Leituras

Lete: Arte e Crítica do Esquecimento

Criei essa seção "leituras" porque sempre me perguntam o que li para a seleção de mestrado, para escrever a dissertação ou até mesmo o que estou lendo para a seleção de doutorado. Começo, então, com um livro que foi de extrema importância para minha dissertação: Lete: Arte e Crítica do Esquecimento, de Harald Weinrich.

Tomei conhecimento deste livro no início de 2008, quando recolhia material sobre "Memória e Literatura". Lembro-me bem que li uma citação (mal feita, por sinal) em uma tese, citação esta totalmente fora de contexto: esquisita, à primeira vista; realmente mal colocada quando se lê no livro. Mas erros alheios à parte, a questão é que a frase que li me inquietou e não me deixou dormir até que eu tivesse o livro em minhas mãos Citando, de forma mais coerente, eis a passagem: 


Nos gregos Letes é uma divindade feminina que forma um par contrastante com Mnemosyne, deusa da memória e mãe das musas. Segundo a genealogia e teogonia, Lete vem da linhagem da Noite (em grego Nyx, Nox em latim), mas não posso deixar de mencionar o nome de sua mãe. É a Discórdia (em grego, Eris, em Latim, Discordia) - o ponto escuro nesse parentesco. (WEINRICH, 2001, p. 24)


Ora, e não é que tudo começava a fazer sentido? Quer dizer, sentido sempre fez, mas eu não encontrava bases teóricas nas quais me apoiar... e essa citação me vem, assim, despreocupadamente. Desde que comecei minhas leituras sobre a questão da Memória, a "pulguinha" (que palavra pouco acadêmica! mas juro que não encontrei outra melhor) do Esquecimento incomodava-me. Afinal, há coisas que não podemos esquecer; outras, que queríamos ter sempre perto, esvaem-se de nossas lembranças, fazendo com que nossas mãos fabulem outras verdades. E como isso fica na literatura? Bem, é o que o filólogo alemão Harald Weinrich (Wismar, 1927) tenta discutir.


Weinrich começa abordando o esquecimento na Grécia Antiga, justamente na mesma época em que nascia a Arte da Memória (mnemoteca), contando a anedota sobre este nacimento:
Diz-se que um boxeador, Scopas, contratou Simônides para criar um hino às suas vitórias que seria lido numa comemoração. Como o poeta utilizou dois terços do poema em exaltação aos deuses Castor e Pelos, gêmeos esportistas, Scopas apenas pagara um terço do pagamento, mandando-lhe cobrar o restante aos deuses. Na comemoração feita por Scopas, um mensageiro diz a Simônides que dois jovens o esperam em frente ao salão. Quando este sai, não há ninguém à sua espera, porém o teto do salão desaba, matando todos que ali estavam e deformando os corpos. O poeta, por ter boa memória, é convocado a dizer onde cada convidado estaria, para que as famílias pudessem providenciar os funerais.


Mas nem só de Memória viveu a Grécia. Em outra anedota, Simônides procurou Temístocles para ensinar-lhe a ars memoriae, e este lhe respondeu que não precisava disto: antes precisava de uma arte do esquecimento (ars oblivionis). Dessa arte, muitos poetas se utilizaram e muitas obras se ergueram até nossa contemporaneidade. E Weinrich faz esse passeio: Homero, Agostinho, Dante, Rabelais, Rousseau, Casanova, Goethe, Nietzsche, Freud, Sartre, Schiller, até remeter à produção pós Segunda Guerra - o caso de "Auschwitz e o esquecimento impossível" - e à produção literária de Borges.


A grandiosidade deste livro é sua acessibilidade, tanto pode ser lido por um leitor já maturo em teoria e crítica literária - que irá se deparar com conclusões pertinentes - quanto por um leitor menos experiente, pois o encadeamento de informações é de fácil compreensão e o raciocínio é passado da forma mais clara possível. Enfim, um livro que recomendo, de leitura agradável, que levanta questionamentos pertinentes e aponta conclusões plausíveis.

Última atualização ( Ter, 12 de Maio de 2009 20:19 )