Outras Vozes
Se um Viajante numa Noite de Inverno - Italo Calvino(Encontrei o primeiro capítulo de um dos livros favoritos. Com Italo Calvino, a palavra. Tradução de Nilson Moulin)
Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Se não ouvirem, levante a voz: "Estou lendo! Não quero ser perturbado!". Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: "Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!". Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.
Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas. Pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado, é claro. Com certeza, não é fácil encontrar a posição ideal para ler. Outrora, lia-se em pé, diante de um atril. Era hábito permanecer em pé, parado. Descansava-se assim, quando se estava exausto de andar a cavalo. Ninguém jamais pensou em ler a cavalo; agora, contudo, a idéia de ler na sela, com o livro apoiado na crina do animal, talvez preso às orelhas dele por um arreio especial, parece atraente a você. Com os pés nos estribos, deve-se ficar bastante confortável para ler; manter os pés levantados é condição fundamental para desfrutar a leitura. Pois bem, o que está esperando? Estique as pernas, acomode os pés numa almofada, ou talvez em duas, nos braços do sofá, no encosto da poltrona, na mesinha de chá, na escrivaninha, no piano, num globo terrestre. Antes, porém, tire os sapatos se quiser manter os pés erguidos, do contrário, calce-os novamente. Mas não fique em suspenso, com os sapatos numa das mãos e o livro na outra.
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Última atualização ( Sex, 12 de Março de 2010 01:17 ) Sentimento Súbito (Lucila Nogueira)(Esse poema, com certeza, é o primeiro da minha lista de poemas mais lidos.... aqueles que saio recitando em voz alta pelo meio da casa, com o rosto ainda sonolento, enquanto preparo um café. Também foi ele que me levou a pôr o nome desse espaço como "Casa Inabitada". A poeta Lucila Nogueira é uma das minhas favoritas.)
A Cícero Belmar
Porque você nada sabe da insônia a água que lavou as letras da biblioteca finjo-me autobiográfica e renasço como personagem
Última atualização ( Seg, 16 de Novembro de 2009 17:57 ) Autobiografia (Karolinne Serpa)
Sou pó. Matéria dispersa na imensidade do inacabado Jactâncias? (risos) Tolice. (et in pulverem reverteris) - K. Serpa - A Primeira Elegia (Rilke)
Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse, de repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua existência mais forte. Pois o Belo nada mais é do que o começo do Terrível que ainda suportamos e o admiramos porque, sereno, desdenha destruir-nos. Todo anjo é terrível.
Última atualização ( Ter, 08 de Setembro de 2009 14:05 ) Décima Eleiga (Rilke)
(Trecho final)
Mas o morto precisa ir; quieta, a Lamúria mais idosa o conduz até a garganta do vale, onde brilha, ao luar, a fonte da alegria. Com profundo respeito ela a mostra e diz: "Entre os homens ela é um rio poderoso."
Eles param ao pé da montanha. E ela o abraça, chorando.
Solitário, ele penetra as montanhas da dor original. E nem mesmo os seus passos ecoam no destino mudo. Mas, se eles, os infinitamente mortos, despertassem uma imagem em nós, talvez nos mostrariam os amentilhos vazios; os pendentes, ou falariam da chuva, que cai na sombria terra primaveril.
E nós, que pensamos em felicidade ascendente, sentiríamos a comoção, que quase nos desconcerta quando uma coisa feliz cai.
Rainer Maria Rilke Última atualização ( Qui, 27 de Agosto de 2009 17:26 ) Quarto (Álisson da Hora)
o pensamento descansa na quina
parede rachadura de palavras teto um buraco por onde tudo escapa válvula vida pedaços das coisas entrelaçadas nos partícipios e nos futuros estala a água nos ouvidos como ferida que não acha a cicatriz vida teto que cai sem cair a luz à esquerda de uma fotografia de um discurso capturado um salto dado num escuro quase preto a tarde da noite que pesa a poeira que passeia pelos dedos descalços o apartamento se fecha em si mesmo mesmo vida o que morre, quando se morre? pela fresta da porta sanfonada não corre mais luz alguma
Última atualização ( Sex, 15 de Maio de 2009 12:29 ) O Cão sem Plumas (João Cabral de Melo Neto)I. Paisagem do Capibaribe
A cidade é passada pelo rio O rio ora lembrava Aquele rio Sabia dos caranguejos Aquele rio Abre-se em flores Liso como o ventre E jamais o vi ferver Em silêncio se dá: Como às vezes Ele tinha algo, então, Algo da estagnação (É nelas, Seria a água daquele rio Aquele rio Seus Olhos Sempre Puros (Paul Éluard)
Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas, Dias de pálpebras fechadas ao horizonte [ dos mares, De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro. Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo, Suas asas são as minhas, nada mais existe Meu pensamento sustido pela vida e pela morte. ------------------------------- LEURS YEUX TOUJOURS PURS Jours de lenteur, jours de pluie, Mon esprit qui brillait encore sur les feuilles Pourtant, j'ai vu les plus beux yeaux du monde, Leus ailes sont les miennes, rien n'existe Ma pensée soutenue par la vie e la mort. A Ode das Falas do Pecado (Vilmar Carvalho)Há um cordeiro oferecido agora, meu amor. Há um pão oferecido, umedecido em vinho. Há um corpo oferecido agora, um corpo... Há o amor e a liturgia desse cálice passando, recolhendo o líquido desse esforço vermelho que não corre, mas vibra em seios e ombros molhados como se fosse a própria terra. E misturassem as falas do pecado aos salmos e destes extraíssem o perdão...
A seara onde a oferta em grãos alimenta o fogo e o cheiro, as salientes narinas dos famintos... Não há fome nesse corpo, meu amor. Não é da carne esse encanto, É o espírito preso à pluma mais leve que a labuta produzindo essa doce energia oferecida, irmanada agora à orla do paraíso: Bruma desses olhos perdidos de espanto...
Trigo! Trigo! Trigo! Grande relva verde do oceano! Nossa Torre das festas do sagrado e do profano! Não há jejum nesse espírito, meu amor. Uma mesa colocou-se nessa profecia e urdiu perfumes variados e sutis, feito tempero de remotos lugares, para o exótico banquete do início de tarde...
O sopro das virtudes e a inquietude de não saciar mais a enorme vontade dos lábios, braços, mãos e dedos... Porque o espírito vagueia a eternidade e não possui o formato do infinito. Ah! Instante misterioso dos arrependidos! Torre da liturgia dos cheios de graça!
Não há pecado, nesse domingo, meu Amor. Não há arrependimento. Divindades tomaram a tarde e puseram a vida e a morte, suaves e breves na Oração: Salvem o amor do esquecimento e vivam as horas do humano coração! Depois disso nada importa. Salvem do esquecimento das horas, o humano coração!
Foi assim que esse amor espalhou-se e invadiu a lembrança de todo romance vivido e futuro, presente e esperado, pelos corpos colocados ali no ofertório à eterna esperança que nada passa e toma seu lugar nos planos do mundo... Minha Torre onde a Poesia é urgida e purificada. Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:45 ) E Força e Dor (Paul Celan)
e o que me empurrou
e impulsionou e sustentou? Anos de júbilo bissextos, rumor de pinheirais, uma vez, a caça ilícita da convicção de que isso deve ser dito de outra forma que não assim. Última atualização ( Sex, 27 de Fevereiro de 2009 19:47 ) |



