenso deturpou o traçado que há em minhas mãos e formou uma palavra. Era o nome de um de seus livros. E eu lia tão claramente, mas não tive o que fazeride: não sou sua viúva, nem seus filhos, nem editora. Eu fico aqui, escrevendo as idiotices pelas quais me pagam e vou sobrevivendo dessas úlceras, pois em cada texto que escrevo se vai um pedaço de mim.
Corrôo-me aos poucos, como um pudim que vai sendo delicadamente comido por alguém que sabe descuidadamente apreciar o sabor. Eu até creio em minhas idiotices, às vezes. Só às vezes para não viciar e essa lama virar cíclica e eu, ao menos eu, mude, já que seres humanos, aconteça o que acontecer, continuam a fazer a mesma coisa: comer e cagar, matar e morrer, acostumar-se à morte dos seus e precisar de um outro para brincar na gangorra.
Tenho pensando muito nele e nela, em tantos neles e em tantas nelas que passam por isso agora e, é óbvio, que isto me leve a pensar em mim e em você. Nesse eu e tu tão belamente crus, como tudo que é novo, uma página em branco, o primeiro cantinho claro do céu quando as trevas dissipam-se ou mesmo a primeira onda que a gente pula, quando adulto ou criança pouco interessa, ao primeiro contato com o mar. Tudo que é virgem, ao ter consciência de si, quer exceder esses contornos parcos, quer alimentar-se de sangue, tinta, nuvens ou areia. Pensando assim nos parece que tudo, após uma primeira entrega, estagna. Mas não. Sempre somos virgens a algo, sempre tímidos - entretanto desejosos - ao novo. Nunca uma nuvem igual à outra, nem onda, nem tinta, nem sangue. Todos de espessura, cor, consistência, verdade, mentiras, acidez, conchinhas, moluscos, algas, sabor, formas, tipos, moléculas, doenças, saúdes, humores, marés e tanto mais coisas distintas. É tudo tão diverso, quando se olha atentamente. Nem se precisa de tanto tempo, para olhar. Muitas vezes até, caso não se perceba na primeira hora, não mais se verá e continuar-se-á a ver tudo tão familiar que causa um enjôo de voltas e voltas intermináveis na mesma montanha-russa de sempre, com emoções e desesperos sempre tão calculáveis e os respingos de vômito caindo em algum idiota que debaixo observava o movimento.
Só depois de uma pausa para, enfim, respirar, nota que errou de documento. Ctrl+seta para cima, Ctrl+x, Ctrl+alt e Ctrl+v. Volta ao documento da revista.
Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para
Ela pensa: esses vários "ps"... Mas resolve deixar assim, afinal que crítico literário leria aquela revista?
Mas é que teu sorriso é um ídolo distante e me resta parar um pouco para esquecer nós dois. Lembrar de Ovídio e dizer para mim mesma que você recebe muito pouco; e eu nunca me passaria por sustentar teus luxos. Repetir em bom som que passaste do peso ideal, que irás enfartar logo e, de cama, serás um peso que atrapalhará toda minha carreira. Então, não mais amor, adeus.
Vou fazer de minhas mãos manjedoura e haverá de, nelas, nascer o acaso. O acaso existente em um tênue sonho.
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