Em Versos

Vidas

 

É difícil hoje ver meu rosto antigo
E não lembrar nada além da forca à frente,
Mais um passo.
É difícil hoje ver meu rosto tão indiferente,
Sem sorrisos.

Essas imagens conturbadas
E estás presente.
Esses discursos todos
E quem nos perdoaria, irmão?
Nos perdoaríamos?

A verdade...
A verdade que a morte silencia
Não no estalar dos ossos,
Mas na agonia asfixiada
Dos três minutos
E de um passo a mais.

Última atualização ( Dom, 01 de Agosto de 2010 22:39 )

 

à Poeta Lucila Nogueira

à Poeta Lucila Nogueira
Lúcida,ela sempre é vida
eu me repetia ao reler seus versos irretocáveis
Uma luz que de seus olhos emergia
me dizia ainda mais que versos:
Cantava os campos idílicos.
E uma garota cigana de saias vermelhas e rendadas
Ia-se dançando
num ritmo descalço
Levando lantejoulas em seu cabelo azulado.
Ela me falava, sobretudo, do sol e da lua
As luzes que são sempre vida
das cores que são sempre suas.

Última atualização ( Qui, 22 de Julho de 2010 11:35 )

 

Cegos

Penso-te sempre.
Penso se me pensas em tuas águas.

(e o cão-guia
Me perguntou onde era o funeral)

Falo e você me ri. Outras palavras.
Penso sempre você, assim
E te penso em minhas terras.

(o cego de quatro patas
E o cão que o guiava pela coleira
Eram eu ou eram você?)

 

...

A Kirlian Vellarins, meu amor.

 

Mãos de silêncio sobre teus olhos.
Uma alegria pálida
Em uma manhã breve.

E teus sonhos, teus sonhos, teus olhos de sonhos
Teu peso em sonho, teu peso em ouro
E meu corpo em teu arco desmedido.

Poema de movimento e ritmo.
A lua serena que cresce
E o domingo que morre em teus braços.

 

Virgínia Celeste Carvalho



Última atualização ( Seg, 05 de Outubro de 2009 17:52 )

 

Cântico

Este poema foi escrito em outubro/ 2000.


Que o Cântico seja ouvido...

Os murmúrios de amor exaltados!
O desejo não pode ser detido
Nem a palavra contida
Tampouco a inspiração vendida
Nas páginas internéticas de um micro.

Que o Cântico seja interpretado...

Que o vinho, frente a ti, seja insípido
E o sorriso franco não vetado.
A mais bela flor não pode ser cortada
Nem Madalena apedrejada
Por não ser hipócrita nem pelo passado.

Que o Cântico seja vivido...

Que ninguém o julgue sem sentido.
Que a busca seja constante e inevitável.
Que minha palavra desnude o sigilo
De tudo, por mim, desejado.
Que o Cântico seja lido e catequizado.

Virgínia Celeste Carvalho

 

Viagem

Era um sabor cítrico de sol morrendo
E uma estrada inevitável...
Era o barulho de horas desesperadas
Correndo pelos montes
Em direção contrária.

E era eu na passagem
Em movimento
O espaço se criando no tempo
Sem importar-se com a vigilância
De meus olhos dormentes.

Enquanto isso
Pássaros em voos dementes
Completavam a paisagem.

Virgínia Celeste Carvalho

Última atualização ( Qui, 10 de Setembro de 2009 13:38 )

 

(poesia)


cansei.

nada mais é viagem.

ao longo do rio

um arrepio

corre nas águas...


... jaz o que corria

em minh´alma.


exceto a Poesia.



Última atualização ( Qui, 27 de Agosto de 2009 17:11 )

 

Intertexto

A Ascenso Ferreira

Por três vezes, as andorinhas

Revoaram...

Por três vezes, as folhas

Renovaram...

E por te esperar ao sol da primavera,

Tostei.

Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:30 )

 

Divagações à luz do Luar

imagem
E há poesia quando te perco
e tenho saudades
Porque nem tudo é sempre
E nem sempre preenchido.
Do Lótus cai uma luz púrpura
E tudo vira vazio.

E porque me despetalei
E sequer percebeste
Outra pele nasceu.
Fresca, de sabor róseo,
Um luar tangível:
Substantivo concreto.

E de tuas mãos correram ventos
Que me assanharam o cabelo
E a poeira de lágrimas há tanto caídas
Verteu-se em água novamente:
Um fluxo da vida à morte
Como as águas deste Rio.

Última atualização ( Sáb, 28 de Fevereiro de 2009 00:48 )

 

1999

Palavras geradas
entre meus seios.

Meu ventre
concebendo a graça,

esclarescendo
teus vestígios.

