Antessala

Brincadeirinha Linguística

A Rita Kramer, garota linda e inteligente. Espero que goste da brincadeirinha.

 

Estava nua. Não de roupas, mas de verbos. Despiu-se das referências, peça por peça, e seguiu para o Outro, que estava sempre a centenas de palavras de distância. Não podia pisá-las, novamente. Ela fez para si, então, asas, pois seu corpo, sem delimitações semânticas, poderia ser até o próprio vento.

O Outro sempre estava lá. Na montanha de frases. Precisaria agarrar-se em suas mãos e, de maneira ligeira, livrá-lo dali. Era sua única chance, antes que algum significado ousasse interferir. Mas começou a chover pontos de vista e suas asas pesaram. Caía; abaixo de si apenas ondas de temas, de aspecto vermelho como sangue ainda não coagulado.

Deu a si guelras e nadou até uma margem intransitiva, onde tudo parecia acabar. Entretanto, percebeu que tudo era apenas o começo, pois o verbo sempre fora nossa carne e apenas existia em nós.

 

Última atualização ( Qua, 31 de Março de 2010 02:09 )

 

Desabafo

A Paloma dos Santos, porque transcendemos as aspas.


Ontem estive me sentindo sufocada; triste até. As coisas se avolumaram de tal forma que pensei que iam me tragar; eu me perdendo num emaranhado de aços tortos, cores fortes, energias fartas. Mas depois lembrei que eu era Virgínia Celeste Carvalho, com todos os defeitos e qualidades que isso implicava, e, sinceramente, ego murcho não constava em nenhuma das listas.

Tentei lembrar fatos que vivi e, principalmente, porque eu os vivi. Pensar em todas as pessoas que fui e nas que deixei de ser. Nas que eu poderia ter sido também. E esse sentimento enlameado não estava nos planos de nenhuma delas. Tive medo.

Mas era noite, porta da madrugada já, e nessas horas as horas deixam de fazer algum sentido. Tudo fica muito instável e era eu quem estava em crise, não uma personagem. Não havia ficção alguma, eu me repetia. Mas depois pensei que a ficção poderia ser tão tamanha que nem eu percebera seus contornos. Duvidei de mim.

As faltas preenchiam. E algumas faltas sequer tinham nome, sequer formas, nem sentido. Era falta do que eu tinha, falta mesmo do que eu era. E fiquei assim pensando nessas coisas amorfas, inominadas, e, justamente por isso, tão intensas e inquietantes.

Daí lembrei que uma amiga me falou que precisamos definir as coisas. Não basta senti-las, vivê-las, jamais apenas passar por elas como passamos pela estrada imersa em canaviais. Precisamos envolvê-las em signos que as designem; que as façam significar algo fora de si. A linguagem e sua alienação primeira: delimitar, quando as coisas são, em si, esparsas.

E tudo que precisei foi nomear aquele momento para poder transcendê-lo.


 

Texto Esquecido

É hora de ler o passado. Remexo meus verbos e encontro algum sentido, embora não mais participe desta ótica. Palavras até belas, mas vazias.

Agora me sinto inteira, sem reticências. Sinto a morte vir, sorrio-lhe e ela me corresponde, bela qual brumas que se espalham pela planície em manhã de inverno.

Entretanto não a esperarei aqui, não inerte, não de mãos atadas. Estender-lhe-ei minhas mãos e ela cederá a meu capricho de mais uma valsa, porque ela é apenas aquela adolescente irrequieta que habita em nós: uns a sufocam e amarguram-se; outros a libertam e têm uma semana feliz.

Ainda me amarguro, mas voltei a me comover. Talvez seja o clima: um dia cinza em pleno verão nos faz nos esquecer um pouco, logo não precisamos escolher o que sufocamos ou libertamos e isso nos dá certo sentido sem que percebamos.

O sentido que tanto perseguimos em vão, aquele mesmo tão mimetizado, tão metaforizado e sempre impalpável.

O sentido de um girassol que cai sobre si mesmo, ao crescer mais que suas forças.
 

Generalidades

Ela estava sentada em sua cadeira de roda, ao lado do sinal. Perdera as pernas em algum acidente. Enquanto isso sua filha mais velha recolhia moedas nos carros parados, com a filosofia de criança-pedinte: "10 centavos, 1 Real serve". A caçula, ao lado da mãe, pés descalços num calor que ultrapassava os 30º, estava sem camisa; e cobria seus futuros seios com as mãos. Os descobriu, para coçar a cabeça.

Ao lado do sinal, havia uma Igreja Cristã. Dois velhos e seus cabelos brancos conversavam à sombra de uma árvore, enquanto uma senhora bem vestida desperdiçava água potável aguando plantas, que sobreviveriam, de outra forma, às custas da chuva.

Eu estava no ônibus, com meus novos cremes de cabelo no colo.

O mundo continuava a girar em torno do sol, sem se importar nem um pouco.

Recitei, para o espanto dos outros passageiros: Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria

 

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¹ Charles Baudelaire, As Litanias de Satã.

Última atualização ( Qua, 23 de Setembro de 2009 18:44 )

 

Muito pouco

Tenho escrito muito pouco, ultimamente. Na verdade, nada tenho escrito.

Tenho sido folhas em branco; tintas evaporando; dormência nas mãos inertes... só o vazio na tela do word.

Tenho perdido palavras preciosas; e os mais belos versos de amor; e os mais trágicos versos de espera; e os mais puros versos de entrega; os mais incrédulos versos ateus...

(Enquanto isso vou me repetindo a desculpa que já não sei me ser)

Última atualização ( Qui, 17 de Setembro de 2009 18:13 )

 
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