 

Evocação

I
Não memorizo aldeias

Nem aldeões:

Meu cabelo ao vento

- lúcido, tardio -

Exibe o corte, a ruptura

a outra margem;

A imagem destorcida em mim

Não é doce nem crédula:

Pus a vida acima da Era;

O corpo acima da cela;

Os pés acima do cavalo...

... e, se assim não fosse,

aí sim, seria errado.

II

Mar. Terra. Cana. Terra-Seca:

Não é preciso ir muito, para ser estranho...

Das entranhas do dia, nasço

- não se nasce do nada,

se surge do ambíguo.

Não tardo nem contento, contemplo;

E o chover não mais distrai

O piscar de olhos

- rebento do adeus

sem vestígios.

Ah, atordoar infantil!

Versos de outrora conjugados, lentos

Nada mudou...

... ainda me sou,

rebentar violento.

III

Pernas acima da Terra.

Pó por cima de nós, dos sóis, dos séculos

(e não há outra ruptura

senão ser girassol!)

O cavalo segue abaixo, distante

Não é preciso estar acima, para estar melhor...

Não me abarco

E piso,

Como quem pisa um tapete, nuvens

Detendo nas mãos um telefone...

O que ferirá mais, senão a palavra?

Palavra dúbia.

Anti-prece.

Anti-deus.

IV

Contemplo. A chuva. O guarda-chuva. A náusea.

Nos olhos pardos, o passado pesa...

E há ferida: quanta dor inflama!

Quisera não ser eu, poeta ou passo;

Palácio erguido num confuso brio:

Meus sonhos são faces do céu que crio

Poemas ávidos, avós reversos...

... e isso, ninguém sabe.

V

Na timidez, procuro-me só:

Assim sou no extenso vão da palavra!

Quisera ser morena, alva - viúva

Tudo menos poeta e colibri:

Pousar e ser única - aldeã!

Talvez feliz.

VI

Campo, campina. Galo-de-Campina.

Há tanto, tantas lembranças mortas...

O verde sucumbiu aos olhos

Que, no chão, semeiam concreto.

Na outra margem,

lá, sempre lá,

Fico. Reservo. Esqueço...

Lanço ao rio o tonel

o túnel de meus anos.

Não hei de lembrar, como sempre.

VII

Padeço muito e lento,

muito lento.

Se chuvas, lágrimas, seres,

esvaem-se, algo fica...

Certas canções não sanam as lacunas do tempo;

Tempo-corpo, poema.

(Ah, se não fosse sopro, não fosse águia, cerveja...

se talvez flechas, não telefone...

se apenas mulher... não essa sina!)

VIII

Cruzar bares, mares, risos

E na outra margem

a palavra está...

Cardíaca, a alma reclama

Seu desejo último

- ávida, certa.

IX

Vivo;

Como isso não diz muito, adeus...

Sempre planícies por trás de serras

E rio entre montes; sigo.

Não responda o adeus

(nem a deus peço):

Sempre mais uma ponte e um riacho

E um cavalo para domar...

X

Só,

Mas há outra margem;

E, por ser ainda crédula,

Um novo deus.

Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 18:41 )

 

Todo Anjo é Terrível

A meu grande amigo, Álisson da Hora

Era assim.

Um ponto fúnebre.

Me arrepiei e você disse: normal.

Não era.

Era tórrido o gelo. Quase tangível, a névoa.

Mas você estava lá e eu disse: tudo bem.

Entramos assim, flechas dispersas que retornam à aljava.

Sangue, você disse, na flecha.

Eu ri, meio boba.

Você silenciou, quase sério, e pisou sério, fazendo ranger o assoalho.

Não acorde os mortos, brinquei.

Aqui só há anjos, você me calou.

Silêncio, deveras o mais alto ruído.

Apenas um gim barato.

Sem água tônica, eu quis.

Pensei ter ouvido você me pedir perdão.

Mas era tarde.

E silêncio.

Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 18:49 )

 

Improviso

Nada a dizer.

Nestes dias, nada me comove.

Nada me propõe um verbo e sequer reconheço-me poeta.

Talvez nem seja.

Talvez seja apenas o engano alheio

Que se torna o aplauso desejado por meu ego.

Mas, nestes dias, desprezo-o.

Recolho-me a um canto, sem camisa,

Lendo poemas sempre lidos, sempre ecos.

Neles me encontro muda.

Sequer uma despedida se anuncia...

Sequer um beijo na testa, inocente convite.

Nada interrompe meu silêncio.

Permito-me sentir a morte,

Tão bela quanto mil aves negras

Que levantam vôo,

Em um quase desespero.

É fim de tarde